No Planalto, a novidade da boca fechada

Dilma passou o primeiro mês de mandato quase silenciosa e afeita a reuniões reservadas, um contraste com Lula, que fazia até 4 discursos por dia

Leonencio Nossa, Tânia Monteiro e Rafael Moraes Moura, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2011 | 00h00

Em um governo que se autointitula "de continuidade, mas sem continuísmo", a grande marca do primeiro mês da primeira mulher no Planalto ficou inteiramente centrada no jeito Dilma Rousseff de aparecer em público. Em contraposição à Era Lula, quando o presidente era capaz de fazer até quatro discursos em um dia, Dilma Rousseff passou os primeiros 30 dias úteis do mandato provando ser um exemplo extremado de economia nas palavras.

Na semana passada, na primeira viagem internacional à vizinha Argentina, e na primeira solenidade no Palácio do Planalto, Dilma deixou claro que não vai ser uma presidente à imagem e semelhança de seu padrinho político, pelo menos no que diz respeito a discursos oficiais. Em Buenos Aires, chegou a impor um acordo mostrando que a Presidência em que "nunca se falou tanto" mudou para a Presidência em que "nunca se falou tão pouco".

A agenda de Buenos Aires não previa conversas com a imprensa. Pouco antes de embarcar de volta para o Brasil, ela aceitou responder, mas a duas perguntas apenas. A entrevista foi dada longe do púlpito de acrílico que os assessores montam em todas as viagens presidenciais. É uma governante que foge dos rigores do cerimonial, "como se isso protegesse a figura da presidente", avalia um assessor.

Dilma não gosta do encontro "quebra-queixo" com jornalistas, aquela entrevista coletiva em que a autoridade tenta emplacar uma mensagem, mas, ao mesmo tempo, submete-se a uma saraivada de perguntas. Ela prefere contatos seletivos, espera ser "bem entendida" pelos entrevistadores e ficar livre das perguntas "inconvenientes", disse uma fonte do governo.

Na cerimônia pública, quinta-feira, quando anunciou a distribuição gratuita de remédios para hipertensão e diabete, o ambiente do Planalto em nada lembrava as performances entre o carismático e a megalomania do ex-presidente Lula, quando provocava risos, palmas e certos embaraços. Apelava para metáforas futebolísticas, quebrava protocolos e normas da língua culta, verbalizava improvisações e seguia adiante.

Discrição. Dilma promete ser a presidente da discrição, mais confortável com apresentações em PowerPoint em reuniões fechadas do que com falas dirigidas ao público. Na quinta, não faltaram números, porcentagens.

Ela até mencionou Lula, mas a citação só tornou ainda mais evidente a diferença, saiu o showman, entrou a gerente.

Um mês de poder reforçou ainda mais o gosto pelas reuniões fechadas, expôs uma governante participativa nas negociações políticas, menos centralizadora do que se esperava - terceirizou o varejo, com Antonio Palocci de chefe da Casa Civil e escudeiro - e ciosa da autoridade. Ela carregou para o gabinete da Presidência um hábito da época em que era ministra da Casa Civil: pouca transparência sobre as políticas em gestação.

Além da pouca satisfação sobre seus atos no Planalto, Dilma cobra silêncio de ministros e assessores diante dos holofotes.

No gabinete do terceiro andar do palácio, Dilma tem sido dura com os auxiliares, não admite dúvidas e respostas que começam com "eu acho", relatam ministros. É enfática ao cobrar números e detalhes de projetos e ações.

Parlamentares têm reclamado que, diferentemente da época de Lula, não conseguem brecha na agenda presidencial para uma rápida conversa. Hoje, deputados e senadores se contentam em conversar com Palocci. No primeiro mês de governo, ficou claro para assessores do Planalto que o ministro da Casa Civil é o braço direito da presidente, especialmente nas negociações políticas. Dilma também tem recorrido com frequência ao vice-presidente Michel Temer, do PMDB, para diminuir a ânsia do partido por cargos no segundo escalão.

Em janeiro de 2003, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou dois países - Suíça e França - e viajou para quatro cidades brasileiras - Teresina, Itinga, Curitiba e Porto Alegre. Nos seus primeiros 30 dias, Dilma visitou a Argentina e só fez viagens para o Rio, para prestar solidariedade às vítimas das enchentes. Uma viagem pelo sertão nordestino, reduto lulista, chegou a ser cogitada, mas até agora não entrou na agenda da presidente.

Poucas palavras

DILMA ROUSSEFF

PRESIDENTE DA REPÚBLICA

"Venho para consolidar a obra transformadora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem tive a mais rigorosa experiência política da minha vida"

(No discurso de posse, no dia 1º de janeiro)

"Não podemos deixar se repetirem catástrofes dessa dimensão. Temos conhecimento do que é necessário fazer para evitar isso"

(Ao visitar a região serrana do Rio, no dia 27 de janeiro)

"A sociedade em geral tem a responsabilidade de aprofundar a democracia começando por aquela que é nossa missão mais básica que é erradicar a pobreza no Brasil"

(Mensagem ao Congresso Nacional na abertura do ano legislativo)

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