No Rio, Lula visita obras no Complexo do Alemão

Presidente vistoria canteiro de obras do PAC e participa do lançamento do programa Território da Paz

Wilson Tosta, de O Estado de S. Paulo,

04 de dezembro de 2008 | 12h23

Menos de cinco horas depois de Matheus Carvalho, de 8 anos, ter sido morto na Maré com um tiro na cabeça supostamente em ação da PM, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou nesta quinta-feira, 4, no Complexo do Alemão, o programa Território de Paz, de policiamento comunitário, criticando a violência policial e prometendo uma polícia "companheira". Diante de moradores e integrantes dos programas sociais que o governo federal promove na região, alvo de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o presidente afirmou que a corporação "é composta por seres humanos, que "têm pais, têm filhos e que, também como nós, têm medo" e defendeu "uma relação harmônica" entre policiais e cidadãos. Lula afirmou ainda que a atuação da corporação é necessária. Foto: Fábio Motta/AELula tirou foto com operários que trabalham nas obras do Complexo do Alemão "Nem vocês podem ver a polícia como inimiga, nem a polícia pode ver vocês como bandidos", disse o presidente, na solenidade, ao lado do governador Sérgio Cabral Filho e do prefeito eleito Eduardo Paes, ambos do PMDB. "A Polícia estará aqui, porque é necessário ter a polícia, mesmo que a gente estivesse em paz. É preciso que tenha policiais, para evitar eventuais problemas que tem em toda e qualquer comunidade do mundo. Mas a polícia que vai atuar aqui vai ser uma polícia mais companheira das pessoas que trabalham aqui. Nós não queremos mais aquela polícia que aparece de quando em quando, sem saber tratar quem é bom e quem não é bom, tratando todo mundo como se fosse inimigo." Aparentemente, ao discursar, Lula não fora informado do que ocorrera na Maré, onde PMs foram colocados sob suspeita de matar a criança por volta de 7h30. Foto: Fábio Motta/AEPresidente de mãos dadas com uma menina da comunidade e ao lado do governador Sérgio Cabral Lula lembrou que, ao anunciar o PAC, pedira a Cabral Filho que lhe apresentasse propostas de melhoras nas regiões do Rio de Janeiro consideradas mais inacessíveis, que são vistas "a cada dia" na televisão: "Rocinha, Complexo do Alemão, Manguinhos, Pavão-Pavãozinho, Maré e tantas outras comunidades". "Quem não mora no Rio de Janeiro só via essas comunidades, nos jornais ou na televisão, no noticiário policial", afirmou. "A impressão que se tinha é a de que não tinha uma fruta boa nesse pé de laranja, que o pé estava todo podre. Na verdade, em um pé de laranja que tem mais de 200 laranjas, às vezes tem uma podre, e nós precisamos tirá-la sem machucar as outras 199 que estão boas e que vão amadurecer e servir para muita coisa neste país." O presidente lembrou que lançava 20 projetos na região devido à parceria que estabeleceu com o atual governador - sua antecessora, Rosinha Garotinho (PMDB), era adversária de Lula. "Estamos começando a fazer no Rio de Janeiro uma coisa que, se der certo como eu penso que vai dar, nós estaremos fazendo uma revolução para resolver, definitivamente, o problema da segurança pública no Rio de Janeiro, em São Paulo, na Bahia, em Minas Gerais e em todos os lugares", afirmou Lula. "Este programa vai ter mulheres daqui trabalhando nele, vai ter jovens daqui trabalhando nele, vai ter policiais daqui trabalhando de forma comunitária, vai ter Ponto de Cultura, vai ter formação profissional. Este é um programa completo de cidadania." O ministro da Justiça, Tarso Genro, que falou antes do presidente, defendeu com entusiasmo o Territórios de Paz, parte do Pronasci - Programa Nacional de Segurança com Cidadania e sua combinação com o PAC. "Este não é o velho modelo da Polícia que entra, bate, atira e sai", afirmou. Tarso também defendeu a Polícia que, segundo ele, saberá "usar a violência quando necessário". "Hoje é um dia muito importante para o Rio de Janeiro, é um dia muito importante para o Brasil", declarou. Realizada na antiga fábrica da Heliogás - uma das muitas antigas estruturas industriais da região que foram abandonadas por problemas econômicos ou de criminalidade - a solenidade teve produção cuidadosa, com apresentação do grupo AfroReggae e distribuição de panfletos coloridos, além de presença maciça de integrantes dos programas desenvolvidos. Nova etapa do Pronasci, o Territórios da Paz garantirá o estabelecimento de 20 postos de Polícia comunitária no bairro, com 600 policiais, entre outros projetos. "Este não é um ato de campanha eleitoral, não é um ato pequeno", disse Lula, ao iniciar o discurso.  Texto alterado às 19h57 para acréscimo de informações.

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