O andarilho do centro

Desde 2005, Carlos Beutel organiza passeios noturnos pela cidade

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

25 Julho 2009 | 00h00

"Quando eu morrer quero ficar,/ Não contem aos meus inimigos,/ Sepultado em minha cidade,/ Saudade./ Meus pés enterrem na Rua Aurora,/ No Paiçandu deixem meu sexo,/ Na Lopes Chaves a cabeça/ Esqueçam./ No Pátio do Colégio afundem/ O meu coração paulistano (...)." Recitados por Carlos Beutel, os versos do poeta Mário de Andrade (1893-1945) parecem uma reza, tamanha devoção. "Minha relação com São Paulo é a mesma de um pai com seu filho", compara. "Filho dá trabalho, enche o saco... Mas, de repente, está trabalhando, cuidando da sua vida, namorando... Olha, meu filho cresceu, que bonito! Então bate aquela alegria..." Aos 54 anos, esse paulistano do Bom Retiro ainda se surpreende com nossas belezas e cicatrizes urbanas. "É uma cidade totalmente inesperada", adjetiva. "Quantos europeus não vêm aqui e se encantam com as nossas galerias, nossas ruas, o (Edifício) Copan?" Todo esse deslumbramento fez com que ele tivesse a ideia de organizar um passeio noturno, a pé, pelas ruas centrais. "Em paralelo à recuperação do centro, é preciso salvar a moralidade pública, a ética e a solidariedade", defende. "A caminhada é apenas um pontinho, uma verruga no corpo todo." A vontade veio há cerca de dez anos, mas só foi concretizada em outubro de 2005. Os primeiros passeios, ainda para poucos amigos, saíam da Biblioteca Mário de Andrade e não tinham a organização de hoje em dia. "Quando mais gente se agregou, resolvi planejar melhor", lembra. Em março de 2006, o programa passou a ter o formato atual. Começa na frente do Teatro Municipal, todas as quintas, sempre às 20 horas. Os participantes recebem um colete amarelo - para que o grupo seja facilmente identificado - e são conduzidos por um guia turístico profissional. Virou uma tradição. "Eu mesmo só faltei duas vezes", garante Beutel. A cada semana, um roteiro diferente, sempre visitando endereços históricos da região central. Quase todas as edições têm um convidado - em geral, um arquiteto, artista ou líder comunitário - que fala sobre o tema do passeio da noite. Que varia muito. Pode ser "igrejas históricas" ou "questões urbanísticas da cracolândia", conforme o itinerário previsto. O sucesso da iniciativa é materializado pela quantidade de participantes - em geral, mais de 50 pessoas por semana. Procurada por Beutel, a SPTuris apoia o projeto, divulgando-o em suas cinco centrais de informações turísticas. Os passeios são de graça. A única contrapartida financeira do organizador é o direito de estampar o logotipo e o nome de seu restaurante vegetariano nos folders sobre a caminhada e nos coletes amarelos utilizados. ?ECOPAULISTANO? O centro paulistano sempre fez parte do cotidiano de Beutel. Seu restaurante - comprado em 1986 - funciona há 18 anos na esquina das Ruas Dom José de Barros e Barão de Itapetininga, em um prédio tombado, construído no início do século 20. Ele não mora longe dali. Vive no Copan, famoso edifício projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer e erguido, nos anos 50, na Avenida Ipiranga. "Venho trabalhar a pé ou de bicicleta", afirma. "Quando abri meu restaurante aqui, era uma criminalidade absurda. Todo mundo era assaltado. Nenhum turista podia vir", diz. "Só na minha rua eram 30 trombadinhas por dia. Uma situação de caos, de desgoverno..." Ele reconhece, é claro, que ainda há muito para ser feito. "Mais uns 15 anos de trabalho para ficar decente." Porque "a cidade merece", Beutel decidiu se engajar. Participa, por exemplo, do Movimento Nossa São Paulo. "A vida de nós, paulistanos, é muito ruim. Somos felizes porque temos um otimismo inato", acredita. "Mas é complicado não poder andar em paz com o vidro do carro aberto, demorar no ônibus, essas coisas. Por isso, precisamos nos mobilizar." Antes disso, sua vida já gravitava pelo centro. Ele foi office-boy e, depois, corretor de imóveis. Estudou Direito na tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco - formou-se em 1982, mas jamais seguiu carreira. "Advogar não é para mim", comenta. "Acho que meu português não é suficientemente bom." Há seis anos, abriu uma filial de seu restaurante nos Jardins - administrada pela sua segunda mulher, Milene, com quem vive desde 1989 e teve duas de suas três filhas. A gastronomia vegetariana não é apenas um negócio; é filosofia de vida. "Graças a Deus sou vegetariano", declara, sobre a opção que adotou há três décadas. "Se você é pacifista, não pode admitir que matem animais do jeito que fazem. E também há duas outras questões: a saúde e o fato de que eles desmatam áreas verdes para botar gado." Nas paredes de seu restaurante, mensagens afixadas deixam claras suas opiniões. Sob o lema "ecologia da boca pra dentro", ele exibe panfletos contrários ao uso de sacolas plásticas e copos descartáveis. Também pede consciência no consumo de água e clama para que os frequentadores não falem ao celular enquanto almoçam. "Acho que é uma falta de respeito com as outras pessoas e com você mesmo", justifica-se. "É hora do almoço! Para, desliga, sai do mundo um pouco, né?" E qual é a válvula de escape desse ecologista urbano, essencialmente paulistano? Beutel tem um sítio em Cotia, na Grande São Paulo, para onde costuma "fugir" nos fins de semana. NOVO PASSEIO Depois de ouvir muitos pedidos para criar um horário alternativo para suas caminhadas, Beutel inaugurou, há pouco mais de um mês, um novo formato: nas manhãs de sexta, o passeio "São Paulo nas Alturas" sai da sede de seu restaurante, o Apfel, e vai até o Copan - com direito a subida ao prédio, para admirar a vista do centro de São Paulo. Para participar é preciso desembolsar R$ 10. "Mas é claro que se alguém vier e me contar uma boa história, eu não vou cobrar...", revela ele, em tom de quase confidência. A tradicional versão noturna continua existindo. Informações sobre ambos os programas podem ser obtidas pelo telefone (11) 3256-7909. Se o próprio Beutel atender, nem será preciso perguntar quem está falando. Seu jeito de tratar as pessoas - sempre esbanjando simpatia e dizendo "ô, meu filho" - já entrega que do outro lado da linha está o incansável andarilho do centro da cidade.

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