Nos discursos, a valorização da mulher

Além de citar a questão de gênero em metade de seus pronunciamentos, Dilma destacou a importância da independência financeira

Roldão Arruda, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2011 | 00h00

Nos 33 pronunciamentos que fez desde a posse, em 15 deles a presidente Dilma Rousseff relembrou o fato de ser a primeira mulher no cargo ou homenageou as mulheres. Proporcionalmente, ela fala mais de mulheres do que seu antecessor. Isso poderia, por si só, ser motivo de deleite para feministas, que não perdem de vista o valor simbólico do fato e a influência que terá nas gerações de meninas que vêm por aí. Mas o que está atraindo mais a atenção delas nos discursos é um detalhe que, embora desapercebido para a maioria, encanta seus ouvidos mais atentos.

Trata-se da ênfase que Dilma dá à questão da independência econômica das mulheres - como assalariadas ou empreendedoras. Isso representaria um avanço em relação ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que valorizou as mulheres por outros caminhos, o combate à violência contra elas.

Um dos momentos sinalizadores dessa mudança verificou-se no dia 1.º de março, durante a cerimônia de anúncio do reajuste nos valores do Bolsa Família, em Irecê, interior da Bahia. Após os elogios de praxe à relevância social do programa, Dilma disse que ele constitui apenas uma parte de sua política para resolver os problemas sociais: "A outra parte é, necessariamente, a oportunidade de participar produtivamente da vida da sociedade".

Em seguida, passou a falar de mulheres, destacando, por se encontrar numa região agrícola, as trabalhadoras rurais: "É importante aumentar o valor e quantidade do crédito para as mulheres terem o seu Pronaf (programa de financiamento da agricultura familiar). Porque com o Pronaf ela pode ter acesso a financiamento para o seu artesanato. Ela pode costurar, pode fazer doce, pode contribuir para a melhoria de renda de sua família".

Empolgada, citou outras profissões: "Uma quantidade grande de mulheres virou enfermeiras, professoras, empregadas domésticas, médicas, agentes de saúde, e deve ser valorizada".

Creches ajudam. A mesma preocupação já apareceu em outros discursos. Durante homenagem a educadoras, no Palácio do Planalto, mencionou que as mulheres constituem 81% do total de 1,9 milhão de professores em atividade no País - e que é "fundamental" valorizar essa profissão. Ao assinar um termo de compromisso para a construção novas creches, destacou que as mulheres que trabalham podem se tornar mais eficientes em suas atividades se souberem que os filhos estão bem cuidados.

Para a educadora Silvia Camurça, da coordenação da SOS Corpo, uma das mais tradicionais entidades feministas do País, com sede em Recife, a ênfase na promoção das mulheres sob o ponto de vista econômico, é a mais importante novidade do governo Dilma nesta área.

"Sem abrir mão do combate à violência, ela recoloca no centro do debate a questão da autonomia econômica", diz. "Esse eixo de combate à pobreza é importante, porque a falta de autonomia favorece a violência. Muitas se sujeitam a violências físicas e psicológicas no âmbito doméstico por falta de independência econômica."

Diferenças. Para a professora e socióloga Maria José Rosado, da organização Católicas pelo Direito de Decidir, ainda é cedo para avaliar o governo. Mas ela diz que considera positivos os sinais dados até agora no sentido de valorização do trabalho da mulher.

"As pesquisas demonstram que, mesmo desempenhando as mesmas atividades, as mulheres ganham menos que os homens", observa Maria José. "Por outro lado, também existem pesquisas indicando que o número de mulheres que sustentam as famílias aumenta. Diante disso, é fundamental o desenvolvimento de políticas de valorização do trabalho feminino."

Em relação ao papel simbólico de uma mulher na Presidência, a socióloga Fátima Pacheco Jordão, consultora e especialista em pesquisas de opinião, observa que isso deve, efetivamente, favorecer a ampliação da presença de mulheres nos espaços de poder. Por outro lado, também diz que os bons níveis de aceitação de Dilma e a naturalidade da transição no Planalto demonstram que a sociedade estava mais preparada para aceitar uma mulher no comando do País do que se supunha na campanha eleitoral. "Tinha-se a impressão de que o fato de ser mulher seria um obstáculo imenso. Mas não se verificou isso na prática."

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