''O Brasil precisa de plano estratégico''

Além de querer multiplicar recursos para educação, ela diz ser 'imperativo ético' integrar a economia à ecologia: 'Eu sou uma mulher de mediações'

Adriana Carranca, Ricardo Grinbaun e Roldão Arruda, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2010 | 00h00

Em nome de seus 13 milhões de eleitores (os 10% de intenção de votos que lhe dão as pesquisas), a presidenciável Marina Silva (PV) carrega, por palanques, encontros, entrevistas e debates pelo País afora, um fardo verde carregado de sonhos e pragmatismo. Nele se misturam, por exemplo, a promessa de manter o tripé da macroeconomia - superávit fiscal, câmbio flutuante e metas de inflação - e deixar o Banco Central correr como está, com uma estratégia de multiplicar os recursos para educação até 7% do PIB (hoje são 5%), aprovada por um Congresso onde sua base juntaria petistas e tucanos. Outro de seus projetos é convocar uma Constituinte e dela extrair as reformas política, tributária e da Previdência.

Cautelosa quando o assunto é economia, Marina se agita e se estende quando a conversa muda para os vários plebiscitos que pretende fazer - se eleita - ou a integração de políticas verdes e de desenvolvimento. Sobre a fonte de mais dinheiro para a educação, ela pergunta: "A gente é capaz de capitalizar R$ 80 bilhões para o BNDES investir nas empresas. Por que não pode fazer o mesmo na educação?" E as relações com o MST? "Na democracia você pode ter relações com todos os que respeitam o Estado de direito".

Nesta conversa com o Estado, na sede de sua campanha em Vila Madalena, zona oeste de São Paulo, a candidata insiste na urgência de "um plano estratégico para o País". Também critica a descriminalização das drogas, defendida pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e pelo senador Fernando Gabeira, e revela seus caminhos para realizar "o imperativo ético de integrar economia e ecologia."

Entre seus assessores figuram tanto o ortodoxo Eduardo Giannetti da Fonseca quanto o heterodoxo Paulo Sandroni. Qual seria, afinal, sua política econômica?

Todos os governos têm pessoas de diferentes espectros na área econômica. Acho que o fato de o presidente Lula ter tido o (Henrique) Meirelles (presidente do Banco Central) e colaboradores como o (senador Aloizio) Mercadante não o impediu de ter uma mesma linha de pensamento econômico. O presidente Fernando Henrique juntava o pessoal da Escola de Chicago com pessoas de visão mais clássica da economia.

Uma linha sempre prevalece...

Eu sou uma mulher de mediações. FHC e Lula fizeram as mediações no seu tempo. Eu farei as do meu.

Como é a mediação na campanha?

Acho que é o diálogo. Obviamente, quando não se consegue mediar os interesses vêm os prejuízos. Todo mundo se compromete com as reformas, fica quatro anos e depois pede mais quatro, porque não as fez. É preciso reconhecer que não é fácil.

Tem de fazer reforma, então? Qual?

A política, por exemplo. Mas não teria sentido fazer uma Constituinte exclusiva, que eu defendo, só para uma reforma. Teríamos de colocar as mais importantes: tributária, previdenciária e a política.

A senhora vai manter o tripé macroeconômico: superávit primário, meta de inflação e câmbio flutuante?

Tivemos algumas conquistas nos últimos 16 anos com a política inaugurada com o Plano Real. Não teremos aventuras. Vamos manter o famoso tripé.

Como vê a independência do BC?

Defendo a independência operacional, sem institucionalização, como hoje. Que se mostrou eficiente.

FHC governou com o DEM de ACM. Lula, com o PMDB de Sarney. A sra. acha que vai governar acima desse tipo de aliança?

Talvez Fernando Henrique não se tenha colocado o desafio de governar com o Lula. E este colocou o desafio de governar com FHC? A diferença entre mim e eles é que admito essa possibilidade. Eu me disponho a dialogar com os partidos, lideranças e com os dois.

