Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Números da febre amarela em janeiro e fevereiro quase dobram no Brasil

Em 51 dias, foram relatados 541 casos da doença, com 163 óbitos; no mesmo período do ano passado, informes indicavam 292 confirmações da infecção e 97 mortes

Lígia Formenti, O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2018 | 03h00

BRASÍLIA - Os números do surto de febre amarela deste ano já quase dobram os registros de 2017. De 1.º de janeiro até 20 de fevereiro, foram confirmados 541 casos da doença, com 163 óbitos, conforme os dados compilados pelo Estado. No mesmo período do ano passado, informes do Ministério da Saúde indicavam haver 292 confirmações da infecção, com 97 mortes. 

Nos comunicados oficiais, o Ministério da Saúde sustenta que os casos estão abaixo do ano passado. Como justificativa, a pasta usa dados de um período mais extenso, que começa em julho. E nessa estratégia compara registros já fechados, de 2017, que têm poucas chances de serem ampliados, com dados preliminares de 2018, que ainda podem aumentar.

O coordenador-geral de doenças transmissíveis do Ministério da Saúde, Renato Alves, afirma não haver problemas em fazer a comparação de números fechados com números preliminares. Em entrevista ao Estado, ele argumenta que no ano passado havia uma dificuldade maior para investigação das notificações, o que levava a uma demora para confirmação ou descarte de infecções.

+++ Perguntas e respostas sobre febre amarela

Em 2017, conta, a demora de confirmação de casos chegava a dois meses. Atualmente, varia entre 10 a 15 dias. “Os dados estão mais precisos”, observou. Por esse raciocínio, a expectativa é de que os números divulgados sofram poucas alterações quando forem consolidados.

Só que mesmo os indicadores preliminares são superiores aos dados fechados de 2017. Esses dados indicam 541 casos confirmados entre 1.º de janeiro e 20 de fevereiro. Marca que supera os 510 casos consolidados do período do ano passado.

Macacos

Alves assegura que neste ano a força de transmissão de febre amarela seria menor. E cita como exemplo as mortes de macacos, um indicador usado por pesquisadores para avaliar a circulação do vírus no País. No entanto, mesmo nessa comparação os números de 2018 são maiores. Informe apresentado ontem pela pasta indica 522 confirmações de mortes de macacos por causa da febre amarela. Outras 1.241 estão em investigação. No mesmo período do ano passado, eram 377 confirmadas e outras 212 que estavam em investigação.

A estratégia de se analisar dados de um período epidemiológico, que vai de 1.° de julho a 30 de junho do ano seguinte, foi retomada pelo Ministério da Saúde no fim de 2017. Nos primeiros meses do ano passado, quando houve uma explosão de número de pacientes com suspeita de febre amarela, a pasta contabilizava os dados a partir de 1.º de dezembro de 2016 – período em que as suspeitas de recrudescimento da doença ganharam força. Alves sustenta que a comparação de dados do período epidemiológico é mais fiel à realidade.

Cautela

“É preciso ter cuidado para não transmitir dados que sejam artificialmente tranquilizadores”, afirmou o pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, Cláudio Maierovitch. Para ele, tecnicamente as duas formas de medir estão corretas. “Mas trabalhar com o período estendido transmite uma melhora de cenário que não é real”, avaliou. Em sua avaliação, ao se afirmar que a doença este ano é menos intensa do que em 2017, se reduz as chances de mobilizar equipes de saúde, estratégia essencial para conter o surto. 

Na mesma linha vai o professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto e presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, Maurício Nogueira. “Há um grande número de casos nas proximidades de Belo Horizonte; casos dentro de São Paulo, o maior centro urbano do País, e uma circulação importante perto do Rio. Dizer que a situação deste ano é melhor do que a do ano passado dá uma falsa sensação de segurança”, avalia. E os reflexos disso ficam estampados nas estatísticas de vacinação, que indicam uma baixa adesão às campanhas. 

A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) afirmou que a rapidez na confirmação de casos de febre pode “explicar em parte a diferença” dos dados. De acordo com a Opas, é tão correto considerar casos por ano ou mês quanto por período sazonal. “Depende da forma como o país organiza sua estratégia de monitoramento.”

‘Trata-se de um surto único no País’

A presidente da Sociedade Brasileira de Imunização, Isabella Ballalai, afirma que o País enfrenta um dos piores surtos de febre amarela das últimas décadas. “Trata-se de um surto único. Uma onda que teve início em 2016.” Para ela, o avanço de casos de febre amarela no País neste ano, mesmo depois do início da campanha de vacinação em São Paulo e Rio, mostra a necessidade de se criar estratégias para reduzir a resistência da população. “Pessoas aguardam horas na fila para vacinar seus filhos, mas não querem se imunizar. A resistência é maior entre homens adultos.” 

Ministro sugere vacinar todo o País ainda este ano

O ministro da Saúde, Ricardo Barros, propôs ontem a representantes de secretários estaduais e municipais de saúde vacinar toda a população brasileira contra febre amarela até o fim do ano. A área de recomendação de vacina contra a doença tem se expandido ao longo dos últimos anos, em uma resposta ao avanço da circulação do vírus que provoca a doença. 

Atualmente, cerca de 20 milhões de pessoas no Nordeste e 10 milhões no Sudeste vivem em áreas onde não há recomendação de vacina. Na avaliação de Barros, seria possível atender a essa demanda ainda neste ano. Isso porque a Fiocruz deverá entregar 48 milhões de doses. Além disso, é esperado para o próximo semestre a entrada em funcionamento da fábrica da Libbs, numa produção em parceria com a Fiocruz. Isso seria suficiente para atender toda a demanda, incluindo a rotina. A proposta será discutida entre Estados e municípios. A ideia também foi apresentada para a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Sem fracionamento

De acordo com o ministro, se a ideia for aprovada, a vacina usada será a integral, e não a fracionada. “A ideia é nos anteciparmos ao risco. Vacinar antes de o vírus atingir as áreas hoje consideradas livres de circulação.” 

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