Novo secretário diz que vai "virar o jogo" da segurança

O celular do promotor Saulo de Castro Abreu Filho, cujo toque muitas vezes o sobressaltou durante o ano em que foi presidente da Febem, continuará ligado nas 24 horas. As mensagens agora serão outras. Saulo, paulistano de Pinheiros, 40 anos, três filhos - o novo secretário da Segurança Pública - diz que está preparado. "Estou motivado para virar o jogo." Esse é, na verdade, o terceiro desafio encarado por Saulo, desde que o falecido governador Mário Covas tomou posse, em janeiro 1995. Covas queria a reativação da Corregedoria-Geral da Administração, criada na década de 60 pelo então governador Jânio Quadros e, com o passar dos anos, praticamente desativada. Saulo foi convidado, ficou com a missão e o cargo de corregedor-geral. Deixou de lado uma promissora carreira acadêmica, exercida na Pontifícia Universidade Católica, PUC, de São Paulo, onde se formou e era professor de Direito Processual Civil. "Sempre gostei muito de dar aulas", recorda. Mas o convite de Covas impôs a carreira de promotor sobre a de professor (que podem ser exercidas ao mesmo tempo). Saulo, mestre em Direito, havia conquistado os créditos para sua tese de doutorado, mas abandonou tudo e não a defendeu. Mergulhou de cabeça na nova missão. Que consistia em investigar, apurar irregularidades na esfera da Administração. Por que Covas o escolheu? "Ele não disse, mas por eu dar aula na área de processo, e ter uma queda pela questão da lavagem de dinheiro, acabei criando um perfil que se amoldava um pouco o combate à corrupção." O corregedor-geral assumiu com liberdade total. E com o apoio direto de Covas. O governador editou um decreto (ainda em vigor) que determina o seguinte: o servidor que não obedecer a convocação ou pedido de informação feitos pelo corregedor terá o salário suspenso. "Se ele era convocado para ser testemunha, era funcionário e se recusava a vir, eu cortava o salário dele." Quando se apresentava, voltava a receber. Hotel comprava carne, mas só servia caféO mesmo acontecia com funcionários que faziam corpo mole para responder a um pedido de informações. "Com o corte do salário, ele respondia rápido." Assim foi apurado o caso do hotel do Estado que comprava 400 quilos de carne por mês, mas só servia o café da manhã. E foram investigados outros, vultosos, que envolviam personalidades políticas e empresariais. Um balanço de seis anos de atuação da Corregedoria, completados no ano passado, mostrou os resultados. Os valores de contratos e licitações caíram 25% a 30%. Pegos em irregularidades, 577 servidores foram exonerados. O governo economizou cerca de R$ 345 milhões. Hoje, o trabalho de campo diminuiu: os contratos podem ser examinados na tela do computador. Saulo estava bem posto em seu cargo de corregedor quando, em janeiro do ano passado, recebeu novo chacoalhão. Covas o convidava para presidir a Febem, na época cenário de rebeliões e fugas freqüentes, com a violência explodindo na frente das câmeras da tevê. "Ele me colocou a necessidade de ir para a Febem, e aceitei imediatamente." Uma de suas constatações foi de que muitas vezes unidades da instituição ficavam nas mãos dos próprios internos. Saulo restaurou a autoridade. Os internos tiveram de respeitar as regras. "Hoje, quem manda na Febem é a própria Febem." O novo presidente adotou providências relativamente simples, defendidas durante anos por especialistas. Separou os menores infratores de altíssima periculosidade dos que praticam pequenos delitos. Também separou-os por idade e porte físico. Essas e um conjunto de outras medidas produziram efeito: as rebeliões, os colchões queimados, as mortes, terminaram. O convite, esta semana, para ocupar a Secretaria da Segurança Pública, no lugar de Marco Vinício Petrelluzzi (que tenta uma cadeira na Câmara dos Deputados), foi mais uma surpresa. Saulo, que assume no dia 22, não fala sobre seus planos para o novo cargo. Mas considera que a experiência na Corregedoria-Geral da Administração pode ajudá-lo. "Ajuda em dar relevância à informação, saber como ela deve circular. Às vezes você tem um tal volume de informações, que não sabe nem o que fazer com elas. Então, é saber como teorizar isso. É uma experiência que a gente pode levar em polícia, que lida com inteligência, com informação. " O universo policial não é um desconhecido de Saulo, afinal promotor público da área criminal. Quando Covas lhe fez o primeiro convite, em 1995, Saulo atuava no Primeiro Tribunal do Júri de São Paulo. O convite o surpreendeu, mas ele o considera natural. "Eu não me imaginaria presidente do metrô." Em 1986, prestou concurso para promotor público. Foi o sétimo colocado. A carreira começa em comarcas do interior. Saulo, idealista, solteiro, foi nomeado promotor-substituto em Catanduva, para os lados de São José do Rio Preto, a 349 quilômetros da capital. Trabalho pesado: era responsável pela única promotoria criminal da cidade de então 150 mil habitantes, e mais alguns municípios vizinhos. Logo foi promovido, trabalhou na vizinha Santa Adélia e mais tarde estava em Novo Horizonte, um pouco mais ao sul. Nessa época casou-se com uma promotora de São Paulo, Marilu de Castro Abreu, com quem teria Mariana, hoje com 12 anos, Lígia, 9, e André, 7. Terminando a década, estava em Barueri, na Grande São Paulo, atuando em três frentes: Tribunal do Júri, Vara de Menores (assim achamada, na época) e diretor da cadeia. Por fim, em 1990, chegou à capital. Nesse mesmo ano, foi promovido a titular do 1º Tribunal do Júri. Atuava em dois ou três júris por semana. Com isso tudo, Saulo sabe conhecer um bandido? "Ninguém conhece. Um marginal não tem cara, tem um estereótipo. O que posso dizer é que convivi com muito bandido e a minha função era processá-los e colocar na cadeia." Pessoas próximas do promotor, agora secretário nomeado da Segurança, dizem que ele tem um estilo determinado: estabelece metas e trata de cumpri-las. Trabalha sem paletó, mas nunca afrouxa a gravata. É agitado. Gosta de conversar, "e conversa bem". "Sabe falar e ouvir."

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