No Rio, mãe de jovem morto por PM vai recorrer da absolvição

Indignada com a decisão, mãe de Daniel Duque afirma que vai recorrer da sentença, que alegou 'legítima defesa'

Pedro Dantas, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2008 | 11h57

O policial militar Marcos Pereira do Carmo, que confessou ter matado o estudante Daniel Duque, de 18 anos, foi absolvido por unanimidade na madrugada desta quarta-feira, 8, pelo 3.º Tribunal do Júri. Os advogados da família da vítima vão pedir a anulação do julgamento. "Apesar de a defesa e a promotoria defenderem a tese de legítima defesa, o júri absolveu por considerar que o disparo foi acidental quando Daniel tentou tirar a arma do PM. Esta decisão é contrária às provas, pois a vítima foi baleada pelas costas quando se levantava para correr, conforme apontam todos os laudos", disse o advogado Wagner Magalhães.   Veja também: 'A vida passou a ser banal. Tiram vida de inocentes e vira número', diz a mãe Todas as notícias sobre o caso Daniel Duque    Duque foi baleado na madrugada do dia 28 de junho na porta da boate Baronetti após ele e os amigos se envolverem em uma briga com um amigo de Pedro Velasco, filho da promotora do Ministério Público Marcia Velasco, cuja segurança era feita pelo PM. "Foi um circo armado pelo corporativismo do Ministério Público. O promotor agiu como defesa", disse a mãe da vítima, que protestou durante o julgamento e foi expulsa do plenário.   O promotor do MP Marcelo Monteiro rebateu as acusações. "Quem absolveu o policial não fui eu, mas os sete jurados e por unanimidade. É compreensível que uma mãe não aceite que o filho errou nestas circunstâncias", afirmou Monteiro. Ele afirma que os autos contam outra versão da apresentada pelos amigos e testemunhas de acusação que, segundo ele, caíram em contradições. "As três moças que teriam presenciado o crime deram três posições diferentes para Daniel. A jovem apontada pela amiga como a pessoa que ajudou a vítima a levantar disse que estava distante", exemplificou.   Durante o julgamento, o promotor chamou os amigos de Daniel de "um bando de Pitbulls desaforados". "Como provam os autos, o PM estava cercado por pelo menos três lutadores de artes marciais embriagados, inclusive Daniel. O policial se identificou, deu dois disparos de advertência para o alto e mesmo assim a vítima tentou tirar a arma dele", declarou o Monteiro.   Apesar de o júri ter aceito a tese de tiro acidental, o promotor afirma que mesmo se o disparo fosse voluntário pediria a absolvição. "Se alguém souber qual a outra atitude que o PM deveria tomar para não ser espancado deve dizer", desafiou Monteiro. Segundo ele, os amigos perceberam que a vítima foi baleada na axila apenas no hospital, porque "estavam tão bêbados que expulsaram aos socos o médico que tentou socorrer Daniel no local".   Em nota divulgada dias após o crime, a promotora Márcia Velasco se solidarizou com a mãe de Daniel Duque. No texto, ela lembra de sua luta contra a violência e conta que voltou a ser ameaçada pelo criminoso no dia 19 de junho. "Pedro sempre tentou ter uma vida mais próxima da normalidade, com todas as dificuldades que teve por causa de nossa situação. Fico triste ao ver que tantas pessoas o considerem um privilegiado por estar sempre protegido por um segurança. Na verdade Pedro é um prisioneiro, pela nossa condição de marcados para morrer."   A promotora escreveu ainda que esperava um julgamento justo para o soldado, que segundo ela, nunca havia disparado nos oito anos em que trabalharam juntos. "Eu lamento do fundo do coração a morte do jovem Daniel Duque. Lamento profundamente a violência que se repete nesta cidade como uma rotina sufocante. Quero justiça, assim como todos. (...) Quero que o policial seja julgado - e não prejulgado - com o direito de defesa que se deve dar a todos. Direito que até o homem que quer nos matar, a mim e meu filho, está recebendo".   Texto ampliado às 18h30 para acréscimo de informações.

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