No Galeão, goteiras e 68% de embarques fora do horário

Para especialista, falta de ônibus para pegar passageiros agrava problemas

Clarissa Thomé, O Estadao de S.Paulo

26 de janeiro de 2008 | 00h00

O escrevente Leandro Valente, de 30 anos, ficou surpreso na quinta-feira com a reclamação do filho, quando passava pelo saguão do Aeroporto Internacional Tom Jobim. "Pai, está chovendo no aeroporto", reclamou Pedro, de 5 anos. Foi então que Valente percebeu uma goteira no setor de embarque. Mais para a frente, na entrada do corredor entre os Terminais 1 e 2, deparou-se com dois baldes verdes, insuficientes para aparar a água, que escorria pela rampa. "O Sergio Cabral tem razão. Isso aqui virou uma espelunca", disse o escrevente, referindo-se à declaração do governador do Rio, que defende a privatização do aeroporto - já negada pelo governo federal. "O pior é o atraso sem explicação. Na ida, esperamos por mais de duas horas. Deu tempo até de almoçar", comentou a escrevente Juliana Monerat, de 30 anos, mulher de Valente. Pesquisa feita pela consultoria Visagio coloca o Tom Jobim na desconfortável posição de pior aeroporto do País, com 68% das partidas atrasadas. Entre os problemas, apontam os consultores, está a distância entre as duas pistas principais e o Terminal de Cargas (Teca), de 7 quilômetros. As operações de carga e descarga estariam atrasando os vôos, acreditam. O professor de transporte aéreo da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Respício do Espírito Santo Junior, não acha que a distância seja a causa dos atrasos. "Outros aeroportos do mundo têm terminais de carga tão ou mais distantes. Mas é preciso que se investigue como é feito o processamento da carga."Felipe Soares, ombudsman do Fórum Contato Radar, que reúne pilotos e estudiosos de aviação, credita os atrasos a outro fator - a falta de veículos para buscar e levar passageiros de aviões que não são acoplados aos portões de embarque. "Depois do acidente em Congonhas, as empresas passaram a fazer vôos diretos para o Rio. Com o número maior de aviões, não há gates para todos que pousam. Os aviões ?operam em remota?, ou seja, param na pista. Só que não há ônibus para buscar e levar todos os passageiros."Ainda de acordo com Soares, nem todos os portões de embarque estão funcionando. Há ainda portões duplos, que deveriam ser usados por dois aviões ao mesmo tempo. "Mas não há espaço, por exemplo, para dois Airbus pararem ao mesmo tempo. Então, um deles terá de operar em remota."Soares também cita a burocracia como causadora de atrasos. "Os aeroportos brasileiros exigem dos passageiros em conexão duas vistorias de raio X, mesmo quando operando de aeroportos como Galeão, Congonhas, Guarulhos e Brasília, que são da mesma empresa, a Infraero. Um passageiro que já sofreu vistoria no Galeão, se for para Brasília fazer uma conexão para Palmas, precisa de nova vistoria em Brasília, retardando o processo. Isso não ocorre nem nos Estados Unidos."Para Ademir Lima de Oliveira, diretor do Sindicato Nacional dos Aeroportuários (Sina-RJ), o problema do Tom Jobim é a "falta de estrutura crônica". "Simplesmente não se conserta. Os sanitários estão com defeito, há vazamentos e goteiras, nem mesmo lâmpadas são trocadas", afirma. Na quinta-feira, as rampas com esteiras rolantes no corredor que une os dois terminais estavam quebradas. As pessoas eram obrigadas a andar com bagagens por mais de 200 metros. A vendedora Helenice Oliveira, de 30 anos, equilibrava as malas e o filho Samuel, de 2 anos, num carrinho, enquanto tentava subir a rampa. "Moro em Lisboa e costumo viajar a partir de Brasília ou São Paulo. É a primeira vez que viajo desse aeroporto e estou decepcionada", disse. O presidente da Associação Brasileira de Turismo Receptivo (Bito), Roberto Dultra, lembra que as "impressões cruciais para os turistas são a primeira e a última". "Depois de pelo menos oito horas de viagem, ele encontra um aeroporto com goteiras, elevador quebrado e com longas filas", lamenta Dultra. Além disso, ele lembra que o Terminal 2, mais novo e maior, está ocioso, enquanto o Terminal 1 está sobrecarregado de empresas. "Mas acredito que seja um dos mais seguros do mundo, com duas pistas longas, apto a receber aeronaves de todos os tamanhos, sem construções próximas."A Assessoria de Imprensa da Infraero não contestou os dados da Visagio sobre atrasos. Em nota, disse que "menos de 5% são causados por questões relativas à infra-estrutura do aeroporto". Informou que a distância do Terminal de Cargas não é entrave para a operação da empresa e o número de ônibus "atende perfeitamente" aos vôos programados para o Galeão. Ainda de acordo com a Assessoria de Imprensa da Infraero, a revitalização do Terminal 1 e do Terminal de Cargas está prevista no PAC do governo federal. "Algumas obras fora desse plano já estão em andamento e incluem, entre outros itens, recuperação dos banheiros e elevadores."

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