Eric Audras|Getty Images
Eric Audras|Getty Images

Nudes nas redes sociais, poliamor e feminismo

Quando a questão envolve intimidade, as garotas navegam entre atender ao desejo alheio dos parceiros e gritar pelos próprios

Mônica Manir, O Estado de S. Paulo

05 de junho de 2016 | 05h00

“Era, tipo assim, um nudes básico. Sei lá, num ângulo legal, à meia-luz. Sim, mostrava o rosto, mas meio de lado. Tirei a foto no meu quarto, deitada na cama, tava me sentindo bonita naquele dia. E o cara era meu namorado, rolava uma confiança, sabe? Tipo, eu nunca imaginei que algum dia ele pudesse mostrar aquela foto pra alguém. Nunca! Aí a gente terminou. Fui eu que terminei. E, por vingança mesmo, ele vazou o nudes pro grupo dele no Whats. Do subgrupo foi pro grupo, depois pro Face... Cara, não deu mais pra continuar lá. Não deu pra continuar na escola. Queria mudar de cidade. Queria mudar de país. Queria sair do mundo. Foi horrível. É muito horrível ainda.”

O relato é de Clarice, de 17 anos. Mas, tipo, podia ser de Larissa, Julia, Mariana, Fernanda, Luiza, Thayná. Com ligeiras variações de narrativa, garotas e garotos invariavelmente conhecem uma menina que atendeu ao pedido do “Manda nudes!” e depois virou vítima de uma revenge-porn. A vingança nem sempre é de um ex-namorado. Pode ser de uma ex-amiga ou de um ex-nada, um menino que ela conheceu numa balada e que arriscou pedir uma foto mais ousada para colecionar. A garota fica superexposta, primeiro na classe, depois na escola inteira. A família entra em pânico, a escola busca contornar ou abafar o caso e, não raro, a garota muda de colégio ou até de endereço, tentando zerar uma história que a rede pode sempre resgatar. 

“Embora pareça simples para os adultos que as meninas se recusem a enviar ‘noodz’, não é tão simples assim”, diz Lisa Damour, psicóloga americana que dirige o Laurel School’s Center for Research on Girls, centro de pesquisa em Ohio que se dedica a estudos sobre as garotas e que orienta pais, professores e advogados a lidar com o universo feminino. “Elas sentem que serão excluídas socialmente se não mandarem a foto pedida”, afirma Lisa, autora do best-seller Untangled (Desembaraçada), lançado em fevereiro. Ao mesmo tempo, continua ela, a aceitação do convite ou mesmo a iniciativa de enviar a imagem por conta própria pode refletir a vida real da menina. Garotas que estão passando por uma crise de autoestima, por exemplo, podem transferir esse comportamento para o virtual. É a necessidade angustiante do “like”. “Infelizmente, muitos meninos compartilham nudes, e isso acontece mais do que os pais imaginam.”

Pais e professores foram pegos no contrapé numa escola em Cañon City, no Colorado, em novembro do ano passado. Acobertados por um aplicativo chamado “photo vaut”, que lembra uma calculadora e cujo acesso é feito por senha, alunos do ensino médio circularam entre eles mais de 300 fotos íntimas de colegas, alguns com 14 anos de idade. O epicentro foi o time de futebol da escola, o Cañon City Tigers. Várias fotos tinham o vestiário como pano de fundo, e a escola decidiu penalizar a equipe suspendendo um de seus jogos e sacrificando a temporada. A diminuta cidade rural, de 16 mil habitantes, não sabia como agir criminalmente, já que a imensa maioria das imagens era de selfies tiradas e divulgadas pelos próprios menores.

“Existe um manual de nudes”, afirma Mariana, estudante de moda de 20 anos. “É só não mostrar o rosto nem uma tatuagem.” Para Celeste, também de 20 e aluna de Publicidade, o lance é mandar por Snapchat e deixar desaparecer. Quanto mais explícita a foto, menor o tempo de exposição. “O Snap é mais casual, ali me sinto mais confortável”, revela. “Whats nem pensar, cada espaço virtual pede um comportamento.” 

Para a psicanalista Maria Lucia Homem, é levemente duro, “um pouco triste até”, ver que o feminino continua num lugar de demanda masculina, no qual a mulher também está enredada. “É o desejo pautado pelo desejo do outro”, explica. “Ela sabe que beijar outra garota deixa os meninos loucos, então topa um beijo triplo, duas garotas e um menino ou três garotas juntas, e na mesma linha talvez esteja o sexo anal como iniciação.”

