O apartamento dela

Quando começamos, ela era homeless. Vinha de um mestrado em terras distantes, suas tralhas estavam amontoadas numa garagem em Cotia e vivia com uma mala e um laptop, na sala de TV de uma amiga. Por alguns meses, portanto, meu apartamento foi o cenário principal do nosso namoro.Ela chegava do trabalho de noite, dormíamos juntos e no dia seguinte partia, antes que eu acordasse. Moça independente, orgulhosa, levou semanas para que me concedesse a alegria miserável de um brinco esquecido, um pé de meia, uma BIC, que fosse. "Te dou uma gaveta", eu insistia, "bota seus cremes na bancada", implorava, tentando mostrar que, se já tinha meu amor, por que não também o apartamento? Os dois sabíamos, contudo, que era cedo para um passo tão grande, de modo que um dia, como tinha de ser, ela alugou um apartamento só pra ela. De início, não me incomodei. Ajudei a buscar as tralhas em Cotia e até fui numa daquelas lojonas da Marginal comprar maçanetas, soquetes e quetais. Foi só na primeira manhã, quando a vi levantando-se da cama e caminhando até o banheiro, que senti penetrando em meu peito a broca do ciúme. Havia nos passos dela uma leveza inédita, como se o ar que seus pés atravessavam, no apartamento novo, fosse mais rarefeito do que o do meu quarto; seus braços pareciam balançar mais soltos, como se até então estivessem preocupados em não tocar as paredes, não resvalar nos objetos; até a camiseta de dormir parecia mais fina e solta em seu caminho da cama à pia. Percebi que em seis meses ela nunca havia se entregado a nós (eu e meu apartamento), da maneira que se entregava ao outro. Senti-me preterido, diminuído, levemente abandonado. Nos dias seguintes, meu ciúme só cresceu. Ela preferia comprar corda de varal para ele do que ir ao cinema comigo. Se eu sugeria jantar fora ela logo propunha pedir uma pizza, para comermos ali, sentados sobre os tacos - dele. Quando, no fim de semana, ela recusou o convite de uns amigos para irmos à praia alegando que precisava pendurar quadros, pensei em dar o ultimato: ou ele ou eu!, mas assim que ela perguntou-me se eu tinha uma furadeira, uma lufada de alívio refrescou meu peito. Foram mais de 40 furos, com broca oito. Dava para pendurar estantes capazes de segurar a Britânica, a Barsa e a Mirador. Como hoje em dia, contudo, ninguém mais tem enciclopédias, os parafusos serviram apenas para pendurar quadros - e mostrar a ele quem é que mandava por ali. Até o dia, não muito distante daquela tarde, em que ela decidiu colocar os cremes definitivamente na minha bancada e fomos felizes para sempre. O apartamento, dizem, passa bem: é habitado por uma dançarina de flamenco e tem as paredes pintadas de verde claro.

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