No primeiro ciclo, Educação Física levada a sério

Professores da rede estadual que dão aulas de Matemática, Português, Ciências e das demais disciplinas da 1.ª à 4.ª série do ensino fundamental podem deixar de ministrar aulas de Educação Física a partir do ano que vem. A disciplina ficaria a cargo de docentes formados na área - a exemplo do que já ocorre com as turmas da 5.ª série até o último ano do ensino médio. A mudança está sendo estudada pela Secretaria de Estado da Educação, que nesta sexta-feira reuniu cerca de 700 professores no 1.º Fórum de Educação Física Escolar. Hoje, no primeiro ciclo do ensino fundamental, todas as matérias são dadas pelo mesmo professor. E o que deveria ser Educação Física acaba se limitando a atividades livres nas quadras e no pátio das escolas. "Cerca de 70% dos nossos professores polivalentes (que dão aulas para essa faixa-etária) têm dificuldades sobre o que fazer com os alunos no horário da Educação Física", diz a responsável pela Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas da secretaria, Arlete Scotto. Não há legislação no País que exija a presença de profissionais formados em Educação Física no primeiro ciclo do ensino fundamental. A secretaria, porém, aposta nas vantagens da mudança. O Estado desenvolve um modelo de aulas nas quais desde os primeiros anos os alunos começariam a aprender a importância da atividade física e a ter contato com o básico sobre fisiologia, que deverá ser incluído até nas aulas teóricas. O atual modelo meramente esportivo ou recreativo perderia espaço. "A idéia é de que desde as séries iniciais a criança passe a conhecer conceitos sobre os efeitos benéficos da atividade física", diz o professor de Educação Física da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) Mauro Gomes de Mattos, membro de uma comissão criada pela secretaria para tratar do assunto na rede. A atenção precoce à atividade física diminuiria as chances de que essas crianças se transformassem em adultos sedentários. Adultos - Estimativas apontam que 25% das crianças que fazem atividades físicas tornam-se adultos ativos. "A fase em que a Educação Física pode dar a maior contribuição para a formação das pessoas é justamente entre a 1.ª e a 4.ª série", diz outro especialista, o professor Go Tani, da Escola de Educação Física da USP. A secretaria prevê capacitação dos 9.980 professores especializados da rede que hoje atuam com alunos mais velhos, de acordo com o novo modelo. Os interessados em passar a trabalhar com crianças terão a chance de se inscrever no novo programa. Exceção- Os alunos da professora Francislene Rosso, de 29 anos, podem se considerar privilegiados. Ela é a única profissional da Escola Estadual José Carlos Dias, na Casa Verde, zona norte, que além de ter cursado o magistério é também formada em Educação Física. Suas aulas misturam atividades físicas com lúdicas e primeiras noções de modalidades esportivas. "Monto circuitos de exercícios, jogos de futebol, vôlei e atividades livres", diz ela. Nas aulas dos professores, a rotina é outra. "Os meninos ficam na quadra e as meninas pulando corda e brincando de bambolê", diz a diretora-substituta, Sonia Maria Barboza, que se diz entusiasmada com a possibilidade de a escola passar a contar com professores de Educação Física. Letícia Nolasco, de 9 anos, uma das alunas de Francislene, adora as aulas. "Gosto de jogar queimada e de futebol", diz, animada. Francislene conta que sua escola oferece um bom material para as aulas. Mas que já chegou a trabalhar em outros lugares onde era obrigada a levar equipamento próprio, dada à desatenção que muitas escolas ainda conferem à Educação Física - especialmente para as crianças menores.

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