Ginecologistas têm apontado uma maior presença de meninas virgens que, fechada a porta da sala do consultório, a mãe do lado de fora, se dizem praticantes do sexo anal desde os 12, 13 anos. Lisa Damour também absorveu isso de suas pesquisas, o que vê como consequência da exposição à pornografia desde cedo, de ambos os sexos. “É um fenômeno fio de navalha, feito em nome da virgindade, mas que ao mesmo tempo pode ser um álibi para explorar um tipo de sexo por muito tempo combatido”, afirma Maria Lucia. “Beijo triplo ou sexo anal, a minha pergunta é a seguinte: as meninas têm prazer?”

Se prazer não é fácil medir, o risco do sexo sem camisinha, sim. A partir do relatório anual Global Burden of Disease, da Organização Mundial da Saúde (OMS), um consórcio de pesquisadores de várias universidades e instituições mostrou que o fator de risco para doenças que mais cresceu entre os jovens nas últimas décadas foi o sexo sem proteção, que pulou da 13.ª posição para a 2.ª, na faixa dos 15 aos 19 anos, de 1990 a 2013. As taxas de HIV e HPV na população mais jovem são uma dor de cabeça para quem trabalha com prevenção, afora gravidez na adolescência e tentativas de aborto. 

É fácil perceber, pelo olhar desviante ou enterrado no celular, que muitas adolescentes e adultas jovens não estão usando camisinha, ou porque “não precisa” (“o namorado é fixo”) ou a pedidos (“meninos não gostam muito de usar”). Nos momentos de desespero, tipo, “esqueci de tomar a pílula”, eis que salta no Whats um “Toma uma PDS, amiga”. PDS = Pílula do Dia Seguinte. “Elas ainda têm medo de não agradar”, diz a ginecologista Albertina Duarte Takiuti, coordenadora do Programa de Saúde do Adolescente da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. “Muitas estão na lógica do amor romântico, veja as letras do sertanejo universitário, eu morro, eu sofro, ele me traiu.”

O psicanalista Christian Dunker percebe outra vertente nas garotas, a da experimentação. “Tem um espírito de transformação nas mulheres não visto tanto nos homens, que parecem mais espectadores neste momento”, diz. Vide o poliamor, a ideia de que se pode viver num trio ou numa pequena comunidade na qual todos se amam e transam entre si. Algo flutuante, suspenso, sem institucionalização nem necessidade de rotular aquele comportamento como gay ou lésbico. “É o impacto da quarta onda feminista, algo que a geração que hoje tem 40 anos via como superavançado, e que chegou”, analisa Dunker. 

Manoela, de 20 anos, aluna de Cinema, gostaria de viver um poliamor. Por enquanto, está num relacionamento aberto com o namorado, o que não significa ficar com qualquer um que vê pela frente. Mas, se rola um match no Tinder, por que não conferir? “Somos indecisos, pós-modernos e queremos aproveitar esta era, em que nada é sólido”, diz, salientando que usar proteção está entre as poucas regras rígidas entre eles. 

O psicanalista Christian Dunker também lembra que muitas garotas chegam à faculdade com a experiência prévia de coletivos feministas e com uma sensibilidade aguda contra o desrespeito, a humilhação, o bullying, o assédio, o abuso verbal, moral, sexual. Abarcando uma faixa etária entre os 17 e 25 anos, o Coletivo Feminista Lélia Gonzalez, fundado em 2012 na Sociais da USP, é dos mais ativos. Estava na Paulista na quarta-feira, dia de manifestação contra o estupro da garota de 16 anos, no Rio. “Foi um estopim de nossa indignação contra esse sistema que reproduz um discurso misógino no qual se perpetua a cultura do estupro”, escreve Sarah Botelho, de 22 anos, estudante de Ciências Sociais, autoimpedida de dar entrevista porque a voz ficou nas ruas de tanto gritar palavras de ordem no protesto.

Se a juventude é por si contestadora, também é crivada de impasses. Na questão da intimidade, bem dos mais preciosos, especialistas concluem que as redes sociais megaexpuseram as garotas, que agora precisam lidar com a vitrine. “A mulher não está num lugar tão interessante como achamos que podíamos estar”, diz Maria Lucia Homem. Vitória, de 21 anos, concorda – pelo menos num ponto. Está indignada com a falta de nomes femininos expressivos na atual cena da arquitetura, o curso que frequenta. Meio cansada das redes sociais, manda whats “por necessidade”. “Não vejo problema em mandar um nude, o problema é alguém zoar a garota por causa disso. Tipo assim, o corpo é dela!” 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.