Jason Henry/The New York Times
Jason Henry/The New York Times

Nudistas defendem a arte de cozinhar nu

Mais de 10 milhões de americanos são nudistas e publicações já indicam receitas consideradas 'seguras' para se cozinhar sem roupa

Priya Krishna, The New York Times

06 de fevereiro de 2020 | 09h00

LUTZ, FLÓRIDA -  Karyn McMullen já está cansada de ser indagada como consegue fritar bacon sem roupa. Esta é uma das piadas que as pessoas fazem sobre nudistas e, para Karyn, que cozinha nua há mais de duas décadas, isto mostra como o nudismo é mal compreendido. Muitas pessoas pensam somente nos inconvenientes - como ser queimado por respingos de gordura fervendo - e não nos benefícios.

“Adotar o nudismo como estilo de vida me permite perceber meus sentimentos”, disse ela fritando pimentões completamente sem roupa, em sua casa no Lake Como Familiy Nudist Resort, em Lutz, cerca de 30 quilômetros distante de Tampa. Ela vive ali com seu marido, Jayson McMullen. “Se quer saber a verdade, eu compro bacon pré-cozido e o coloco no micro-ondas num papel-toalha”, afirmou.

O casal McMullen faz parte dos mais de 10 milhões de americanos que se identificam como nudistas, ou naturalistas, de acordo com um estudo realizado em 2011 pela empresa de serviços de marketing Ypartnership e o Harrison Group. Alguns historiadores dizem que o movimento naturalista moderno no Ocidente surgiu na Europa no século 18 como uma maneira de promover a saúde, expondo o corpo ao ar fresco e à luz do sol; outros traçam suas origens na Alemanha do século 19, como tendo sido uma tentativa de resistir à industrialização vivendo de forma mais simples e também mais perto da natureza.

Resorts de nudistas, como também grupos e praias, floresceram e quando os alemães emigraram para os Estados Unidos no século 20, alguns trouxeram junto o etos naturalista. Hoje há nudistas no país todo, embora muitos se concentrem em locais mais quentes. Eric Schuttauf, diretor executivo da American Association for Nude Recreation, diz que normalmente são pessoas mais velhas, mais educadas e mais ricas. Em 2017, a associação estimou que o turismo nudista na Flórida, que na época tinha 34 resorts voltados paraesse público, atraia 2,2 milhões de visitantes nudistas ao ano.

Portanto, não foi surpresa quando o The Chicago Tribune publicou uma reportagem sobre a crescente popularidade da prática. Ou quando Bon Apppetit publicou “As Nove regras para um jantar nu: a etiqueta dos resorts de nudistas”. Ou a American Association for Nude Recreation enviou um release com três receitas; de arroz e frango ao forno, uma de peito de frango grelhado e outra de lasanha de frango - consideradas seguras para os adeptos prepararem.

Mas muitos nudistas se opõem à ideia de que cozinhar, tirar férias, ou viver de um modo geral, é mais perigoso do que para os que usam roupa. Na verdade, quando se trata de cozinhar ou dar um jantar, muitos são categóricos: é melhor nu. Eles se sentem menos inibidos, mais criativos.

“É como um pintor, quando sua mente está liberta de tudo. Ele pinta o que for”, disse Jack Clark, que vive parte do seu tempo no Lake Como Resort.

O movimento nudista historicamente está ligado à comida: quando surgiu na Europa tinha a ver mais com regimes do que com roupa. Alguns nudistas evitavam pratos com carne e eram vegetarianos, buscando comer de modo saudável.

Hoje, o alimento ainda é fundamental para a experiência no Lake Como. O mais antigo resort nudista da Flórida operando continuamente é uma combinação de acampamento de verão e um espaço para aposentados.

Alguns clubes e resorts nudistas oferecem restaurante e alojamentos com cozinhas. O Lake Como oferece as duas opções, e os hóspedes nunca precisam estar vestidos para almoçar ou jantar ali. Seu restaurante, o Bare Buns Café, serve fraldinha e lagostins, e o Bar, chamado Butt Hutt, decorado com placas de carros, iluminação com lâmpadas LED, oferece noites de karaokê com microfone aberto.

