Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE

‘O alto-falante anunciou: Attention. The war is over’

Depoimento:Rui Moreira Lima, brigadeiro e piloto de caça

25 Agosto 2012 | 15h45

Eu estava em Natal fazendo a revisão de um P-40 (avião) quando abriu o voluntariado para o 1.º Grupo de Aviação de Caça. Dei meu nome. No dia seguinte, quando voltei para minha base em Salvador, meu comandante me disse: "Você fez besteira, rapaz. Vai para um lugar onde os caras já estão treinados. Vai ser como tiro ao pombo". E eu respondi: "Mas eu não estou pensando nisso, eu estou pensando nos navios que foram afundados". Em poucos dias, os alemães mataram centenas no litoral do Nordeste. Fomos treinados no Panamá e, depois, nos Estados Unidos. Só então embarcamos para a Itália.

No primeiro mês de combate, perdemos quatro pilotos. Fiz meu primeiro voo em 6 de novembro de 1944. Quando voltei da missão, fui entrevistado pela BBC. Foi quando chegou a confirmação da morte do Cordeiro (John Richardson Cordeiro e Silva), o primeiro piloto que morreu. Ele foi atacar Bolonha, a estação de estrada de ferro, que era muito protegida. Pegou um tiro. Eu vinha voando e ouvindo a conversa dele com o americano: ‘Meu avião foi atingido e tá pegando fogo. Tô perdendo altura e potência. Estou com rumo sul". Ele estava a 17 km de Bolonha quando o avião bateu em um morro e explodiu. Ele morreu.

Minha mulher não gosta que eu fale, mas eu fiquei muito mal quando atirei pela primeira vez. As primeiras pessoas que eu destruí, a vida delas me custou muito caro. Os colegas me diziam: "Pô, tá medrando, fica chorando, vomitando aí". Porque me causou um mal-estar muito grande quando eu puxei o gatilho e atirei nos caras. Eles estavam correndo, saindo de um jipe para entrar numa casa na campanha e eu atirei neles. Daí em diante, comecei a pensar: ‘Se eu não atirasse, esses estariam atirando e matando os meus’. Essa é crueza da guerra.

No dia 2 de maio de 1945, me apresentei para outra missão e, na sala de operações, de repente o alto-falante anunciou: ‘Attention, attention, please. The war is over, the war is over’. Aí foi aquele silêncio maravilhoso e, em seguida, uma gritaria enorme. Abracei até quem não conhecia. O pessoal chorando, emocionado. Confesso que achei muito bonito. Dois momentos bonitos: o dia em que terminou a guerra e o dia em que pousei no Campo dos Afonsos (Rio) e encontrei minha mulher e minha filha. Ela tinha sete meses e eu não a conhecia. Deixei minha mulher grávida e só fui conhecer a menina depois da guerra. / M.G. e MARCOS DE PAULA (FOTO)

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