Marcelo Godoy e Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

15 Abril 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Javier Ramirez Vakdez chegou no dia 19 de dezembro a Bonfim, em Roraima, depois de cruzar em Lethem, na Guiana, a fronteira brasileira. Deixou em Cuba dois filhos, três irmãos e sua mãe para buscar trabalho, dinheiro e a liberdade que lhe faltava na ilha caribenha. “Cuba está em uma situação muito difícil, o salário mínimo é insignificante e o que se paga não dá para viver”, contou o motorista de ambulância. 

A história de Vakdez resume a de outros 3.743 cubanos que entraram no País nos últimos dois anos e pediram oficialmente refúgio. Eles formam o segundo maior contingente de estrangeiros registrados no período pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), do Ministério das Relações Exteriores, atrás somente dos venezuelanos, superando haitianos e angolanos. 

Comparando os dados do ano passado com 2015, o número de cubanos que pediu ao Conare o reconhecimento do status de refugiado aumentou 352%. O fluxo de cubanos para o País começou em 2015. Antes, de 40 a 145 cubanos batiam na porta do conselho por ano.

“Eles estão chegando quase toda semana”, afirma Eliana Vitaliano, coordenadora do Centro da Pastoral do Migrante da Igreja, em Cuiabá (MT). Na vizinha Várzea Grande, os cubanos montaram uma pequena colônia e se dedicam ao comércio de roupas. Vakdez está no abrigo da pastoral há 20 dias. Ainda não conseguiu emprego, mas já tem carteira de trabalho. Preferiu ficar em Cuiabá a ir para São Paulo por acreditar que a capital mato-grossense era um lugar mais pacato. 

Anteontem, ele ganhou a companhia de mais dois cubanos recém-chegados. “A principal razão para chegada deles é a crise econômica na ilha”, contou Eliana. Cuiabá fica no meio do caminho dos cubanos que buscam as Regiões Sul e Sudeste para se estabelecer. Organizações ligadas ao acolhimento de imigrantes registraram nos últimos dois anos a presença de cubanos em Minas, São Paulo e no Rio Grande do Sul. 

Passagem. No começo, eles usavam o Brasil como passagem para outros países, como Estados Unidos, Uruguai e Chile. “Foi aí que alguns começaram a se fixar, pois perceberam que no Brasil há mais liberdade e o País lhes concede a proteção do status de refugiado”, afirmou Karin Wapechowski, coordenadora do Programa de Reassentamento Solidário de Refugiados da Associação Antonio Vieira, em Porto Alegre. 

Para entrar no Brasil, os cubanos se valem de coiotes. A rota inicial é a Guiana porque a antiga colônia inglesa é um dos únicos países do mundo que não exige visto de entrada dos cubanos. Eles saem da ilha de avião – a passagem aérea custa cerca de US$ 900 (R$ 3.080) –, desembarcam em Georgetown e de lá vão por terra até a fronteira brasileira. Os coiotes os auxiliam na travessia. “É muito mais barato vir para o Brasil. Para os EUA (atravessando a fronteira mexicana), os coiotes cobram até US$ 10 mil (R$ 34,2 mil) por pessoa”, disse Vakdez. 

O trajeto por terra segue pela BR-401 até Boa Vista. De lá, a viagem para o sul do País pode ser feita por terra ou por avião. Letícia Carvalho, que trabalha na Missão Paz, da Igreja, no bairro do Glicério, no centro de São Paulo, foi à Roraima para tratar dos venezuelanos no começo do ano e acabou encontrando um grupo de cubanos que embarcava no aeroporto da capital Boa Vista para Brasília. 

“Eram dez pessoas. Eles buscavam informações sobre como obter documentos. O destino final deles era Porto Alegre”, contou Letícia. E o fluxo registrado nos últimos dois anos continua neste ano. / COLABOROU PABLO PEREIRA

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Marcelo Godoy e Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

15 Abril 2018 | 03h00

O sorriso é fácil e o celular não sai de sua mão. O aparelho é a primeira conquista feita por Lester – ele pediu para não ter o sobrenome identificado – com o suor de seu trabalho em São Paulo. Nascido em Varadero, perto de Havana, ele pediu refúgio ao Brasil em 25 de dezembro, dia em que cruzou a fronteira do País, em Roraima. 

“Saí de Cuba primeiro por razões políticas. Em Cuba não há liberdade, não se respeitam os direitos humanos e somente os chefes comunistas desfrutam de conforto e segurança. Além disso, o salário é uma miséria.” 

Lester trabalhava em um hotel de uma rede estrangeira. Podia, portanto, acrescentar ao salário o dinheiro que conseguia fazer por pequenos favores e bicos ligados ao setor de turismo. Nada que tornasse sua vida confortável, como a dos homens novos que aproveitaram a pequena abertura econômica para a propriedade privada propiciada nos últimos anos pelo Partido Comunista Cubano. 

Foram oito anos fazendo de tudo. De segurança a cozinheiro. Economizou trabalhando e, com um amigo, apanhou um avião para Georgetown, capital da Guiana. “Deixei minha família na Ilha. E tenho medo do que a G2 (polícia política cubana) pode fazer com eles.” 

No fim do ano passado subiu no avião que o levou para longe da Ilha. Fez em seguida o trajeto que sabia de cor desde que deixara a terra natal: apanhou um ônibus para Lethem, na fronteira com o Brasil. E por terra foi todo o trajeto seguinte – de Boa Vista a São Paulo. “Foram cinco dias de ônibus. Todos em Cuba que querem partir já sabem desse roteiro”, afirmou. 

