Novos candidatos, velhas estratégias

Gustavo Aguiar,

16 Dezembro 2013 | 13h45

Os jovens que foram às ruas e agora querem ter cara e voz no parlamento. Para não perder os votos do eleitor a favor dos protestos e espaço no jogo político, os partidos estão dispostos a abrir uma brecha para líderes mais novos. Mas o espaço continua sendo dos velhos caciques. "Não há interesse em renovar o cenário", avalia o cientista político Leonêncio Netto, professor da USP e da Unicamp. Para ele, a estratégia é antiga para ganhar votos. O que muda é o novo chamariz: o jovem. 

 

Autor de diversos livros sobre a fisiologia dos partidos no Brasil, Netto estudou a fundo as fontes e as estratégias de recrutamento das lideranças partidárias, tema que voltou à moda depois das manifestações ocorridas em junho.

 

O que significa para os partidos, neste momento pós-manifestações de junho, lançar candidatos mais jovens? 

Certamente, podem aparecer jovens com forte capacidade de atrair eleitores. As organizações estudantis são normalmente os grandes celeiros  de futuros  políticos. Mesmo assim, ascender nos partidos que têm alguma estrutura dá mais trabalho. Os políticos veteranos preferem atrair jovens, assim como atletas, artistas e palhaços que tragam votos para suas legendas, mas  não lhes arrebatem o lugar. 

 

Esses novos candidatos podem se tornar os grandes líderes do futuro?

Vencer na política é muito difícil. Os veteranos vencedores ocupam os lugares e não gostam de cedê-los aos estreantes. Para ter êxito, o jovem de classe média precisa contar com alguns trunfos eleitorais que compensem a falta de recursos financeiros, como presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE).

 

Qual o papel das juventudes partidárias hoje no cenário político?

O declínio da ideologia dos partidos enfraqueceu as organizações juvenis que gostam de ação e ideais. No passado, a presença de jovens na política era algo relativamente comum. Mas a existência dessas juventudes partidárias organizadas necessitava que o partido tivesse uma “ideologia forte”. 

 

A estratégia dos partidos de lançar jovens candidatos pode ser comparada a que ocorreu no passado, após os movimentos negros e feministas, por exemplo, reivindicarem maior representatividade partidária?

 Não sei. Juventude é um estágio muito transitório da vida. Em alguns anos, as pessoas abandonam a condição de jovem,  o que  não acontece com os grupos étnicos e de gênero. Quero dizer com isso que os jovens que estiveram se manifestando neste ano, logo abandonarão essa condição. Como se conduzirão os “neojovens” do ano que vem?

 

Qual a diferença entre os jovens dos movimentos partidários e os que participaram dos protestos em junho? 

 Os jovens que participaram do que se chamou de  Jornadas de Junho  não têm muito a ver com os movimentos partidários juvenis do passado. Eles não estavam organizados. Mais do que isso, havia uma rejeição do ser político como tal, o que se opõe a possibilidade de o jovem integrar um movimento partidário e chegar a se candidatar. 

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