No pós-Lula, resultado é o estilo

Primeiros 15 dias mostram uma presidente que aparece pouco, só fala o inevitável e troca a emotividade de Lula pela lógica das metas

Gabriel Manzano, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2011 | 00h00

Foram apenas duas semanas, mas já se percebe a diferença. Em 2003, da posse até 15 de janeiro, Luiz Inácio Lula da Silva tinha visitado três Estados, falado ao País seis ou sete vezes - entre discursos e declarações à imprensa - e anunciado dois projetos fortes, o Fome Zero e o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). De quebra, participou de um Fórum Social em Porto Alegre e deu pito público em dois ministros.

Os primeiros 15 dias de Dilma Rousseff não podiam ser mais diferentes. Se Lula era exemplo acabado da célebre frase "o estilo é o homem", do francês Buffon (George-Louis Leclerc, 1707-1788), ela deu uma guinada na vida política brasileira e decretou: o resultado é que é o estilo. Aparecer ao País, ela só apareceu no 13º dia, porque as enchentes no Estado do Rio a forçaram a andar na lama e até a dar uma entrevista coletiva. Mas, longe dos auditórios e microfones, já anunciou um "conselho de gestão" para vigiar de perto os projetos, os custos e os prazos.

Ainda assim, os dois inícios de governo guardam semelhanças. Dilma "responde" ao Fome Zero com o "PAC da Pobreza". Valoriza a estratégia de consolidar os programas sociais. Lula escalou Antonio Palocci para a ponte com empresários, ela o convoca para segurar os políticos.

Mesmo a atual queda de braço entre PT e PMDB por cargos e pelo controle do Congresso repete o que se viu em 2003. O acordo, então, era emplacar João Paulo Cunha, do PT, na presidência da Câmara e Renan Calheiros, do PMDB, no Senado - e eis que o próprio Planalto se pôs a fortalecer o nome de José Sarney para brigar com Calheiros. Como agora, o presidente do PMDB, Michel Temer, subiu a rampa furioso para exigir que o acordo original fosse cumprido. "Mas o contexto político era outro e o poder de pressão do PMDB era muito menor", lembra o cientista político Marco Antonio Teixeira, da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. "Agora ele divide a aliança e tem o segundo homem na hierarquia. Se Dilma trombar, estará trombando com o vice."

Desacertos. Para quem supõe que Lula, com todo seu carisma e capital eleitoral, tinha controle da equipe, é bom recordar os imprevistos que marcaram seus primeiros passos. O ministro de Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, já no dia 4 de janeiro afirmava - para surpresa do Planalto - que o Brasil deveria dominar a tecnologia da bomba nuclear. Negar tudo e bater em retirada foi um trabalho delicado.

Mal passado o susto, o ministro da Previdência, Ricardo Berzoini, anunciou planos para uma reforma da Previdência que unificaria civis e militares. Uma tempestade de críticas varreu o Planalto - vindas do Congresso, dos militares, do meio judiciário, de sindicatos - e Berzoini teve de recuar e abandonar a ideia. Dias depois, d. Mauro Morelli, bispo de Caxias, atacou em público José Graziano, "ministro do Fome Zero", que o excluíra do Conselho de Segurança Alimentar. Perto desses episódios, a recente imprudência do ministro José Elito de Carvalho, da Segurança Institucional, que reduziu os desaparecidos políticos a "apenas um fato histórico" é quase nada.

Resultados. Para o cientista político Rubens Figueiredo, do Cepac, é preciso entender o alcance real das diferenças entre os dois governantes. "Lula é mais emoção do que razão, Dilma é o oposto disso", ressalta. "Ele fala com a sociedade, ela com o Estado. Lula se forjou na assembleia, nas negociações. Ela é um quadro de gestão, de metas prioritárias, de controles e prioridades, enfim de resultados." Mas a presidente também entende de avanços e recuos. Por exemplo, começou endurecendo com o PMDB sobre ministérios e depois o autorizou a negociar o segundo escalão com os ministros.

Para Marcus Figueiredo, do Iuperj, as comparações entre Lula e Dilma escondem um problema sério: "Dilma sabe que herdou de Lula um imenso capital político e que não pode perdê-lo. Ela terá de aprender a lidar com o público, mesmo que seu governo tenha bons resultados."

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