Paulo Liebert/Estadão
Paulo Liebert/Estadão

Assassinatos de jovens até 19 anos dobram no País desde o ECA

Segundo Unicef, entre 1990 e 2013, nº de crianças e adolescentes mortos passou de 5 mil para 10,5 mil - ou 28 homicídios por dia

Lisandra Paraguassu, O Estado de S. Paulo

13 de julho de 2015 | 11h32

BRASÍLIA - Nos últimos 25 anos, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) permitiu diversos avanços na proteção da infância no Brasil, da redução da mortalidade até cinco anos à inclusão de mais crianças na escola. Não conseguiu, no entanto, fazer com que os jovens deixassem de ser o alvo principal das mortes violentas no País - ao contrário. Dados levantados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef, na sigla em inglês) mostram que, entre 1990 e 2013, o número de assassinatos de crianças e adolescentes até 19 anos passou de 5 mil para 10,5 mil por ano - 28 por dia. 

"O Brasil não tem conseguido impedir o alarmante crescimento de assassinatos dos seus adolescentes", diz o relatório do Unicef feito em comemoração aos 25 anos do estatuto, que tem entre suas previsões a garantia à vida. "No entanto, após a aprovação dessa lei, o número de homicídios de brasileiros até 19 anos dobrou."

Dos adolescentes que morrem por causas externas, 36% são assassinados, mas de sete vezes o índice da população em geral e um número que transforma o Brasil em vice-campeão mundial no assassinato de jovens - perde apenas para a Nigéria.

Os jovens mortos têm cor, gênero, classe social e endereço: são pobres, moram na periferia das grandes cidades, são homens e negros. Ser homem aumenta em 12 vezes a chance de um adolescente ser assassinado. Os negros morrem quase quatro vezes mais do que os brancos.

O retrato traçado pelo Unicef encontra correspondência com a imagem do jovem Douglas Eduardo Silva da Conceição, de 13 anos, assassinado no ano passado em São Paulo. Morador do limite entre a capital e Diadema, no ABC paulista, Douglas acumulou recorrentes casos de abusos desde a infância e acabou aliciado para trabalhar para traficantes da região. Viciado em maconha e crack, roubou para sustentar o vício, mas acabou pego e sendo violentamente agredido e morto por vizinhos.

“Ele me falava para ajudá-lo, que ele queria sair dessa, se tornar bancário, tocar a vida dele. Ainda sonho com o dia em que ele vai chegar aqui na minha porta e falar que foi um engano, que não foi ele quem morreu. Mas não tem jeito”, lamentou a mãe do garoto, a auxiliar de serviços gerais Maria Cristina da Silva, de 43 anos.

Maioridade. O Unicef defende que a culpabilização dos adolescentes, verificada nas proposta de redução da maioridade penal aprovada pela Câmara dos Deputados, é um retrocesso que não vai resolver o problema da violência no Brasil, mas, sim, agravá-lo.

"O sistema penitenciário adulto brasileiro é mundialmente conhecido por seus graves problemas", lembra o relatório. "Nesse sistema, os adolescentes estarão expostos às facções do crime organizado e às precárias condições do sistema prisional brasileiro."

O relatório elogia a criação os avanços trazidos pelo ECA na punição de jovens infratores dentro de parâmetros adequados à idade. No entanto, lembra que muitas das medidas não funcionam porque até hoje o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase) não foi implementado adequadamente, com unidades de internação superlotadas e em condições insalubres, falta de projetos pedagógicos e o uso de internação, que deveria ser uma medida extrema, como padrão.

"Em 2012, 30 adolescentes morreram em unidades de internação", informa o estudo, mostrando o que é classificado de "fragilidade da implementação do sistema".

Depois de 25 anos, analisa o Unicef, o ECA permitiu e ajudou o avanço em diversas áreas de proteção da infância. Superou as metas de redução de mortalidade infantil, chegou próximo de assegurar a matrícula de 100% das crianças no ensino fundamental, garantiu a vacinação, o atendimento à saúde, o acesso à alimentação com a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS) e programas como o Bolsa Família. 

Ainda assim, o sistema de proteção não alcança grupos consideráveis de crianças, especialmente as indígenas, destacadas no relatório como o grupo onde a mortalidade infantil, a desnutrição, a falta de registro e de acesso à escola ainda é muito maior do que o aceitável. / COLABOROU MARCO ANTÔNIO CARVALHO

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