Notas têm endereço de loja de cosméticos

Sala comercial, na zona sul, deveria abrigar empresa indicada por Tatto

Bruno Tavares, Diego Zanchetta e Fabio Leite, O Estadao de S.Paulo

09 de maio de 2009 | 00h00

É numa sala comercial da Rua General Roberto Alves Carvalho Filho, em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, que deveria funcionar a Proresult Serviços Administrativos, empresa investigada pelo Ministério Público Eleitoral por emitir nove notas fiscais supostamente frias para a campanha do vereador Arselino Tatto (PT) em 2008. O endereço aparece no cabeçalho das notas fiscais, no registro de abertura da empresa em cartório e no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica da Receita Federal. Mas o que existe hoje na sala 3B é uma revendedora de cosméticos.O Estado esteve ontem à tarde no conjunto comercial. Questionada sobre a Proresult, a dona da loja de cosméticos se surpreendeu. "Aqui?", perguntou. "Estou nesse lugar há mais de seis anos e nunca ouvi falar dessa empresa." Uma advogada, que não quis se identificar, reagiu de forma irônica. "O que vocês estão investigando? Empresa fantasma? Aqui sempre teve um monte de empresas fantasmas, como em qualquer conjunto comercial", afirmou. Sobre o funcionamento da Proresult, ela foi categórica: "Aqui eu posso garantir que essa empresa nunca funcionou."A Proresult foi aberta em 13 de setembro de 1995, segundo o microfilme nº 00840 do 9º Registro Civil de Pessoas Jurídicas da capital. Os únicos dois sócios são Carlos Roberto Beu de Moraes - candidato a deputado estadual pelo PT em 2006 e hoje filiado ao PDT - e Osvaldir Barbosa de Freitas - chefe de gabinete de Tatto há dois anos.Procurado ontem, Moraes disse ter se desligado da empresa em 2001, mas assegurou que a Proresult já funcionou na sala comercial em Santo Amaro. "Eu nem sabia que ainda estava na sociedade", assinalou. "Não tenho participação na empresa e nem conhecimento de nota emitida nas eleições." Moraes apresentou conta telefônica de março de 2002 encaminhada ao suposto endereço da Proresult em Santo Amaro. Ao ser informado que a loja de cosméticos já ocupava a sala naquele ano, ele argumentou: "É que nós estávamos num endereço perto, na (Rua) Domingos Prado. Só não foi feita a mudança em cartório. Esse foi o erro." Após entrevista na qual disse estar tranquilo sobre as investigações, Tatto pediu à reportagem que procurasse seu chefe de gabinete, Osvaldi Barbosa de Freitas. "Quem forneceu as notas é quem tem de explicar melhor", pediu o vereador. Em seguida, o próprio Freitas telefonou ao Estado.Ele alegou que seu "único erro" foi não ter atualizado o endereço da empresa, que hoje funcionaria na Avenida Yervante Kissajikian, na Vila Missionária, zona sul. "É por isso que está dando esse problema", justificou. A empresa, segundo Freitas, tem quatro funcionários. Às 17 horas, a reportagem pediu para visitar a nova sede da Proresult. Freitas disse que seria impossível. "Agora ela está fechada." O chefe de gabinete nega ter dado notas frias à campanha de Tatto. "As notas não são frias, isso eu posso garantir. A empresa fez toda a contabilidade da campanha", afirmou. Mais tarde, Freitas encaminhou um boleto da Caixa Econômica Federal, de fevereiro deste ano, endereçado à nova sede da Proresult, na Vila Missionária. O dono da empresa, no entanto, não soube precisar quando deixou o endereço em Santo Amaro.A Justiça Eleitoral também já havia constatado o problema de endereço da Proresult. No primeiro parecer conclusivo, os técnicos verificaram "que a referida empresa não existe no endereço constante da nota (...) configurando infração gravíssima, que macula inexoravelmente as contas prestadas". Tatto estava intimado a prestar depoimento às 10 horas de ontem ao Ministério Público, mas ele e seus advogados não compareceram.FRASES Carlos Roberto Beu de MoraesEx-candidato à Assembleia pelo PT"Não tenho participação na empresa e nem conhecimento de nota emitida nas eleições"Osvaldi B. de FreitasChefe de gabinete"As notas não são frias, isso eu posso garantir"

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