Nos museus do Estado de São Paulo, 4 em cada 5 obras vieram de doações

Bens individuais viram patrimônio e até em instituições privadas, como o Masp, respondem pelas novidades no acervo

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

18 de abril de 2009 | 00h00

É, geralmente, apenas um nome numa plaquinha, indicando de quem foi a doação. A homenagem, singela, parece pequena - por quantos segundos fica esse nome na mente do visitante? A força aparece quando se olha o conjunto: de 1,5 milhão de peças que compõem o acervo dos 22 museus do Estado, cerca de 1,2 milhão (80%) resulta de doação, segundo estimativa da Secretaria de Estado da Cultura. Trata-se da transformação, num gesto simples, de bens individuais em patrimônio cultural coletivo.Esse cálculo, de museólogos e historiadores dos equipamentos culturais, vem sendo confirmado por um projeto inédito de padronização e digitalização do acervo cultural paulista, cuja finalização está prevista para dezembro. A primeira fase do projeto - levantamento da origem de parte do acervo de 15 instituições do interior e 5 da capital - foi finalizada no mês passado, segundo a diretora do Sistema Estadual de Museus, Cecília Machado. "Já é possível afirmar que estimativas históricas são realidade e a importância das doações ao longo do tempo fica cada vez mais evidente."O museu que mais recebe obras é, de longe, a Pinacoteca. Em cinco anos, o acervo aumentou 20,6% - passou de 6,3 mil peças em 2004, para 7,6 mil, no início do ano. Segundo a direção, 90% disso foi recebido por doação. De toda a coleção da Pinacoteca, aliás, apenas 10% foi comprada pelo Estado. Do total doado - cerca de 6,8 mil peças -, 60% foi cedido por artistas, 20% por colecionadores e o restante por empresas.Em segundo lugar no total de peças recebidas, há um museu que simplesmente não existiria, não fossem seus doadores. Das 3,2 mil peças do Memorial do Imigrante, cerca de 2,8 mil foram doadas - grande parte recebida em 1998, durante o governo Mário Covas, quando o Memorial foi alvo de maciça campanha de doação e captação de peças que lembrassem a imigração. "Na época, os técnicos batiam nas portas das oficinas da Mooca, do Brás e de outros redutos de imigrantes, atrás de doadores de objetos e utensílios domésticos", conta a museóloga do Memorial, Elizabeth Amaral. "Mas hoje não são necessárias campanhas, as pessoas nos procuram. Aqui, os doadores são o museu."Entre eles, há os mais diferentes perfis: de empresas, que buscam isenção fiscal pelas Leis Rouanet e Mendonça, a quem percebeu que possuía, pendurado na sala de casa, objetos que representavam ausência imperdoável nos acervos mais importantes do País. "Como posso deixar no corredor da minha casa uma obra que, bem sei, poderia suprir lacunas em alguns dos principais museus do Brasil? Não consigo conceber", afirma o engenheiro Telmo Porto, professor de Engenharia de Transportes Ferroviários da Universidade de São Paulo (USP), doador de peças para a Pinacoteca e para o Museu de Arte de São Paulo (Masp). Somente em 2008, ele cedeu à Pinacoteca dez quadros da coleção pessoal - cinco hoje na exposição permanente.PRIVADOSNos principais museus privados da capital, doações também são a principal fonte de obras - no Masp, em dez anos, o acervo só cresceu assim. Em 2008, 18 peças foram entregues à instituição, incluindo raridades como duas esculturas chinesas da Dinastia Tang (618 a 907 da era cristã) e a obra-prima A Crucificação de Cristo, do pintor flamengo Jan van Dornicke, recebidas de doadores anônimos.No Museu de Arte Moderna de São Paulo(MAM), o acervo é composto de forma semelhante - lá, das 5 mil obras do acervo, 4,2 mil são doadas. "O tempo das grandes doações, dos (Assis) Chateaubriand e (Pietro Maria) Bardi acabou", afirma o curador do Masp, Teixeira Coelho. "Hoje, é das surpresas, especialmente de doadores esporádicos, inesperados, que vivem os museus."

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