O caminho de volta dos jovens do tráfico

Trabalho de ressocialização na zona norte do Rio dá novas ocupações a 30 ex-integrantes de facções criminosas

Emilio Sant?Anna, Rio, O Estadao de S.Paulo

21 de dezembro de 2008 | 00h00

Aos poucos as expectativas de dinheiro, poder e reconhecimento se perderam. Restaram a violência, traições e noites em claro com um fuzil na mão. Para 30 jovens de favelas cariocas, a trajetória no tráfico começou a chegar ao fim nesse ponto. Integrantes de duas facções, Amigos dos Amigos (ADA) e Terceiro Comando (TC), suas histórias se cruzaram quando buscaram ajuda para recomeçar.A ajuda veio de um trabalho de ressocialização. Em Vila Isabel, zona norte do Rio, ao lado do complexo do Morro dos Macacos, a ONG Espaço Cultural Dom Pixote se tornou a referência para esses jovens entre 15 e 25 anos. "Eles mostram que é possível fazer o caminho de volta do tráfico", diz a diretora da entidade, Zilah Meirelles.Com o tempo começaram a aparecer jovens também de outras comunidades, vindos da Favela da Querosene e do Zinco, no Complexo do Morro de São Carlos; Favela da Lagartixa, no Acari; e Favela da Coroa, em Santa Teresa. Todos ficaram por até cinco anos no tráfico em funções como olheiros (responsáveis por avisar os traficantes quando a polícia ou facções rivais invadem o morro) até gerente-geral (o segundo na hierarquia do crime nas favelas). Hoje estão, em média, há dois anos longe do "movimento", forma como chamam o tráfico de drogas, trabalhando em empregos como motoboys, cabeleireiros, camelôs e até intérpretes de escola de samba. Mais do que o trabalho social, o que os manteve fora da criminalidade foi a possibilidade de contarem com um espaço de acolhimento, diz Zilah. Assistente social no Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente (Nesa), da Universidade do Estado do Rio (Uerj), Zilah transformou a experiência num trabalho de doutorado realizado no Centro de Estudos em Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana, da Fiocruz."São jovens inseridos em um mercado de trabalho, ilegal, mas ainda assim um mercado. E pior, com elevadíssima mortalidade", afirma Carlos Minayo Goméz, da Fiocruz. "Sabemos pouco sobre eles. É mais comum encontrar jovens que fugiram do ?movimento? para não morrer", completa. Indiretamente esse também é um dos motivos que levaram os jovens a deixar o tráfico. "Ele (jovem) entra muito cedo para o crime, sem entender o que está vivendo", explica Zilah. CRIA DO MORROAs histórias da entrada no crime se repetem. Eram todos adolescentes e com poucas perspectivas. "Não fumava, não cheirava e não tinha nenhum outro vício. Comecei a me envolver por bobeira mesmo. Tinha a mente fraca" , diz G.R.S., que entrou no tráfico aos 16 anos.C.S., de 19, entrou um ano mais novo. "Comecei a parar com a escola, ficava parado na boca. Pô, sou nascido e criado lá, sou cria do morro, conhecia todo mundo. Eles me chamavam para ajudar e eu ficava por lá o dia todo na zuação", afirma. "Se eu pudesse voltar no tempo, com certeza eu voltaria. Mas não posso", afirma R.A., 20 anos. Há cinco anos, começou a "parar no tráfico". Durante os três anos que permaneceu no crime, foi baleado duas vezes pela polícia e preso por assalto a mão armada. Como ainda era menor, passou dois meses no Instituto Padre Severino, na Ilha do Governador. Os três cresceram em famílias desfeitas. A falta de referências, porém, explica em parte o fascínio exercido pelo tráfico, diz Zilah. A entrada no "movimento" vira mais do que uma forma de ganhar dinheiro - é a busca por uma identidade durante a adolescência, uma fase da vida conturbada em qualquer classe social.

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