Alberto Pizzoli/AFP
Alberto Pizzoli/AFP

'Nunca faltou no Brasil a presença de pessoas extraordinárias', diz arcebispo de Salvador

Em conversa com o 'Estado', dom Murilo Krieger comentou sobre a importância da canonização de Irmã Dulce

Entrevista com

dom Murilo Krieger

Edison Veiga, Especial para o Estado

13 de outubro de 2019 | 20h10

BLED (ESLOVÊNIA) - Oito anos atrás, o religioso catarinense Murilo Sebastião Ramos Krieger foi nomeado Primaz do Brasil pela Igreja Católica. O título honorífico é conferido a quem ocupa o posto de arcebispo de Salvador - remete ao fato de que em 16 de novembro de 1676, pela bula Inter Pastoralis Officii Curas, o papa Inocêncio XI (1611-1689) fez de Salvador a primeira e mais antiga diocese do País.

Agora, aos 76 anos, dom Murilo Krieger recebe outra dádiva do Vaticano. Sua circunscrição eclesiástica é a terra natal da mais nova santa, a 37a. personalidade brasileira canonizada pela Igreja: Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes (1914-1992), a Irmã Dulce dos Pobres

No Vaticano, Krieger é um dos muitos religiosos brasileiros que estarão junto ao papa Francisco na missa de canonização. Na segunda, o arcebispo celebra na Basílica Sant’Andrea della Valle, em Roma. De volta ao Brasil, ele deve comandar a missa em Ação de Graças pela nova santa marcada para o dia 20 de outubro na Arena Fonte Nova, em Salvador. 

Neste domingo, dia 13, imediatamente após a canonização, será criada na capital baiana a primeira paróquia com a nova santa como padroeira: Paróquia Santa Dulce dos Pobres. Dom Murilo Krieger conversou com a reportagem do Estado:

Estado: Qual a importância, sobretudo para as comunidades da arquidiocese de Salvador, da canonização de Irmã Dulce?

Dom Murilo Krieger: Para muitos, falar de um santo ou uma santa parecia uma referência a quem morou na Europa e em séculos passados, já que a maioria dos santos conhecidos tem essas características. De repente, a comunidade baiana está descobrindo que os santos não são seres angelicais, distantes, mas pessoas próximas, que muitos conheceram ou das quais se ouve diariamente muitos testemunhos positivos. Tenho certeza de que, a partir da canonização de Irmã Dulce dos Pobres, será mais fácil explicar a todos que santidade não é um privilégio de poucos ou de pessoas especiais, mas está ao alcance de todos, e que é obrigação de todos buscar a santidade. E que, para isso, é preciso imitar Jesus Cristo, fazer a vontade de Deus e amar apaixonadamente as pessoas que ele coloca em nossos caminhos.

Estado: Quais os valores de vida de Irmã Dulce mais devem ser lembrados pelos católicos?

Krieger: Sua simplicidade, seu foco em Jesus Cristo, sua capacidade de vê-lo no necessitado e a capacidade que teve de esquecer-se de si mesma para responder às necessidades que se apresentavam e se multiplicavam à sua frente.

Estado: Irmã Dulce será a 37a. Personalidade brasileira canonizada pelo Vaticano. Levantamentos extraoficiais dão conta que há outros 130 na fila da canonização. Podemos afirmar que o Brasil terá ainda muito mais santos?

Krieger: Em 1991, quando o papa, agora santo, João Paulo II presidiu, em Florianópolis, a missa de beatificação de Irmã Paulina do Coração de Jesus (canonizada em Roma, em 2002, numa celebração presidida pelo mesmo Papa), eu o ouvi terminar a homilia com uma observação que não estava no texto oficial, distribuído à imprensa: ‘O Brasil precisa de santos!’ E, logo em seguida, completou: ‘De muitos santos!’. Até aquele tempo, não se valorizava muito, aqui no Brasil, as canonizações. Com essa beatificação e canonização, se percebeu que os santos são muito importantes em nosso trabalho pastoral, pois eles são modelos vivos daquilo que a Igreja ensina. Em outras palavras: mesmo após seu falecimento, eles evangelizam, pois atraem as pessoas para suas palavras, para seus exemplos e, particularmente, para Jesus Cristo. Começou, então, uma corrida em torno de tais modelos; abriram-se dezenas de processos e, com surpresa, se percebeu que o que nunca faltou no Brasil foi a presença de pessoas extraordinárias - de verdadeiros santos. O difícil é comprovar sua santidade, pois há todo um processo longo e exaustivo. 

Estado: No total, quantos membros do clero brasileiros devem estar presentes à cerimônia de canonização?

Krieger: Além de cerca de 30 bispos que irão para a celebração, dela participarão os bispos brasileiros que estão no Sínodo sobre a Amazônia. Quanto ao número de sacerdotes, tudo indica que serão em torno de 100.

Estado: Como será a programação em Salvador para acompanhar a canonização?

Krieger: No próprio dia 13 a maioria das comunidades paroquiais de Salvador se reunirá a partir das 5h da manhã, para acompanhar a celebração de canonização e, em seguida, participar da santa missa. Logo após a declaração oficial de que Irmã Dulce dos Pobres é santa, no santuário onde estão seus restos mortais será lido um decreto declarando que aquele santuário passa a ser chamado de Santuário Arquidiocesano Santa Dulce dos Pobres. E no bairro Cabula estará sendo lido um outro decreto, criando a primeira paróquia em que Santa Dulce dos Pobres será a padroeira: Paróquia Santa Dulce dos Pobres. As festas se espalharão por toda a cidade e o Estado. No dia 20 de outubro, às 17h, terá lugar uma santa missa em agradecimento a Deus pela canonização. Será na Arena Fonte Nova e os 54 mil bilhetes de ingresso (gratuitos) já se esgotaram. Tivéssemos a possibilidade de colocar na arena outro tanto, também já teriam sido distribuídos... A partir das 13h, daquela tarde, haverá cantos, encenações (uma apresentação da vida de Irmã Dulce dos Pobres por 500 crianças), cânticos de um Coral de 200 pessoas, etc.

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