Num barraco, renda de R$ 6,6 mil Prefeitura não sabe explicar o valor

A elevada renda média da população de algumas das 1.602 favelas é o dado que mais chama atenção no cadastro da Secretaria Municipal de Habitação (Sehab). Entre elas, está a da Coronel Luís Alves, na Vila Mariana, onde seus habitantes ganham, em média, por mês, R$ 6.641,68. Outra campeã em ganhos é a favela da Muniz de Souza, no bairro da Aclimação: renda de R$ 3.375,73. Enquanto a favela da Vila Mariana está entre uma das mais limpas e organizadas, parecendo até mesmo um condomínio modesto, a da Aclimação ainda tem barracos de madeira. A primeira tem aproximadamente 90 casas e a segunda, 50. Mas as favelas estão longe de ter rendas tão altas. São lugares com famílias muito pobres, como a de Maria Rosália Rodrigues Silva, viúva, de 55 anos, que recebe a pensão do marido, de apenas um salário mínimo. Mineira, mãe de três filhos, Rosália chegou ali quando a prole ainda era criança, há 20 anos. Na época, o marido trabalhava como açougueiro, e ela, empregada doméstica. "Quando meu marido não ?estava? na bebida, ele era ótimo", diz Rosália. "Ele nunca faltou ao trabalho, nem mesmo quando estava com câncer." Rosália mora num sobrado de madeira, construído pelo marido. No térreo, ficam a sala, o banheiro e a cozinha; em cima, há dois quartos. Mas a estrutura está fragilizada. A parede e o chão têm remendos. "Pedi para um menino trocar as telhas (de amianto), mas ele me disse que, se subisse na casa, ela desmontaria. Eu confio em Deus. Enquanto ele permitir, continuo morando aqui." Rosália não pode mais trabalhar, porque hoje sofre do coração. Mesmo assim, ela dá um jeito de ajudar a comunidade. Passa roupa de graça num orfanato, pelo menos uma vez por semana, e contribuiu com R$ 10 para o Hospital do Câncer e com R$ 30 para a igreja. Com toda essa distribuição, falta dinheiro para coisas básicas, como pegar ônibus. "Sou fiel da Igreja Mundial, no Brás", conta. "E vou lá a pé. Saio às 5h30 de casa." Quando questionada sobre as médias elevadas de ganhos, a Secretaria Municipal de Habitação não soube explicar os números. Ficou entre um possível erro de dígitos e uma metodologia inadequada do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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