Novas gerações da velha guarda

Mais da metade das alas jovens de partidos são comandadas por parentes de políticos

Julia Affonso, Lorena Tabosa e Luísa Roig Martins,

13 Dezembro 2013 | 18h00

O ano de 2014 promete para um estudante de direito do Rio. Depois de o pai anunciar que renunciará em março ao governo do Estado, a candidatura a deputado federal de Marco Antônio Neves Cabral ganhou força e legalidade. Aos 22 anos, o filho do governador Sérgio Cabral tentará pela primeira vez se eleger para um cargo público. Hoje presidente da Juventude Nacional do PMDB, o estudante Marco Antônio faz parte de um grupo de líderes da base jovem dos partidos políticos no Brasil. Em sua maioria, esses jovens são parentes de políticos que exercem ou já exerceram mandato.

Marco Antônio é filho do governador Cabral e de Suzana Neves, prima do senador Aécio Neves, provável candidato do PSDB ao Planalto nas eleições de 2014, e sobrinha-neta do ex-presidente Tancredo Neves. O jovem começou a carreira política aos 11 anos, em 2002, ajudando na campanha do pai para o Senado. Aos 16, foi eleito presidente do grêmio de sua escola, na zona sul do Rio. “Todo fim de semana eu estava na campanha com meu pai. Já era uma coisa normal para uma criança de 11 anos fazer política”, lembra Cabral, o filho. “Ali, comecei a enxergar a política.”

Dono de sobrenomes conhecidos na política nacional, Marco Antônio foi eleito presidente da juventude estadual do partido em 2009, substituindo Clarissa Garotinho, outra jovem que começou a carreira acompanhando os pais em campanha. A deputada estadual Clarissa, filha dos ex-governadores Anthony e Rosinha Garotinho, deixou o PMDB e se filiou ao PR logo após a saída do pai da legenda. Hoje ela comanda a juventude do partido e é líder da bancada na Assembleia Legislativa.

Aos 31 anos, Clarissa está em seu segundo mandato no Legislativo. Em 2008, foi eleita vereadora da capital fluminense e, dois anos depois, chegou à Assembleia. “Sem dúvida tive votos de gratidão de quem gosta do Garotinho e da Rosinha, mas não apenas. Jovens votaram em mim por identificação, para ver uma jovem na política.”

Dos 32 partidos em atividade no Brasil, 21 têm um presidente da juventude partidária em cargo eletivo. Desses presidentes, mais da metade são filhos, sobrinhos ou netos de políticos: um total de 62%. Dos outros 11 partidos, três não têm ala jovem formalizada e os demais têm comissões sem presidência. Apesar de hoje ser difícil definir o que é direita ou esquerda partidária, observa-se a prevalência de jovens ligados a políticos em legendas de centro-

direita.

“O sobrenome já traz um capital político simbólico e, principalmente, ativa uma rede de favores antiga. Faz partir de um patamar muito mais alto do que alguém ainda anônimo”, diz o cientista político Ricardo da Costa Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Em São Paulo, Frederico, de 21 anos, filho do prefeito Fernando Haddad, começa a dar os primeiros passos na política. Há um ano, o estudante de direito se filiou ao PT, partido do pai, e ajudou na campanha de Fernando para a Prefeitura. Mas o batismo de fogo viria em março, quando um protesto de ciclistas desembocou na porta do prédio onde Frederico mora com a família. O rapaz foi falar com a turma e ganhou notoriedade ao agendar uma reunião com o pai prefeito.

“A questão da juventude partidária faz parte do contexto familiar. A família ainda é a unidade social da política e das instituições no Brasil e tem um peso político extremamente importante devido ao caráter pré-moderno, ao clientelismo e à grande desigualdade social”, afirma Costa Oliveira. “O eleitor também entra no esquema, por suas carências e necessidades.”

Ter um sobrenome conhecido facilita a chegada de um líder jovem a um cargo eletivo. Mas a hereditariedade também pode representar um risco, adverte a consultora da Unesco para o Ministério da Justiça, Hingridy Fassarella Caliari. Jovens descendentes de deputados, senadores, prefeitos ou vereadores famosos têm grandes possibilidades de replicar um modo antiquado de fazer política. “Quando falamos em política para o jovem, a ideia não é manter o tradicionalismo. O que se espera é dar voz a quem nunca teve, não a famílias que sempre estiveram no poder”, diz Hingridy. “Não é por ser jovem que alguém levantará a bandeira da juventude.”

A pesquisadora lembra que, embora a legislação permita a qualquer um se candidatar, na prática é difícil se eleger, uma vez que os gastos com campanha são altos. E nessa selva de tigres, quem tem parentes conhecidos leva vantagem.

Mesmo que a maioria dos partidos brasileiros tenha ala jovem, a influência desse nicho nas decisões políticas ainda é pouca. Para o jovem, porém, alcançar o cargo de presidente da juventude de seu partido é importante: além de torná-lo mais visível entre os companheiros de sigla, os jovens líderes acabam conhecendo pessoas, acompanhando suas reivindicações e percebendo melhor o ambiente em que circulam. Aprendem a fazer política.

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