Nos arquivos, a memória da Cidade

E tem biblioteca na sua cidade? Não tem, então não vou. Era assim, anos atrás, que o ex-técnico de futebol Adauri Alves recusava convites e ia ficando em São Paulo. Como trocar metrópole com biblioteca como a Mário de Andrade (Rua da Consolação, 94, tel. 3256-5270) por cidade que, bobear, nem banca de jornal tinha? O homem que trocou bolas e gramados por livros tomou gosto pela coisa. Virou pesquisador, viciado em história.Em São Paulo, Alves se esbalda com o acervo histórico. Sua última paixão é o Arquivo do Estado (Rua Voluntários da Pátria, 596, Santana, tel. 6221-1924), que ele define como "porta aberta para o mundo". É lá que encontra documentos oficiais, mapas, cópias de revistas e jornais, fotos e microfilmes. Com eles, escreve biografias, livros e artigos para os meios de comunicação. Seus temas prediletos: negros, futebol, loucura, crimes, música popular brasileira, história de São Paulo e famílias paulistanas.Alves é das antigas, não pesquisa na internet. Prefere beber nas fontes primárias. Além do Arquivo do Estado e da Mário de Andrade, quando está aberta - "é ela e o Parque D. Pedro, acho que nenhum prefeito gosta deles, estão sempre em reforma", ironiza -, ele freqüenta as bibliotecas das Universidades de São Paulo e Pontifícia Católica, o Arquivo Histórico Municipal, a Federação Paulista de Futebol e a Cinemateca Brasileira.Os funcionários do Arquivo do Estado sentem falta quando o senhor de 60 anos deixa de passar por lá numa semana. É que as mesas ficam ainda mais vazias. "Quando vejo pouca gente no Arquivo do Estado, fico triste. Parece que ninguém quer saber de pesquisar história..."Alves é daqueles que se aproximam de qualquer um sem pedir licença. Só pela curiosidade. Foi assim que ele conheceu Thais Matarazzo Cantero, de 26 anos. Engenheira elétrica, ela também pesquisa pelos acervos paulistanos por interesse particular. Em 1999, estudava na Universidade Mackenzie. Nas horas vagas, freqüentava a Mário de Andrade em busca de informações sobre os cantores do rádio.Quando pequena, ela ouvia com a avó discos de músicas antigas. Suas amigas adoravam a Xuxa, mas ela preferia Carmem Miranda. Aquilo ficou na memória, criou uma curiosidade que os livros não puderam saciar. "Elas são só pequenos verbetes em dicionários de música." Assim, Thais decidiu pesquisar a vida delas. E escrever monografias. Já são 12, de mais de 20 cantoras. E tudo com o empurrão de Alves, que ensinou o caminho das pedras.Certa vez, ela acompanhou Alves ao Cemitério da Consolação. E foi por sorte, folheando o livro dos mortos, que descobriu o paradeiro, até então desconhecido, da cantora Helena Pinto de Carvalho. Checou e rechecou a informação, surpreendendo até pesquisadores por profissão que desacreditaram dela num primeiro momento. Com o pouco tempo que sobra - hoje ela estuda jornalismo -, Thais freqüenta o Arquivo do Estado aos sábados. Ou o Museu da Imagem e do Som (Av. Europa, 158, hoje fechado para obras, sem data para reabrir). Nas tardes de terça-feira, é uma das mais jovens participantes do grupo de diletantes de música que se encontram no Pátio do Colégio desde 1976. Quem quer pesquisar sério, tem de ir às fontes primárias, gastar sola de sapato e não se refugiar no mundo virtual. Alves explica: "Você é um jornalista. Se amanhã morre, vai ter na internet duas páginas, mas sua vida vale mais que isso." Espero que sim, espero que sim, respondo.

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