No TRE, Tiririca consegue ler e escrever

Deputado mais votado do País, palhaço teve certa dificuldade, mas concluiu prova de ditado e leitura durante audiência e será diplomado

Fausto Macedo, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2010 | 00h00

Tiririca conseguiu ler e escrever ontem no Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. O palhaço de 1,3 milhão de votos - deputado mais bem votado no pleito de 2010 -, teve alguma dificuldade, sobretudo na hora de redigir, mas cumpriu as lições que o magistrado lhe passou em longa audiência no 13.º andar da corte que se prolongou por 12 horas.

Réu em ação penal - a promotoria lhe atribui falsidade ideológica porque suspeita que não partiu de seu punho a declaração de alfabetização anexada ao pedido de registro de candidatura -, Tiririca foi submetido a um teste de ditado e leitura perante o juiz Aloísio Sérgio Rezende Silveira, da 1.ª Zona Eleitoral da Capital.

Ele chegou ao TRE às 9h15, e de lá só saiu às 21h40, acompanhado de seu advogado, Ricardo Vita Porto. Quatro seguranças o escoltavam. Sem os trejeitos e os trajes - nem mesmo o chapeuzinho de palhaço -, que o acompanharam por toda a campanha, apresentou-se Francisco Everardo Oliveira Silva, seu nome de batismo, cearense de Itapipoca, nascido em 1.º de maio de 1965, "cantor, compositor e humorista".

No ambiente austero da toga, em camisa polo listrada, calça jeans e sapatênis preto de cadarços brancos, Tiririca portou-se respeitosamente e seguiu os ritos judiciais. Não contou anedotas, não cantou Florentina, seu maior sucesso, nem mesmo ousou repetir o bordão "pior do que tá não fica".

A prestação de contas de Tiririca à Justiça dividiu-se em duas etapas e a portas fechadas porque os autos correm sob segredo. Pela manhã, foi submetido ao exame gráfico. O juiz pediu a ele que copiasse um parágrafo do capítulo A Justiça brasileira pós Estado-Novo, do livro Justiça Eleitoral, uma retrospectiva. "A promulgação do Código Eleitoral, em fevereiro de 1932, trazendo como grandes novidades a criação da Justiça Eleitoral", anotou Tiririca, incluindo a cedilha e o til da primeira palavra do texto.

Essa parte da missão foi desempenhada vagarosamente. Ele alega sofrer de uma lesão, causada pelos muitos anos de labuta no circo, que o impede de aproximar o dedo indicador do polegar - na peça escrita que sua defesa expôs à Justiça, há duas semanas, admitiu ter sido ajudado pela mulher a preparar a declaração.

Depois, leu dois títulos de reportagens publicadas pelo Jornal da Tarde. Também teve de ler quatro linhas finas vinculadas às manchetes. O palhaço atendeu a quase todas as solicitações do meritíssimo. Uma só, data vênia, ele se negou a acatar: não se submeteu a perícia para avaliar a veracidade da declaração que juntou ao registro.

Pouco importa. Afinal, rezam os códigos, sua recusa não o prejudica. "Dentro da perspectiva legal ninguém é obrigado a fazer prova contra si", atestou o desembargador Walter de Almeida Guilherme, presidente do TRE. Indagado se Tiririca havia passado no teste, o desembargador foi precavido. "Eu não faria essa afirmação, nem sim, nem não." Indagado se o acusado provou ser alfabetizado, o presidente esquivou-se. "O juiz é que vai decidir. O ditado ele escreveu. Se escreve mal ou bem não posso dizer."

"Tiririca passa no exame do Enem?", alguém perguntou ao desembargador. "Não sei." Quiseram saber se ele votou no palhaço. "Não, não votei."

Seja como for, dia 17 de dezembro Tiririca receberá seu diploma - o canudo o habilita a ocupar cadeira na Câmara. O presidente do TRE foi taxativo. "Mesmo que haja condenação não interfere na diplomação. Ele vai ser diplomado, independentemente da sentença. A ação penal não ataca seu mandato." À tarde, segunda fase da sessão, quatro testemunhas depuseram. Antes, Tiririca leu e escreveu novamente.

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