O brilho ofuscado de Marta, estrela solitária

Derrota em 2008 e tensões na campanha de 2010 diminuíram força da senadora no PT

Julia Duailibi, O Estado de S.Paulo

28 Agosto 2011 | 00h00

No segundo turno da eleição de 2000, a então candidata do PT à Prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy, costurou ampla frente suprapartidária em torno da sua campanha. Conseguiu o apoio de outros nove partidos, além de um feito pouco provável hoje: a declaração de voto de várias lideranças tucanas. Embalada por uma onda anti-Paulo Maluf (PP), ganhou a eleição.

No governo, montou uma equipe representativa das forças petistas, cedendo espaço para diferentes alas. Foi alçada a uma das principais forças políticas do PT, garantindo espaço suficiente para disputar a Prefeitura por outras duas vezes, tornar-se ministra e obter uma vaga no Senado.

Onze anos depois, a senadora Marta Suplicy é uma política isolada. O núcleo petista que montou em 2001 para governar a capital dissolveu-se. Hoje, encontra dificuldade para viabilizar o projeto de se candidatar prefeita em 2012.

O Estado conversou com as principais lideranças do PT na última semana e reconstruiu o caminho que levou Marta ao isolamento. Petistas próximos e adversários apontam como ponto de partida o período posterior à derrota na eleição municipal de 2008.

Encerrada a disputa, Marta iniciou o distanciamento dos mentores da candidatura de 2000 e pilares do seu governo, como o presidente nacional do PT, Rui Falcão, o ex-secretário Valdemir Garreta e o assessor Edson Ferreira.

Dois de seus secretários na Prefeitura, Carlos Zarattini e Jilmar Tatto, são hoje adversários numa eventual prévia para definir o candidato do PT. Luiz Marinho, prefeito de São Bernardo do Campo que coordenou a campanha de Marta ao Senado em 2010, está empenhado no projeto lulista de fazer o ministro Fernando Haddad (Educação) prefeito.

A derrota de 2008 levou Marta a reavaliar a relação com o núcleo duro. A interlocutores dizia que havia sido isolada do partido e que queria aumentar o contato com outros setores. Alegava também estar distante do então presidente Lula. Esse diagnóstico levou a um processo de pulverização dos interlocutores, sem "privilégios" com mais nenhum grupo no PT. "O erro mortal de Marta foi quando ela rifou o seu grupo", analisa um líder do PT.

Esse processo calhou com o momento em que Marta começou a namorar o empresário Márcio Toledo, presidente do Jockey Club. As análises políticas de Toledo despertaram a ira de petistas, que o veem como um quadro do PMDB, amigo do senador Aécio Neves (PSDB) e pouco conhecedor da máquina do PT.

Senado. Sem o respaldo do seu grupo, começou a articular a caminhada ao Senado em 2010, quando rompeu com o então senador Aloizio Mercadante, que queria garantias de que seria o candidato a prefeito em 2012 para abrir mão da reeleição. Uma conversa para acertar os pontos na casa dele culminou num bate-boca entre os dois, e Marta por pouco não saiu batendo a porta.

Conseguiu a indicação ao Senado, mais porque Lula queria Mercadante candidato ao governo do Estado do que por outro motivo. Em troca de apoio, a direção do PT deu a suplência para o PR, de Antonio Carlos Rodrigues. A ex-prefeita, que queria Antonio Palocci como suplente, enxergou na tratativa golpe para impedi-la de sair do Senado.

A direção do PT também decidiu que a campanha de senadora seria grudada na de governador. Foi feito um pacote único de comunicação, incluindo o mesmo marqueteiro, Augusto Fonseca.

Nas discussões sobre a estratégia eleitoral, sobraram para ela os textos com críticas ácidas aos tucanos. Marta se recusou a ser a mensageira das críticas. Em busca do segundo voto para o Senado do eleitor paulista, era a favor de uma postura independente, tese defendida por Toledo. Abandonou a joint venture e foi fazer sua campanha sozinha. Contratou Duda Mendonça.

Também esvaziou as funções dos petistas e delegou informalmente poder a Toledo em tarefas como a relação com o empresariado. Foi o que precisava para que as movimentações de Toledo despertassem desconfiança dentro do PT. Marta o levou em viagem da candidata Dilma Rousseff a Nova York, o que também foi visto como manobra de Toledo para se aproximar de Palocci, coordenador da campanha.

Enquanto Marta fazia a campanha independente, respaldada na ideia de que era eleitoralmente autossuficiente em São Paulo, o candidato ao Senado pelo PC do B, Netinho de Paula, colou em Lula e em Mercadante. Pesquisas mostravam que o crescimento dele a ameaçava.

Marinho, Edinho Silva, presidente estadual do PT, e o prefeito de Osasco, Emídio Souza, tentaram convencê-la de que a estratégia era errada. Marta tinha de colar sua imagem em Lula e no PT. A contragosto, gravou programa com o ex-presidente no qual ficava ao lado de Netinho.

Com o sinal vermelho piscando, Marta tentou uma reaproximação com o antigo núcleo de colaboradores, convidando-os para uma conversa antes da eleição. O grupo jantou no apartamento de Toledo, nos Jardins, e deu o mesmo recado: ela precisava aproximar a campanha no PT.

Marta foi a segunda mais votada para o Senado em São Paulo. Mas, na capital, teve 200 mil votos a menos que o candidato do PSDB, Aloysio Nunes Ferreira.

Nova relação. A campanha ao Senado cristalizou a nova forma de Marta se relacionar com o partido. As conversas passaram a ser "bilaterais" e assim continuaram no Congresso, quando se tornou vice-presidente do Senado e renegou a um segundo plano as articulações em São Paulo.

De uma relação poderosa com os vereadores paulistanos, hoje tem como certo o apoio de uma parlamentar, Juliana Cardoso. No Congresso, o líder do governo na Câmara, Candido Vaccarezza, a apoia, mas há quem aposte que acatará os pedidos de Lula pró Haddad. O deputado João Paulo Cunha se movimenta a favor da ex-prefeita, mas numa ação de disputa por espaço com o líder do PT na Câmara, Paulo Teixeira, próximo do ministro.

Mesmo com uma costura política frágil, Marta se agarrou à tese da força no eleitorado paulistano, que a coloca como líder nas pesquisas. Consolidou a ideia de ser candidata quando Lula e Dilma pediram a Mercadante que continuasse no Ministério de Ciência e Tecnologia. "Ele não vai ser candidato", disse a um petista o ex-presidente, que tem planos para o ministro em 2014.

A tese ganhou força com o cálculo eleitoral, refutado por Lula, de que o candidato tucano será o ex-governador José Serra.

Logo após se colocar na corrida, sofreu um revés. Um assessor próximo, Mario Moysés, presidente da Embratur, fora preso pela Polícia Federal na Operação Voucher.

A ex-prefeita anunciou que era pré-candidata antes de conversar com Lula e Dilma. Nas duas últimas semanas, esteve com os dois, de quem ouviu o mesmo receituário: que ficasse no Senado, onde é importante para o governo.

Lula comanda um cerco para asfixiá-la. Sem o apoio do maior líder petista, a pré-candidatura começa a definhar. Na semana passada, houve rumores de que sairia do páreo.

A cúpula do PT sabe, no entanto, que o poder eleitoral de Marta não pode ser desprezado e que, independentemente do candidato, o apoio dela em 2012 pode ser decisivo.

"Marta não pode ser subestimada. É a petista com melhor desempenho nas pesquisas e com a melhor relação com a base", afirma Vaccarezza.

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