Nordeste vive pior seca dos últimos 30 anos

Região tem 525 municípios em estado de emergência por causa da estiagem

Angela Lacerda, O Estado de S. Paulo

08 Maio 2012 | 17h57

RECIFE - O quadro é de desolação no semiárido nordestino, que enfrenta a pior seca dos últimos 30 anos - desde a dificuldade de água para beber à destruição de plantações e perda de animais. São 525 municípios em estado de emergência.

Em Pernambuco, são 70 os municípios que vivenciam problemas já expressos em alguns números da secretaria estadual de agricultura: na maioria desta área a redução das chuvas foi em média de 75% - chegando até 92% em alguns - e a grande maioria dos açudes localizados no sertão estão com 30% da sua capacidade. A falta de chuva provocou a perda de 370 mil toneladas de grãos. Nos cem primeiros cem dias deste ano o número de animais vendidos para fora do Estado é 73% maior que o do mesmo período do ano passado.

"Os criadores, a maioria deles pequenos, estão se desfazendo dos seus animais porque falta ração, falta capim, falta sorgo", afirma o secretário estadual de Agricultura e presidente do Comitê Integrado de Combate à Seca de Pernambuco, Ranílson Ramos, que prevê dificuldade de recomposição do rebanho depois da estiagem, já que as fêmeas de boa linhagem têm sido comercializadas para o Pará e Maranhão.

Nem todos os criadores, no entanto, têm a sorte de conseguir vender suas reses. "É uma tristeza a gente ver os agricultores de pequenos sítios da área rural de Águas Belas pegarem seus bichos já muito magros para levar para as feiras na cidade e voltarem para casa com os mesmos animais", afirmou o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Águas Belas, no sertão, a 314 quilômetros do Recife, André de Santana Paixão. Com 33 anos, André só se lembra de ter visto secas tão fortes em 1983 e em 1998.

Ele reforça o que diz o governo: pelo menos por enquanto a população atingida pela seca não passa fome. "Passa necessidade", afirma ele. O Bolsa Família chega para 850 mil famílias no agreste e no sertão.

Os carros pipas - como única fonte de abastecimento d'água - voltaram a povoar a região semiárida. Ranílson Ramos afirma que o Estado precisa de 1,5 mil deles para atender as comunidades afetadas pela falta d'água. Por enquanto, são 1,1 mil rodando pela região - 600 deles do governo estadual e o restante do Exército e de prefeituras.

Os recursos anunciados pelo governo federal para minorar a agonia dos que vivem no semiárido nordestino - de liberação de crédito ao Bolsa Estiagem - ainda não se concretizaram. Organizados pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Pernambuco (Fetape), sindicatos têm mobilizado pequenos agricultores em protestos exigindo rapidez na efetivação das medidas e a participação da sociedade civil nos comitês de combate à seca.

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