Não se leva adiante o diálogo sem concessões. A senhora as faria?

Se concessões significam democratização dos espaços de poder e governança, necessárias para governar, não é prejudicial ao País. O erro é fazer isso por questões puramente fisiológicas.

Por que a sra. se opõe ao casamento de homossexuais? E por que propõe o plebiscito apenas para as questões do aborto e da descriminalização da maconha? Por que não para a independência do BC? Ou o desmatamento zero?

Não é só nessas questões. Também fui a favor do plebiscito sobre parlamentarismo ou presidencialismo. Na questão dos direitos civis dos homossexuais, o que eles reivindicam? O direito de herança, de ter planos de saúde conjuntos - uma série de políticas públicas. Isso não lhes pode ser negado. Mas na minha concepção o casamento é um sacramento - e por isso não sou favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. A diferença entre mim e os outros é que eu falo isso claramente. Para que a comunidade gay olhe para mim e diga: a Marina concorda com os meus direitos civis, mas, em função do seu ponto de vista religioso, não concorda com o casamento. Em relação ao aborto e à liberalização da maconha, proponho o plebiscito porque é a forma de fazermos o debate. É uma questão ética, filosófica, moral e religiosa. Se fosse fácil, poderia ser resolvida no Congresso. Estou dizendo que é maior e propondo um caminho. O fato de ter uma fé cristã não significa que tenha que ser uma pessoa preconceituosa, incapaz de respeitar a diversidade. A pessoa que mais valorizou a diversidade foi Jesus Cristo.

A sra. propôs destinar 7% do PIB para a educação. De onde viria o dinheiro?

Acho que a gente tem que estabelecer a prioridade. É prioridade a educação no Brasil? Sim. É possível um país como o nosso investir só R$ 1.400 por ano por aluno? É possível continuarmos com 40% das crianças sem sequer chegarem à oitava série? Se a resposta for sim, então não vamos aumentar os recursos. Eu vi a ministra Dilma falando que isso (os 7%) poderia ser dado agora. Fiquei feliz porque, se quem está no governo diz que pode ser agora...

Mas de onde viria o dinheiro?

Tem que vir da redução do gasto público que é desperdiçado. E tem muito desperdício. A gente é capaz de capitalizar R$ 80 bilhões para o BNDES investir nas empresas? Por que não é capaz de fazer um esforço semelhante na educação? Por que falamos na educação como custeio? É um investimento! Essa não é uma questão técnica. É uma questão ética.

E o que a sra. faria no BNDES?

Os primeiros R$ 100 bilhões capitalizados no período da crise se deram num momento de emergência. Agora, é preciso que tudo seja feito com transparência. Algumas empresas estão recebendo esse dinheiro, isso tem de aparecer no Orçamento.

Desenvolvimento traz maior consumo de energia, construção de estradas... A sra. pretende flexibilizar posições adotadas como ministra?

É prioritária a infraestrutura aeroportuária? É. As hidrelétricas? Sim. Investimentos para agricultura? Sim. Mas, na pecuária, há cerca de 200 milhões de hectares improdutivos. Com as tecnologias disponíveis na Embrapa, podemos dobrar a produção e liberar cerca de 70 milhões de hectares para outras atividades. Mas não precisamos ter nossos produtos associados a trabalho escravo, à destruição do meio ambiente. Por isso digo, o Brasil não precisa de gerente, mas de pensamento estratégico. Que FHC teve ao fazer o Plano Real, que Lula teve ao fazer a política social. E é porque o Brasil continua precisando de pensamento estratégico para integrar meio ambiente e desenvolvimento que me candidatei.

A que a sra. atribui as reclamações sobre a lentidão das licenças ambientais quando ministra?

