No vagão cheio, gritos de consolo a ''fracassados''

Os pregadores tentam converter até os que dormem: ?O sono é uma fuga?

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

05 de julho de 2008 | 00h00

O trem se aproxima lentamente, às 18h45, da plataforma de embarque da Estação Brás da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Começa um empurra-empurra entre a multidão, que espera as portas se abrirem, antes de iniciar a luta por um lugar no vagão. Os pregadores de trem, um grupo de homens engravatados e mulheres de saias compridas com Bíblias sob os braços, posicionam-se para entrar no vagão 4, conhecido também como "vagão da bênção" ou "vagão dos crentes". "Que Deus nos ajude", grita um deles, no meio da confusão, antes de ser empurrado para dentro.No interior do trem superlotado, nem a noite fria de São Paulo ajuda a aliviar a sauna, capaz de encharcar a camisa em menos de meia hora. Antes de partir, alguém de dentro do trem grita que o "irmão Gil" passou mal. As portas permanecem abertas. O alto-falante do trem alerta os seguranças: "Em caso de mal súbito, avise." Um passageiro não compreende. "O que disse o alto-falante?" O outro responde: "Tome cuidado com a morte súbita."As portas se fecham, e um zunzunzum se inicia entre o grupo de evangélicos. Vai começar a longa viagem de mais de uma hora do centro de São Paulo com destino à Estação Calmon Viana, em Poá, município da Grande São Paulo. O pastor Marcelo Oliveira Silva, vestindo terno preto risca-de-giz, colete cinza e gravata azul, levanta as mãos e gesticula. Poucos conseguem ouvi-lo. Na verdade, ele estava dando a senha para o início do coro, que passa a ser acompanhado por mais de 40 vozes, surpreendentemente afinadas, que cantam músicas gospel, com direito a uma solista que solta longos agudos, entre os refrões.Capaz de tirar o fôlego de quem nunca presenciou a cena, o coral é acompanhado com indiferença por parte dos passageiros, acostumados com a longeva presença do grupo nos trens. Alguns dormem em pé, no caminho para casa. A algazarra parece incomodar um homem, que lê o livro Cabeça de Porco, de Celso Athayde, Luiz Eduardo Soares e MV Bill, bem no meio da confusão. As pregações surgem nos intervalos das músicas. Os evangélicos falam de Jesus, citam versículos da Bíblia, junto com uma espécie de consolo para pessoas no fundo do poço. "Falo para aqueles que não usam mais o travesseiro para descanso. O sono, para você, é uma fuga! Quando chegar em casa, não será recebido pela família, que se desfez. Tem uma voz dentro de você pedindo socorro. Mas ninguém escuta. Eu tenho uma coisa para lhe dizer. Jesus pode te escutar e vai levar você à vitória", diz Claudio Benedito Costa, um dos pioneiros do grupo em São Paulo. "Glória a Deus." "Ô, Glória", respondem os companheiros.Costa começou a pregar em 1980, rivalizando com um grupo que vinha batucando dentro do trem, no "vagão do samba". Existe também o "vagão dos nóias", onde o consumo de maconha é mais comum, e o "cassino", onde parte dos passageiros joga baralho - coibido pela segurança da CPTM. Ele aproveitava o tempo livre no percurso para o trabalho. Fala principalmente para os fracassados, perdedores, depressivos, que lotam os assentos da CPTM a caminho de casa. Como o gerenciador de cargas Paulo Marques, de 47 anos, que acompanhava dentro do trem as orações e músicas com discrição, enquanto seguia para Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo. Ele virou evangélico com ajuda dos pregadores, depois de ter chegado à lona, viciado em cachaça, vivendo três anos nas ruas da Praça da Sé. "Pedi socorro, e conseguiram para mim uma vaga numa casa de recuperação em Jacareí, e reestruturei minha família", conta Marques.CARTILHAOs próprios evangélicos sabem que não são unanimidade e procuram ensinar aos demais a ficar longe de problemas e de polêmicas. Para isso, chegaram a fazer uma cartilha para ensinar os pregadores a evitar os excessos. "Cânticos, louvores e orações devem ser em tom baixo, sem manifestação de línguas estranhas, sapateados, etc. Jamais questione a negativa ou repulsa de alguém. Nem mesmo responda a seus insultos", orienta a cartilha.Os violões também já foram banidos pelo grupo. Ocupavam espaço demais, principalmente na hora do rush. Os pregadores também estão orientando os integrantes do grupo a evitarem, de qualquer maneira, assuntos polêmicos, que tratem de homossexualidade, por exemplo, ou que ofendam a religião alheia. Depois do início da fiscalização, no entanto, a quantidade de pregadores diminui mês a mês. A segurança da CPTM comemora os resultados. "Estamos percebendo um maior respeito às normas", diz o gerente de segurança da empresa, Julio Antônio de Freitas Gonçalves. No semestre anterior, cerca de 40 evangélicos eram retirados por mês das composições. No mês passado, só seis causaram problemas.O pastor Tomás Higino de Moraes reclama de crueldade dos seguranças. Há 14 anos pregando no trem, já registrou dois boletins de ocorrência por agressão. Mas, para ele, pior é retirar os pregadores da estação, obrigando pessoas pobres a pagar nova passagem. "Recebemos telefonemas de pessoas sem dinheiro para voltar a embarcar. Muitos temem perder o emprego e por isso deixaram de pregar." A evangélica Teresinha Neves, que ajuda o grupo a se articular nas reivindicações, é mais direta. "Quando precisam de voto, os políticos vão procurar os pastores. Já os evangélicos pobres, eles expulsam do trem."

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