Número de feridos por bala no Rio pode superar o de 2006

É como se o hospital Getúlio Vargas ficasse no meio de uma zona de guerra. Sucateada, sem dinheiro e cercada por algumas das favelas mais violentas do Rio de Janeiro, a instituição trata feridos a bala quase todo dia. "A única diferença de uma guerra é que aqui não há trégua", disse o diretor do hospital, Carlos Chaves. "Recebemos gente ferida a tiros a qualquer hora do dia. Num minuto está tudo bem, no seguinte está um caos." Em 2006, o hospital tratou 473 pessoas com ferimentos de bala, sendo 27 crianças. A contagem para 2007 já está em 131, um ritmo que se for mantido irá, facilmente, superar o total de 2006. O drama no hospital Getúlio Vargas é um exemplo da violência que afeta o Rio, a cidade que há tanto tempo é a "cara" do Brasil no exterior. Nos últimos três anos, 19.381 pessoas foram assassinadas no Estado, a maioria na área metropolitana da capital. É mais que seis vezes o número de mortes de norte-americanos no Iraque desde 2003. Embora os moradores das favelas sejam os mais atingidos pela violência, a estrutura da cidade ajudou a colocar o sangue nas portas dos mais ricos. Com favelas em morros ao lado de apartamentos, balas perdidas atingem qualquer um, a ponto de a cidade ter criado uma estatística oficial só para contabilizar esse tipo de caso. "É a pior situação que já vi", disse Luke Dowdney, antropólogo e autor de um livro sobre o envolvimento das crianças no multimilionário narcotráfico carioca. Tendência nacional A criminalidade fez do Rio um lugar caro e difícil para se investir, principalmente no turismo. Os negócios da cidade gastaram o equivalente a US$ 1,3 bilhão (quase R$ 2,6 bilhões) em 2006 para reforçar a segurança, dinheiro que poderia ter sido investido no crescimento e em contratações, segundo a câmara de comércio. Embora seja difícil quantificar o impacto da violência sobre o comércio, os estabelecimentos dizem que o prejuízo é claro. "Não é tanto o que perdemos, o problema é o quanto deixamos de ganhar por causa da violência", disse Alexandre Sampaio, presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares local. O Rio tem pressa em amenizar a onda de violência, por causa da realização dos Jogos Pan-Americanos, em julho. As autoridades municipais querem usar a ocasião para mostrar a cidade como uma metrópole internacional. Esse foi um dos motivos para o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) ter quebrado o tabu da resistência e ter pedido ajuda ao governo federal. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva respondeu ao pedido despachando 450 soldados da Força Nacional de Segurança para o Estado. Até julho, cerca de 6 mil soldados estarão patrulhando as ruas. Vigilantes Ao mesmo tempo, a polícia reforçou as operações nas favelas para combater o tráfico, e o resultado foram tiroteios que aumentaram ainda mais o número de mortos. Só em janeiro, 526 pessoas foram mortas na cidade. No mesmo mês do ano passado, o número tinha sido de 480, segundo as estatísticas oficiais. Pelo menos mais 576 foram mortas em abril e março, de acordo com uma página na Internet que contabiliza as mortes violentas. Mas as operações não estão conseguindo conter o crescimento das chamadas milícias, que vêm se multiplicando nas favelas da cidade nos últimos meses e que estão cada vez mais sendo citadas por consultorias estrangeiras como uma grave ameaça à estabilidade. Formadas principalmente por policias aposentados e de folga, as milícias cobram dos moradores para proteger as favelas, mas muitas vezes são tão violentas quanto os traficantes. Cabral já comparou as milícias aos grupos paramilitares da Colômbia e pediu a punição dos oficiais que tenham ligações com esse tipo de organização. Mas, enquanto os salários dos policiais continuarem baixos - eles ganham em média cerca de R$ 1.000 por mês -, especialistas acreditam que a corrupção policial e as milícias só vão crescer. As autoridades da área de segurança, no entanto, insistem que as milícias são uma ameaça menos significativa, mais fácil de enfrentar que os grupos de traficantes."As milícias são um problema? Sim. Mas são um problema menor que o tráfico de drogas e o tráfico de armas", disse Márcio Derenne, subsecretário da Segurança do Estado.

Agencia Estado,

16 Abril 2007 | 14h26

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