Quando cheguei ao ministério, 90% dos funcionários no licenciamento eram temporários. Fizemos concursos públicos, treinamos pessoas e invertemos isso. Tínhamos uma diretoria e uma coordenadoria. Saltamos de 118 licenças, em 2003, quando cheguei ao governo, para 367, em 20o7.

Qual será sua relação com o MST?

Na democracia você pode ter relação com todos os que respeitam o Estado de direito.

Invadir terra para pedir reforma agrária é desrespeitar o Estado de direito?

Mas você não pode dizer que todo movimento de sem terra é assim. Existe uma demanda legítima por reforma agrária e eu sou favorável à democratização da terra, desde que não extrapole o Estado democrático de direito. E isso é válido para o MST e para os setores contrários à reforma agrária. Temos cerca de 700 pessoas ameaçadas de morte na Amazônia. Da infância à fase adulta, eu vi morrer o Ivaí, o Wilson Pinheiro, Chico Mendes, o Calado, o João Eduardo, o Elias... Quem não observar o Estado de direito está na contramão da legalidade.

O Brasil dá mais recursos à universidade pública do que à educação básica. O que a sra. faria?

A gente tem de quebrar essa visão de que o processo de ensino e aprendizagem é dicotomizado. Não é. É fundamental investir na educação infantil, fundamental, no ensino médio e universitário.

Mas o cobertor é curto...

Se a gente mantiver essa lógica a gente nunca vai chegar a lugar nenhum porque quem forma os professores é a universidade. Se não tivermos boas universidades não teremos bons professores.

A sra. fala também em ampliar o Bolsa-Família.

O Bolsa-Família será mantido e acrescido do que chamo de programa social de terceira geração, com força no ensino profissionalizante.

A sra. é a favor de cotas?

Como resgate da injustiça histórica com negros e índios, sim. Eles precisam dessa "discriminação positiva". Mas ela não deve ser perpetuada.

Qual a sua política para as drogas?

Estamos vivendo uma situação de desespero em relação ao crack. Isso é possível combater com uma reforma da segurança pública e uma Polícia Federal cada vez mais equipada para o combate ao tráfico de armas e um olhar que valorize as Forças Armadas, que cumprem um papel de dissuasão nas fronteiras.

A sra. é a favor da criminalização das drogas?

Não se deve pensar o combate às drogas como caso de polícia, mas de saúde pública. Mas não defendo a liberalização das drogas. Eu olho para o Gabeira e o FHC e sei que são pessoas responsáveis. Eles propõem a liberalização. Eu discordo da estratégia. Não acredito que liberalizar pode dissuadir o tráfico. Por isso, proponho plebiscito.

Levando-se em conta o recente e enorme desastre ambiental nos EUA, vale a pena investir no pré-sal aqui?

Vale a pena investir em altíssima tecnologia e levar a sério o princípio da precaução para que não se repita o que aconteceu no Golfo do México. Se a Petrobrás quiser fazer um processo de capitalização adequada terá de convencer o investidor e o cidadão de que vamos utilizar as melhores práticas.

As culturas de preservação e de consumo são compatíveis?

Nós não temos um farol. Não há exemplos, na experiência socialista ou capitalista, de uma relação perfeita entre capital, economia e natureza. Há esforços, como que o Brasil fez em Copenhagen, por gosto ou a contra-gosto, ou quando Obama tenta desesperadamente passar uma lei do clima e não consegue. O que eu estou fazendo aqui é um esforço e represento, com esses 10% (de intenção de votos), 13 milhões de brasileiros nessa direção. Não existe nenhuma possibilidade de continuarmos com o mesmo modelo predatório. E o Brasil reúne as melhores condições para fazer essa transição. Temos cerca de 300 milhões de hectares de área agricultável, 45% de matriz energética limpa, vento, a maior área de insolação do planeta, e um potencial para a produção de álcool como nenhum outro, além da hidro-eletricidade. Não podemos abrir mão desse imperativo ético de integrar economia e ecologia.

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