Não há exigências de estar vestido (ou não) no restaurante ou no bar, e a única regra é de que o hóspede traga uma toalha para se sentar, por razões higiênicas.

Karyn McMullen, de 60 anos, comissária de bordo, cresceu em Massapequa Park, no Estado de Nova York, e aos 30 anos pesava 140 quilos. “Ia à praia usando um maiô que parecia um balão gigante e as pessoas riam e sussurravam”, disse ela. Uma amiga recomendou que ela visitasse uma praia de nudismo em Nova Jersey. “Nervosa, entrei no meu carro e fui até lá e pela primeira vez ninguém ficou me olhando, julgando. Soube na hora que aquele era o lugar para mim.”

Karyn desde então perdeu mais de 80 quilos, mas considera isso o menos importante. O que a fez se sentir bem com sua aparência foi tirar a roupa, afirmou.

No outro lado do resort, um outro casal, Clark e Maryanne Rettig, se preparavam para dar uma festa - algo que provavelmente não teriam feito quando ainda usavam roupas.

“Eu era uma pessoa muito tímida e introvertida”, disse Clark, de 63 anos. “Vivia isolado. Não tinha amigos. Um segundo depois de eu ficar nu, tudo aquilo desapareceu. Minha vida mudou.”

Há quatro anos, Maryanne, de 62 anos, se submeteu a um tratamento de um câncer linfático, que limitou a mobilidade do seu braço direito, que inchava com frequência, de modo que ela tinha de usar roupas folgadas. Um dia foi com parentes a uma praia nudista. Quando ficou nua, nada disso tinha importância. Ela se sentiu muito tranquila.

Os dois dividem seu tempo entre Orlando e sua casa no Lake Como. Durante a semana Clark trabalha como optometrista e Maryanne dirige um grupo sem fins lucrativos chamado Tampa Bay Free Beaches, que faz pressão para a abertura de mais áreas de nudismo na Flórida.

“Sinto-me mais criativa quando estou nua cozinhando”, disse Clark, preparando um molho de mariscos e alho e cozinhando macarrão cabelo de anjo.

Por volta das 17 h os convidados chegaram, cada um trazendo sua toalha, embora algumas cadeiras já estivessem forradas no caso de algum convidado ter esquecido.

No Bare Buns Café, segundo as regras, os funcionários estão vestidos, mas os hóspedes jantam nus.

Os nudistas são mais simpáticos e mais compreensíveis do que aquelas pessoas que se vestem, disse o gerente do restaurante, Stephan Krienes, de 78 anos, que não é nudista.

Ele disse que “bastaram 10 minutos para eu me adaptar e ficar à vontade entre as pessoas.”

Tara Picket, cozinheira no Lake Como e de outros resorts nudistas na área, concordou: “Eles andam por aí como se estivessem com roupa. Você cruza com alguém e nem percebe que está nu.”

A dificuldade do restaurante é para contratar auxiliares. “Quando percebem que as pessoas são nudistas, ficam envergonhados. Acham que terão de ficar nus também. E não é o caso”.

Nancy Rehling, de 70 anos, proprietária do restaurante, e que vive em Lake Como, disse que usa uma camiseta quando cozinha para se proteger. “Tenho marcas na barriga e nos seios por causa de incidentes na cozinha, fritando peixe, jogando água fervendo em cima de sopas ou derretendo queijo.”

Mas vários cozinheiros sublinharam que as preocupações de higiene e segurança são inevitáveis em qualquer cozinha. As maneiras à mesa não são diferentes se a pessoa está vestida ou não. E um nudista é igualmente capaz de preparar bacon ou qualquer outro tipo de comida do mesmo modo que um cozinheiro inteiramente uniformizado.

“Não tem a ver com bacon, mas com liberdade”, disse Karyn McMullen. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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