No meio da rota, tempestade

Zona de convergência intertropical tornava condições meteorológicas adversas na região

Diego Zanchetta e Mariana Barbosa, O Estadao de S.Paulo

02 de junho de 2009 | 00h00

O Airbus A330 da Air France passou por uma zona de forte turbulência por volta das 23h, 14 minutos antes de reportar uma pane no circuito elétrico. Segundo meteorologistas ouvidos pelo Estado, o mau tempo enfrentado pelo Airbus resulta da chamada zona convergente intertropical. Nessa época do ano, ela já deveria ter subido em direção ao hemisfério norte. Como a massa se concentra sobre a parte mais quente do mar - o Oceano Atlântico tem águas de temperaturas superiores em sua porção sul -, ela segue estacionada em uma faixa contínua de cerca de 500 km, perto do litoral do Nordeste brasileiro e paralela à linha do Equador."Mas essa zona de instabilidade os pilotos estão acostumados a enfrentar. E o piloto sempre tem como desviar de nuvens carregadas. Não havia nada de anormal na meteorologia para a realização do voo", afirmou Marcelo Seluchi, meteorologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)."A massa é uma linha quase contínua e paralela à linha do Equador, que costuma ter de cem a mil quilômetros de extensão e dá a volta em todo o planeta. Os pilotos estão acostumados a passar por essa zona de instabilidade", acrescentou o meteorologista. Os comandantes franceses concordam.Normalmente, o avião que passa pela zona intertropical voa por cima das nuvens carregadas, explica a meteorologista Fabiana Weykamp, da Climatempo. "Por isso, acho difícil a queda por causa da turbulência. É essa zona intertropical que vem causando as chuvas do Nordeste e costuma causar tempestades em alto-mar. Mas essa banda de nuvens carregadas ocorre o ano todo. A posição atual é que está um pouco abaixo do normal. Essa massa já deveria estar mais próxima do hemisfério norte. Nas próximas semanas, a tendência é ela subir."Para o diretor técnico do Sindicato Nacional das Empresas Aéreas (Snea), comandante Ronaldo Jenkins, a fotografia de satélite da região no momento em que a aeronave desapareceu não revela situações fora do comum. "Não há nada na fotografia de satélite que chame atenção", disse Jenkins."Não havia nada anormal que tivesse de ser reportado pelo controle de tráfego aéreo ao piloto." Para o especialista, mesmo que tenha havido turbulência, é improvável que essa tenha sido a principal causa do acidente. "Turbulência por si só não derruba avião", afirmou.O comandante Miguel Dau, vice-presidente Operacional da Azul Linhas Aéreas, afirma que a travessia do Atlântico é considerada uma rota bastante segura, mas nesta época do ano é comum haver turbulências moderadas em parte do trajeto. "É possível desviar de formações meteorológicas visíveis aos radares, como nuvens pesadas." Na avaliação de Dau, que fazia essa rota quando era comandante da Varig, nos anos 90, é "raríssimo uma turbulência derrubar avião em voo de cruzeiro". "Não lembro de acidente dessas proporções causado por turbulência", disse. Ainda segundo o comandante, as turbulências são mais perigosas quando acontecem no momento de aproximação e do pouso.RAIOSA possibilidade de um raio ter destruído o avião no ar não existe, segundo especialistas. Para Miguel Dau, um raio pode ter resultado, em hipótese remota, numa interferência eletromagnética nos equipamentos eletrônicos. "Mesmo que essa interferência eletromagnética tenha provocado pane elétrica, isso não explica o acidente." Jenkins classificou de "balela" a hipótese do raio. "O fato que temos é que houve uma pane elétrica. Pode ter sido a pane elétrica e diversos outros fatores, como a turbulência. Sobre o raio, acho uma hipótese bem improvável como causa única."O meteorologista Hilton Silveira, coordenador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Universidade de Campinas (Unicamp), aponta, além de raios, a possibilidade de ventos descendentes e ascendentes a 12 mil metros de altitude. "As turbulências na zona intertropical são assustadoras, existem esses ventos de cima e de baixo ao mesmo tempo. E temos de levar em consideração que as tempestades são muitos fortes na área dessa massa", afirmou Silveira.

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