No proibidão, letras fazem apologia ao PCC

MC Zóio de Gato, um dos intérpretes, tem apenas 13 anos

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2008 | 00h00

Duas coisas impressionam na música do MC Zóio de Gato, de 13 anos, da Vila Natal, Grajaú, na zona sul. Uma delas é o talento do cantor. Na música Amor de Mãe, inspirado na embolada, ele canta funk usando a base de um pandeiro, mostrando criatividade e capacidade para inovar, apesar da pouca idade. Outro susto é ouvir um fio de voz de criança cantando letras em celebração ao Primeiro Comando da Capital. Mesmo longe do grande público, MC Zóio de Gato faz sucesso na internet, com vídeos que chegam a ter mais de 1 milhão de acessos. Na zona sul, em boates como o Maria Mariah, o som do garoto faz ferver as pistas de dança.Assim como ocorre no Rio, no funk de São Paulo parte das músicas celebra a vida do crime de forma escancarada. O estilo é conhecido como proibidão-facção e qualquer cautela é deixada de lado. Os MCs de funk se lançam em defesa do PCC dando nome e, em alguns casos, mostrando o rosto.Na zona sul, MC Tartaruga também faz sucesso com letras que tratam do PCC. Os shows do Mc Keké, funkeiro da Baixada Santista, disponíveis na internet, vêm abaixo quando ele canta o hit Quem Manda. No palco, o MC provoca: "Cinco dias de terror, zona sul parou pra ver, quem manda, quem manda?" O público responde: "Quem manda é o PCC."Os cantores de proibidão não circulam no circuito comercial. Ficariam restritos aos vizinhos do bairro, não fosse a internet. Marcelo Rocha, da Galácticos Produções, divide o funk entre "do bem" e "do mal". "Não dá para levar o proibidão para os bailes. Atrai marmanjo demais, passa uma imagem negativa e o ambiente fica ruim."A onda do proibidão começou a ganhar força no Rio no começo dos anos 1990, por meio de nomes como Mr. Catra, que festejava o Comando Vermelho. O arrastão ocorrido na Praia do Arpoador, filmado e apresentado na televisão em 1992, é apontado como um dos fatores que impulsionaram essa nova vertente.Naquela época, a culpa pela desordem nas praias foi atribuída às galeras de funk. Como resultado, a música foi proibida pela polícia de tocar em ambientes públicos. "Os traficantes e as facções não poderiam ter recebido presente melhor. O funk já era a principal forma de diversão popular e foi abraçado pelos traficantes. Acredito que a proibição e a discriminação cultural ajudaram a empurrar o funk para esse universo das letras proibidas", diz José Marcelo Zacchi, diretor-executivo do Instituto Overmundo. No rap de São Paulo, que predominou nas periferias durante todo os anos 1990 e começo dos 2000, mesmo nas letras que tratavam do crime de forma mais explícita, como as do grupo Facção Central, havia um cuidado dos MCs em dizer que a intenção era mostrar a realidade para desestimular os ouvintes a escolherem o lado errado da vida. E não se falava em PCC.Com o funk e a internet, a situação piorou. Percebendo o problema, em setembro, o subprefeito de Cidade Tiradentes, Renato Barreiros, apoiou um grande evento de funk na região promovido por Cleber Passos, o Bio-g3, um dos MCs do bairro. Ele conseguiu R$ 50 mil com a iniciativa privada para dar apoio ao festival, que trouxe bandas de fora e premiou revelações locais. Cerca de 20 mil pessoas estiveram presentes. Os vencedores do festival vão gravar um CD de funk. "Tem ligação com o crime? Em alguns casos, pode ser. Mas trata-se de um movimento cultural que caiu no gosto dos jovens daqui. Qual é o papel da Prefeitura? Eu acredito que devemos investir e dar apoio, justamente para que esses artistas não vejam o crime como o único disposto a dar apoio a algo que eles queiram fazer."

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