Nos relatórios, a estratégia para provar torturas

Organizadores negociaram publicação das revelações nos Estados Unidos, para garantir difusão [br]mundial das denúncias

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2011 | 00h00

GENEBRA

Os documentos guardados desde os anos 80 pelo Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra, revelam a meticulosa preparação durante anos, sempre sob o receio de serem descobertos pelo regime militar, do trabalho de d. Paulo Evaristo Arns, do reverendo Jaime Wright e uma série de colaboradores que culminaram no Brasil: Nunca Mais e a revelação dos nomes de 444 torturadores e de 240 locais em que esses crimes eram praticados por agentes do Estado.

Papéis obtidos pelo Estado mostram que os organizadores do trabalho previam um cronograma detalhado de como reuniriam as provas dos crimes no Brasil. Nada ocorria por acaso ou sem uma estratégia. Orçamentos detalhados previam gastos com xerox e máquinas de escrever, entre outros, seis anos antes da publicação da obra, em 1985.

Em um dos relatórios, os organizadores traçam a rota de viagens que fariam pelo País para coletar as evidências dos crimes de tortura. Os trechos eram marcados de acordo com o meio de transporte a ser usado: avião, ônibus ou carro. As cidades de São Paulo, Rio, Juiz de Fora, Brasília e Belém estavam no roteiro elaborado pelos religiosos.

Em outro documento, os organizadores alertavam para o risco de serem pegos, enquanto membros do próprio Conselho Mundial de Igrejas - o financiador do projeto - admitia que a tarefa estava sendo "de alto risco para muitas pessoas".

Uma das estratégias dos organizadores do material foi a de negociar a publicação das revelações nos Estados Unidos, o que garantiria a difusão internacional das denúncias de torturas. As cartas mostram o interesse de editoras americanas pelo trabalho de d. Paulo e pelo que chamaram de uma coleta de "grande valor para a história do século 20".

Dilma. Num dos documentos, a então estudante Dilma Vana Rousseff Linhares conta que, em 1970, foi "torturada física, psíquica e moralmente" depois de ter sido detida. Segundo sua revelação nos processos que estão com o Supremo Tribunal Militar (STM), ela teria sido torturada "durante vinte e dois dias". Dilma, na época com 22 anos, repetiria que os depoimentos foram prestados "mediante coação física, moral e psicológica".

Num outro processo, Dilma apontou como um dos militares presentes às sessões em que foi torturada o então capitão Maurício Lopes Lima. No ano passado, em entrevistas, o então tenente-coronel reformado negou ter participado das sessões em que Dilma foi torturada.

 

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