Nos jardins de Burle Marx, um olhar sobre o abandono

Haruyoshi Ono, que trabalhou com o paisagista, visitou algumas das obras ameaçadas, no Rio

Felipe Werneck, O Estadao de S.Paulo

08 de março de 2009 | 00h00

O lavador de carros que toma banho na Praça Senador Salgado Filho, na frente do Aeroporto Santos Dumont, no centro do Rio, não sabe que aquele lago quase vazio, sem as plantas aquáticas originais, foi concebido há 71 anos por Roberto Burle Marx (1909-1994). O taxista que urina no tronco de um pau-rei do jardim malconservado e inseguro também ignora a importância do brasileiro que inventou o paisagismo tropical moderno. Sob a sombra de uma enorme figueira, para escapar do calor de 39°C, o mendigo dorme.A praça, transformada em banheiro público, está na lista de 89 obras realizadas por Burle Marx que o Patrimônio Cultural do Município preparou em janeiro para levar ao prefeito Eduardo Paes (PMDB). A decisão de tombar o conjunto foi anunciada no 26º dia de governo, mas ainda falta a assinatura do decreto municipal. Das 89, 11 estão completamente destruídas e pelo menos 26 foram descaracterizadas ou estão abandonadas.O diagnóstico é do arquiteto e paisagista Haruyoshi Ono, sócio-colaborador, herdeiro e atual responsável pelo escritório Burle Marx & Cia. A pedido do Estado, ele analisou a relação oficial e percorreu alguns jardins com a reportagem. Após o tombamento, a prefeitura terá muito trabalho. Precisará recuperar as obras e mantê-las. Haruyoshi também identificou na lista, que pode crescer, cinco projetos que não saíram do papel, entre eles um jardim para a Linha Vermelha, desenhado em 1992. "São mais de 200 obras no Rio", diz.O paisagista de 65 anos começou como estagiário e trabalhou por 30 anos com Burle Marx, até sua morte. Ele leva uma câmera fotográfica para documentar tudo. Identifica uma série de plantas que não deveriam estar no jardim. Há muito lixo e todos os refletores foram roubados. A praça do aeroporto, projeto de 1938, foi um dos primeiros em que Burle Marx usou plantas brasileiras como a palmeira tucum, comum em brejos. Até então, os jardins do Rio eram cópias de europeus e os canteiros simétricos excluíam a flora local. No texto da exposição que celebra o centenário do nascimento do artista, no Paço Imperial, o diretor e curador Lauro Cavalcanti escreveu que a "feição da orla carioca, do Aeroporto Santos Dumont ao Posto 6, foi criada por Burle Marx".No caminho até o Aterro do Flamengo, Haruyoshi é abordado por três homens que lavavam roupas no lago do Museu de Arte Moderna (MAM), projetado em 1954. Eles pedem dinheiro de maneira insistente e quase intimidadora. O paisagista abre a carteira e entrega uma nota de R$ 10. Perto dali, parece indignado com alterações em relação ao projeto original. Há capim sobre pedras e até um pé de maracujá no canteiro. "Cadê o jardim de ondas?", pergunta, referindo-se àquele que originalmente tinha duas tonalidades marcantes de grama, nas formas do calçadão de Copacabana. "Já procuramos a direção do MAM, mas eles não fizeram nada." No terraço, uma parte do jardim fica escondida atrás de um restaurante caro e de um salão que é alugado para eventos. Havia um vaso sanitário jogado sobre o canteiro, repleto de lixo e mato. O Aterro do Flamengo, onde fica o MAM, já é tombado desde 1965 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).Haruyoshi parece ter medo de se afastar do museu. Ele conta que já foi cercado por ladrões. Quer mostrar o jardim geométrico, mas desiste. No caminho de volta, identifica ervas daninhas sobre árvores. "Estão muito mal podadas", observa. "Jardim é igual a gente. Tem de tratar." Alguns exemplos de obras destruídas são o terraço-jardim da Associação Brasileira de Imprensa, de 1938, a Praça Irmãos Bernadelli/Lido (1955), o paisagismo da Avenida Presidente Vargas (1990), o Parque Vila Olímpica da Maré (1991) e os jardins do Aeroporto Internacional (1951) e do Tribunal de Justiça (1993). Entre aqueles descaracterizados ou abandonados estão os jardins do Conjunto do Pedregulho (1951) e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (1957), o tratamento paisagístico da Lagoa Rodrigo de Freitas (1975), o parkway da Praia de Botafogo (1954) e o calçadão da Praia de Copacabana (1971).Ele também faz elogios à conservação de alguns projetos, a maioria privados. Cita o jardim da residência de Walter Moreira Salles, de 1951, atual Instituto Moreira Salles do Rio. A exposição do Paço chama-se A Permanência do Instável. Termina com uma frase de Burle Marx: "Gostaria que os que viessem depois de mim pudessem, pelo menos, ver alguma coisa que ainda lembrasse o país fabuloso que é o Brasil, dono da flora mais rica do globo."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.