Nova onda de assaltos nas igrejas mineiras

Ramificações de uma quadrilha paulista especializada no roubo de peças sacras - presa em 1999, na chamada Estrada Real, que liga Mariana a Ouro Preto - podem estar atuando novamente nas cidades históricas de Minas. Nos primeiros quatro meses do ano, segundo a representação da Interpol no Estado, os arrombamentos em igrejas centenárias e os roubos de obras sacras voltaram a ocorrer com freqüência e nos mesmos moldes das ações praticadas pela quadrilha paulista na década de 90. A vítima mais recente foi a Matriz de São José, em Nova Era, a 130 quilômetros da capital mineira. Parte significativa do patrimônio da igreja, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), foi levada no dia 11. Os bandidos continuam foragidos. Para se ter uma idéia do tamanho do prejuízo desde 1988, o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha/MG) catalogou 508 peças levadas das igrejas tombadas pela entidade, até 11 de abril. Desse total, só 77 foram recuperadas. Já o Iphan registra 279 peças roubadas desde a década de 60. Na Matriz de São José, o bando pegou 60 peças de uma só vez, entre castiçais, crucifixos, uma imagem de Nossa Senhora do Rosário, feita no século 18, e uma toalha de mesa bordada com fios de ouro. Os assaltantes conseguiram entrar após arrombar a porta lateral da matriz, que não possuía sistema de segurança. De acordo com a superintendente do Iphan em Minas, Isabel Maria Camara, não há registros de um roubo tão grande. "Foi alarmante, pois vínhamos de um período de pelo menos dois anos sem roubos de peças sacras em Minas", afirmou Isabel. "Apesar de estarmos divulgando a necessidade do aumento da segurança nas igrejas, os ladrões nos surpreenderam. Isso mostra que esse tipo de crime não acabou e está voltando com força total." O período de "sossego" dado pelos assaltantes faria parte da estratégia de uma das maiores quadrilhas especializadas em roubo de arte sacra no País. Segundo o delegado Tadeu de Moura Gomes, chefe da representação da Interpol no Estado, o bando preso estava envolvido em 90% dos furtos nas igrejas de Minas na década de 90. "As peças representativas são sempre encomendadas. Outras, com menos importância, são repassadas no chamado mercado negro, mais pela quantidade de ouro e prata que carregam que por seu valor histórico e religioso", explica Gomes. O delegado lembrou que, no inquérito aberto pela Polícia Federal mineira na época da prisão da quadrilha paulista, alguns colecionadores e restauradores de São Paulo foram citados como receptadores das obras. Segundo o delegado, foram recuperadas mais de 70 peças sacras, entre elas uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Roubada de uma capela em Tiradentes, a imagem de madeira chegou a ficar dois anos enterrada - artifício usado pelos ladrões para ocultar o crime. Mais tarde, foi descoberta com um colecionador, um pouco descaracterizada, para disfarçar. "As peças sacras têm de ficar escondidas por um tempo para dificultar o trabalho da polícia e só depois entram nas negociações".

Agencia Estado,

19 de abril de 2003 | 08h53

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