No Rio, violência mata mais crianças do que nos países em guerra

A violência urbana no Rio mata mais crianças do que os conflitos militares de países em guerra civil, como Israel, Colômbia, Afeganistão e Serra Leoa. Este é o resultado de um estudo divulgado hoje por pesquisadores do Instituto de Estudos Superiores da Religião (Iser), que entre novembro de 2001 e junho deste ano, visitaram três favelas da cidade, entrevistaram centenas de moradores e compararam estatísticas de assassinatos com a de outros países. Entre as comparações feitas, a que mais surpreende é a feita com Israel. Entre dezembro de 1987 e novembro de 2001, o conflito nos territórios ocupados matou 467 menores israelenses e palestinos. No mesmo período, morreram 3.937 pessoas com menos de 18 anos na cidade do Rio. "A cidade do Rio não está em guerra porque o traficante não quer ocupar o lugar do Estado, ele só quer ganhar dinheiro, mas o nível de violência é muito grande", diz o inglês Luke Dowdney, que coordenou a pesquisa. "E, apesar de não ser uma guerra, a violência tem tudo de guerra. Nosso desafio é tentar explicar o que acontece", afirma Michel Misse, outro pesquisador do Iser que participou do estudo.O levantamento mostrou a escalada dos homicídios de crianças cariocas nas últimas décadas. Em 1979, a taxa de mortes de menores de 18 anos era de 5,4 casos por 100 mil pessoas (88% causados por armas de fogo). Mais de 20 anos mais tarde, em 2000, o índice pulou para 23 casos/100 mil (87,2% provocadas por armas). O estudo mostrou ainda que as faixas etárias mais afetadas são as de 13-14 anos e de 15-17 anos. Nos dois grupos, os jovens têm mais chances de morrer por tiros do que os adultos com mais de 24 anos, sendo que o grupo de 15-17 anos é o mais ameaçado. "Isto demonstra que, à medida em que as crianças que trabalham no tráfico ficam mais velhas, estão armadas com maior freqüência e, conseqüentemente, mais envolvidas em conflitos e, por isso, morrem baleadas em ritmo drasticamente maior", diz o texto do estudo.ÍndicesA pesquisa também comparou os índices de mortalidade de jovens cariocas com as taxas de Nova York, Washington e Califórnia. Em 1999, a cidade do Rio tinha um índice quase seis vezes maiores do que o do Estado da Califórnia - 12,6/100 mil, ante 2,9/100 mil. As taxas de Washington e Nova York ainda eram menores, de 1,8/100 mil e 1,3/100 mil, respectivamente.O estudo também traçou um perfil do menor que trabalha para o tráfico e constatou que, em muitos aspectos, ele se assemelha com a criança que vive em um país em guerra. Ele é muito jovem (a média de idade de quem começa a trabalhar para o tráfico é de 13 anos), é remunerado e faz parte de uma estrutura organizada de violência, com hierarquia militar. Além disso, esses jovens usam armas poderosas e trabalham em ações que podem ser consideradas de guerra, como defesa de território, invasão de áreas alheias e troca de tiros (com a polícia ou outras facções criminosas).Os pesquisadores do Iser propõem que o estudo sirva para que o Brasil e a comunidade internacional comece a encontrar formas de evitar que a criança siga o caminho do crime e que se encontre mecanismos para defendê-la dos assassinatos. E uma das sugestões é evitar chamar os menores de "soldados". "Não podemos chamá-los de soldados porque, desta forma, damos legitimidade para assassinatos de crianças, com base no fato de que elas são reconhecidas como criminosas", afirma Dowdney. O outro caminho sugerido pelos pesquisadores é a ampliação de projetos sociais que ofereçam alternativas reais para que menores que vivem em comunidades carentes não sejam atraídos para o tráfico. "Eles escolhem trabalhar para o tráfico, mas a verdade é que as opções dessas crianças não são muitas."

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