Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Novo censo mostra realidade de uma favela brasileira

A ideia é incluir uma parte da cidade que, até recentemente, não era localizada no mapa

The Economist, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2019 | 03h00

Enquanto você caminha pela Rua Teixeira Ribeiro, uma avenida comercial no Complexo da Maré, a maior favela do Rio de Janeiro, mal percebe os mercados de drogas ao ar livre protegidos por adolescentes com AK-47s. Há também pet shops com peixes exóticos, restaurantes com melhor serviço que a maioria dos bistrôs de Copacabana e uma barbearia hipster com iluminação ambiente e decoração retrô. E agora, pela primeira vez, eles foram contados. Um censo não oficial realizado por mais de 100 moradores locais em um período de seis anos descobriu que a Maré inclui 660 bares, 307 salões de beleza, 138 supermercados, 69 lojas de informática, 21 sorveterias e 8 consultórios odontológicos. No total, 3.182 empresas legalizadas empregam 9.371 pessoas.

O censo foi organizado por duas ONGs, Redes da Maré e Observatório de Favelas. No final deste mês eles vão publicar um livro de 112 páginas sobre suas descobertas. A ideia é incluir uma parte da cidade que, até recentemente, não era localizada no mapa. Apesar de abrigar cerca de 140 mil pessoas, quase o mesmo que a mais famosa Copacabana, esse assentamento informal era um lugar em branco nos mapas do Google e da cidade. Essa invisibilidade “torna mais fácil para o governo e a sociedade tratar os moradores das favelas como eles não existem”, diz Everton Pereira da Silva, um dos recenseadores. Seu avô se mudou para a favela na década de 1960 vindo do nordeste do Brasil e trabalhou em sua rede elétrica; agora ele está trabalhando em sua rede de informática.

O governo nacional realiza um censo também; o mais recente foi em 2010. Mas sua pesquisa universal teve apenas algumas duas dezenas de perguntas. O censo não oficial, liderado por Dalcio Marinho, geógrafo, e Eliana Sousa Silva, fundadora da Redes, teve muito mais e incluiu 93% dos moradores da Maré. Alguns resultados eram esperados. Cerca de 26% dos moradores da Maré nasceram no nordeste do Brasil, 62% se identificam como pretos ou mestiços e 60% orcem pelo time de futebol Flamengo. Mas outros convocaram o governo a lidar com problemas que ele há muito ignora - por exemplo, a prova de que a Maré tem muitas crianças sem aulas ajudou a convencer a cidade a construir 25 novas escolas.

Os dados criados pelo mapeamento foram compartilhados com o Google, e agora as ruas e empresas da Maré são visíveis on-line e registradas pela prefeitura. Em 2016, mais de 530 nomes de ruas entraram no registro oficial, a maior coleção da história. Seus moradores receberam códigos postais, o que permitiu que criassem contas bancárias e recebessem cartas.

Os resultados esclarecem como funciona a economia da favela. Cerca de 13% das empresas fecham a cada ano, mas os proprietários geralmente iniciam novos empreendimentos. A Maré não tem nenhum banco físico, então o capital inicial normalmente vem da poupança obtida de empregos na economia formal; apenas 15% dos empresários da favela têm alguma dívida. Negócios que se tornaram obsoletos em outros lugares prosperam. Getúlio Tolentino, que administra uma loja de aluguel de DVDs para cerca de 6 mil clientes, se beneficia do fato de que o agora onipresente Wi-Fi ainda é muito lento para o streaming. (Ele também tem um negócio paralelo, vendendo brinquedos sexuais e fornecendo “aulas eróticas”.)

Projetos de mapeamento semelhantes estão sendo realizados agora em mais de 200 dos 1.018 loteamentos informais do Rio, que abrigam 23% da população da cidade. A esperança é que eles resultem em mudanças semelhantes. Mas, embora a contagem encoraje o governo a prestar atenção, ela sozinha não consegue restaurar a ordem. No dia 6 de maio, helicópteros da polícia começaram a atirar na Maré exatamente quando as crianças saíam das escolas. Nos primeiros quatro meses deste ano, policiais no estado mataram 558 pessoas. Uma vereadora da cidade, Marielle Franco, a primeira pessoa eleita para o cargo da Maré, foi assassinada no ano passado.

No Museu da Maré, uma humilde instituição abrigada em uma antiga fábrica de construção naval, as exposições mostram como a vida melhorou. Há pula-pulas, barris usados antigamente para transportar água da vizinha Baía de Guanabara. Atualmente, 98% dos moradores têm água corrente. A cada ano aumenta o número de pessoas que frequentam a universidade. “Achamos que a violência iria desaparecer assim que tivéssemos eletricidade, água e coleta de lixo, mas estávamos errados”, diz Lourenço Cezar da Silva, diretor do museu.

Tradução de Claudia Bozzo

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