Núcleo ajudará mães que perderam filhos

Mães que perderam seus filhos vítimas da violência estão se reunindo para ajudar mulheres em situação semelhante. Elas se preparam para fundar um núcleo de atendimento psicológico e de encontros de mútua ajuda. Levantamento preliminar com 600 mães feito pelo Núcleo Auto-Estima, como o grupo foi batizado, revelou que em 68% dos casos as famílias desagregraram-se. "Os parentes se únem em caso de câncer, de doença de algum familiar. Mas quando a morte é violenta, é comum os filhos que ficaram se queixarem da mãe, que só fala no irmão morto. Ou o marido que não quer voltar para casa e encontrar um lugar vago na mesa do jantar", diz a psicóloga Regina Célia da Rocha Maia, uma das idealizadoras do núcleo.Regina passou por essas experiências. Em 1995, o filho Márcio Antônio, de 25 anos, foi assassinado com um tiro de fuzil por policiais militares que o confundiram com o seqüestrador Marcelo Pena. O disparo foi feito a 62 centímetros da cabeça do rapaz. "Levei oito meses e 13 dias para descobrir que aquele seqüestrador realmente existia. Fui 18 vezes ao Batalhão da PM para encontrar o homem que atirou no meu filho, para que ele visse a dor que causou. Um dia soube que o PM tinha ficado tetraplégico depois de ser baleado numa ação", lembra.A psicóloga conta ainda que parou de trabalhar, passou por períodos "alucinatórios", em que esperava a volta do filho e colocava o prato dele na mesa. "Tenho três filhas moças e elas tiveram que me dizer: mãe, nós estamos vivas?, diz. Para ajudar mulheres que hoje vivem a mesma situação, Regina e outras 25 pessoas - alguns pais também aderiram ao projeto - decidiram criar o Núcleo Auto-Estima. Além da troca de experiência e do auxílio psicológico, o grupo pensa em ter programas de reencaminhamento profissional. "Muitas mulheres dedicam seu tempo à busca pela Justiça. Outras ficam paralisadas pela dor, que é grande e não passa", afirma.O Núcleo Auto-Estima está se preparando para instalar tendas em cinco pontos da cidade. A idéia é entrevistar pessoas que sofreram violência, saber como isso afetou a vida delas e cadastrá-las. A Universidade Estácio de Sá se ofereceu para tabular a pesquisa. "Vamos contactar essas pessoas, chamá-las para os nossos encontros", disse Regina. O grupo ainda não tem sede e está em busca de um lugar para realizar as reuniões, que ocorreriam uma ou duas vezes por semana. "Às vezes, a raiva se transforma em solidariedade. Umas desistem de viver. Mas é preciso que uns ajudem os outros", afirmou.

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