O ajudante de cozinheiro chegou à capital paulista e foi até a Missão Paz, o abrigo para migrantes mantido pelos padres scalabrinianos no Glicério, na região central de São Paulo. O prédio que antes abrigou levas de migrantes nordestinos hoje serve a haitianos, senegaleses, congoleses e cubanos. Entre 2016 e 2017, 60 compatriotas de Lester procuraram ajuda ma missão. 

“Os primeiros a chegar vieram da República Dominicana. Depois, entraram pelo Equador, como os haitianos”, disse padre Paolo Parisi. Ali, o recém-chegado pode morar durante três meses enquanto procura um emprego, regulariza seus documentos e conhece a cidade. A equipe comandada pelo padre providencia documentos, cursos de português e faz a intermediação de emprego para os que buscam refúgio no País. 

Emprego. Lester imprimiu ali uma centena de currículos e foi entregá-los de hotel em hotel da cidade. Ninguém o chamou. Passou então para os restaurantes, até conseguir um lugar na Vila Nova Conceição, na zona sul. O salário é pouco, mas já permitiu ao cubano enviar à família que permaneceu na ilha R$ 150 nos dois últimos meses. A exemplo dos demais cubanos, a maioria procura ajudar suas famílias. 

Pouco depois de chegar a São Paulo, Lester ficou só. Seu amigo decidiu partir para o Uruguai. “As coisas não estão mais como eram no Chile e no Uruguai. Muitos iam para lá porque era mais fácil arrumar documentos, mas agora a situação está difícil nesses países.”

Nem ele nem seu amigo tinham qualquer relação com o programa Mais Médicos ou com qualquer outro acordo mantido pelo governo cubano com governos, como o venezuelano. “Aqui só recebemos um integrante do programa dos Mais Médicos”, contou o padre. 

Também são raras as mulheres que chegam da Ilha. Lester passa o fim de semana com seu celular no pátio do abrigo. “Estamos vindo para o Brasil porque aqui nos deixam trabalhar e ganhar e não nos mandam mais embora como Lula (o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva) fez com Rigondeaux.” Lester se lembra da deportação para Cuba pelo governo petista do boxeador cubano Guilhermo Rigondeaux. Em 2007, ele desertou da equipe cubana que disputava o Panamericano do Rio. “Acho que agora os cubanos são bem-vindos aqui.”

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Marcelo Godoy e Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

15 Abril 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Para autoridades de Roraima, a crise provocada pela alta na imigração tem culpado – e não são os cubanos. Com o perfil de estar “só de passagem”, em menor número e com melhor situação financeira, o grupo não enfrenta na capital Boa Vista a mesma resistência que têm sofrido os venezuelanos – estes, sim, apontados pelo governo local como responsáveis por lotar equipamentos de saúde e incrementar a violência urbana.

Anteontem, a governadora do Estado, Suely Campos (PP) pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) o fechamento temporário da fronteira com a Venezuela. 

“Essa migração se mistura com a dos venezuelanos, que é muito mais extensa. É um incremento”, afirma Doriedson Ribeiro, coordenador da Defesa Civil de Roraima, um dos que justificou a ação do Estado junto ao STF. “A gente praticamente não vê cubanos envolvidos em criminalidade ou trazendo impactos sociais.” 

Na fronteira Lethem-Bonfim não há delegacia e o controle de entrada é precário, segundo especialistas. “Nós temos uma faixa muito extensa, fica difícil fazer a fiscalização”, afirma Ribeiro. A travessia é feita por via aérea, por meio de companhias menores, ou por estrada. Uma das rotas é pela BR-401, que dá acesso a Boa Vista. 

Lá, eles encontram uma “rede de cubanos” que se formou entre os anos 1980 e 1990, com base no curso de Medicina da Universidade Federal de Roraima (UFRR). A maioria dos novos migrantes, porém, prefere seguir viagem. “Fazem migração de trânsito”, diz o professor da UFRR João Carlos Jarochinski, especialista em Relações Internacionais. “Quando chegam já têm passagem para outro lugar, como um país da América do Sul ou Estados Unidos.” 

Em geral, os cubanos também recebem aporte financeiro de familiares – outra diferença em relação aos venezuelanos, que chegam sem dinheiro e precisam recorrer a abrigos públicos ou dormir na rua.

“A Venezuela vive uma crise social e política, com hiperinflação, pessoas desnutridas e sem acesso a medicamentos”, diz Cleyton Abreu, coordenador do Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR), em Boa Vista. 

Caminho. A rota adotada pelos dois grupos não é a mesma. Enquanto os cubanos descem da Guiana, os venezuelanos cruzam diretamente a fronteira com o Brasil, usando rodovias ou a pé. Esse percurso já havia sido utilizado por haitianos que se abrigaram na Venezuela após o terremoto de 2010, mas, com a crise, foram os primeiros a buscar refúgio no País. 

Outra parcela dos venezuelanos vai para outros países da América Latina e só então faz a segunda migração para o Brasil. “Como o sul da Venezuela é formado por floresta, pessoas que estão no meio urbano, mais ao norte, preferem ir para Colômbia ou Panamá, que ainda têm a facilidade do idioma”, diz Abreu. 

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