Nota de Berlusconi leva à desistência de gesto diplomático

Estava nos planos do presidente Lula telefonar ontem para o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, e comunicar previamente a decisão de negar a extradição de Cesare Battisti. O gesto diplomático foi abandonado quando Lula soube das últimas manifestações do governo italiano, inclusive em nota oficial divulgada na quinta-feira, quando o assunto ainda estava em aberto.

Felipe Recondo e Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2011 | 00h00

As declarações, classificadas pelo Ministério das Relações Exteriores como "acima do tom" e "impertinentes", reforçaram o entendimento de que a extradição poderia agravar a situação de Battisti na Itália. Os riscos de perseguição cogitados no parecer da Advocacia-Geral da União (AGU), que recomendou a manutenção de Battisti no Brasil, foram confirmados pela nota do governo italiano: "O presidente Lula deveria, neste caso, explicar a decisão não só ao governo, mas a todos os italianos e, em particular, às famílias das vítimas", disse o texto.

O governo vinha tomando todos os cuidados para evitar um novo conflito diplomático: submeteu o parecer da AGU ao Itamaraty, retirou termos que poderiam acusar o governo italiano de perseguir presos políticos e incluiu menções expressas de deferência à democracia do país. Além disso, a Embaixada da Itália no Brasil foi avisada previamente pelo novo ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota.

Da mesma forma, o Brasil já sabia que o governo italiano, por meio do ministro da Defesa, Ignazio La Russa, iria protestar. Berlusconi, que está em situação política delicada, precisa acalmar parte do eleitorado. Por isso, apesar de novas ameaças, o governo brasileiro avalia que não passarão disso. "A Itália retaliar o Brasil é dar um tiro no pé", comentou um auxiliar direto de Lula.

O mesmo cuidado foi adotado com o Supremo Tribunal Federal (STF). Antes de definir o futuro de Battisti, Lula disse ao presidente do STF, Cezar Peluso, que manteria Battisti no Brasil. Peluso avisou que não soltaria Battisti enquanto o assunto não fosse julgado pelo plenário. No governo, a avaliação é de que o Supremo vai sangrar novamente, como ocorreu com o impasse sobre a Lei da Ficha Limpa. Por esse raciocínio, Battisti ficará preso desnecessariamente e, ao final, a decisão de Lula será confirmada pela maioria do STF.

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