'O centro político sumiu'

A democracia brasileira se enfraqueceu com a perda de lideranças [br]moderadas. No vazio o PT instalou o confronto, diz Bolívar Lamounier.

Gabriel Manzano, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2010 | 00h00

ENTREVISTA

O mundo vem caminhando, há décadas, para a interdependência econômica, em que as decisões são complexas e têm de ser compartilhadas. É um caminho sem volta e só a democracia oferece os instrumentos para isso. Vendo por essa ótica, o cientista político Bolívar Lamounier se sente confiante. "Sociedades modernas não podem ser governadas totalitariamente. Se pudessem, a União Soviética teria dado certo", diz ele. "E quando a América Latina passou a respirar os ares democráticos, antigas ditaduras, dos anos 50 e 60, tiveram de ceder". Não é simples nem fácil, adverte. "Porque cada vez mais se está desvalorizando a política".

Bolívar percebe, no Brasil, um importante processo de esvaziamento do centro político. "Perdemos em poucos anos um grande número de competentes líderes de expressão nacional" - gente como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Mário Covas. Ficou um grande vazio." E esse vazio foi agravado por um partido avesso ao diálogo, que rejeita conviver com pontos de vista diferentes. "A ascensão do PT levou à disseminação de uma visão esquemática do "nós contra a elite"". O que vem sendo coroado, segundo ele, com o descomedimento do presidente e com a estratégia eleitoral petista, "que entende a campanha eleitoral como uma guerra de extermínio".

Os tempos não andam bons para a democracia. Há quem diga que a péssima imagem dos políticos e a complexidade dos problemas de hoje abririam caminho para Estados fortes. Esse risco é real?

Acho que não dá pra afirmar, sem ressalvas, essa tendência - a de que esteja mais difícil preservar o Estado democrático. Os processos todos da tecnologia e do Estado moderno têm verso e reverso. O conflito na praça Tien Am Men, em Pequim, chegou ao mundo inteiro pelo fax, uma máquina nova. A internet tem um potencial democratizante enorme, permite a discussão de ideias como nunca antes. No que se refere ao Estado nacional, a evidência a favor da democracia é mais forte. Quando os Estados nacionais eram viáveis como autarquias e a economia de cada país era determinante, as soluções eram as guerras. Da Segunda Guerra Mundial para cá, foram se percebendo as vantagens da democracia, da interdependência econômica. Isso exerce um efeito moderador e essa dependência compartilhada só se dá com a democracia representativa. Se você tiver um regime totalitário ao lado de uma democracia, um dos dois vai ter de ceder. Na América Latina tivemos isso. Ditaduras antigas, como a do Paraguai, na hora em que o continente começou a respirar democracia, tiveram de se abrir. O próprio Mercosul impulsiona nessa direção. Não digo que seja fácil, mas a direção é essa.

A democracia avança aos poucos, os conflitos são difíceis e urgentes.

O que é lento na democracia é o debate, a formação de lideranças. Mas o Estado democrático moderno dispõe de recursos para enfrentar tudo isso. As legislações vão descobrindo recursos para ir adiante.

Mas é um avanço às vezes lento demais.

Sim, e essa questão leva a um ponto nevrálgico: cada vez mais, se está desvalorizando a política. Na medida em que a opinião publica, equivocadamente, começa a fantasiar que não precisa de política nem de políticos, cria-se uma insegurança que leva à deslegitimização da política. Os líderes assumem os cargos já questionados. E um líder político não pode deixar de ter coragem. Ele foi escolhido para decidir e governar.

Cada vez mais, a sociedade não se sente representada.

Um dos problemas agudos, no Brasil e no mundo, é que a opinião pública, por razões difíceis de esgotar aqui, desenvolveu certa rejeição pela política, uma antipolítica. Rejeição muito frequentemente justa e muito frequentemente equivocada...

Que faz aparecer um Tiririca...

...e que dá num Jean-Marie Le Pen, na França. Isso enfraquece o sentimento de liderança e, aí sim, temos um problema sério. Começam a fantasiar a democracia direta, em que é preciso consultar todo mundo, a toda hora, a respeito de tudo. Ora, então para que a consulta das urnas?

A China faz sucesso com um modelo de partido único, autoritário. Isso pode inspirar outras nações?

Tem muita gente iludida com essa perspectiva. Não tenho dúvidas de que o modelo chinês e outros autoritarismos estão ganhando terreno no momento. Tais experimentos podem causar um estrago danado, mas o destino de todos eles é o mesmo. Uma sociedade moderna não pode ser governada totalitariamente, se isso fosse possível a União Soviética tinha dado certo. Tiveram várias gerações para implantar o modelo, educar todo o povo, e quando aquilo acabou, sobrou quase nada. A própria China está admitindo o mercado. Quando chegar a um grau elevado de conflito social - e ela vai chegar - veremos como vão resolver. A mão de obra não vai ser tão barata, nem tão facilmente arregimentada. Ela não vai ser assim para sempre.

"Sociedades modernas'' não são eternas.

É verdade, e isso abre algumas hipóteses. Uma delas é que, se tomarmos modernização no sentido estreito, você pode ter retrocessos dramáticos, como o do Irã com o aiatolá Khomeini. Ali, uma sociedade em rápida evolução de repente deu tudo para trás. Mas o problema da modernidade está lá, a tensão existe, eles não vão voltar à Idade Média. Pode haver recaídas, como na Alemanha nazista. Podemos esbarrar num limite, como o do desafio ambiental. Mas o ponto nevrálgico, para mim, é o seguinte: retrocessos, recaídas autoritárias, acontecem quando as lideranças políticas se desentendem de uma maneira irracional, ou perdem a confiança em si mesmas. Voltemos ao Brasil, em 1964. Era um problema insolúvel? De jeito nenhum. O que se viu foi uma radicalização ideológica, algumas paranoias e muito blefe de todo lado. E quem para fazer o meio de campo? Quase ninguém.

Como hoje.

Como hoje, sim. Da redemocratização em 1985 para cá, fomos perdendo as lideranças de centro. Morreu o Ulysses Guimarães, o Tancredo, o Mário Covas, o Teotônio Villela. Perdemos em poucos anos um número grande de competentes líderes políticos de expressão nacional. Ficou um grande vazio. Falta gente que encare a política como atividade nobre, uma coisa a ser exercida com altivez. Sobra gente exercendo-a com vergonha. O próprio Lula se aproxima da política mais para desvalorizá-la.

O eleitor médio brasileiro sempre foi tido como uma figura de centro, despolitizada, e foi esse eleitor que decidiu muitas eleições. Com a ascensão das classes C e D, isso está mudando?

Comecemos dizendo que não há nenhum país com alto grau de politização. Isso é um mito. A apatia quanto ao assunto é normal, as pessoas têm que tocar suas vidas. Grandes participações só ocorrem em tempos de crise. Também é verdade que temos aqui um baixo grau de escolaridade, menor que na França ou Inglaterra. Mas o que é decisivo, do ponto de vista da democracia, é que o voto individual não seja controlado. Que, no conjunto, o eleitorado seja uma força, em alta medida, imprevisível. No Brasil, caminhamos decisivamente no sentido de melhorar isso. O País se tornou urbano, os currais eleitorais foram desaparecendo. Duas grandes complicações surgiram, e se devem ao surgimento do PT e do governo Lula. Uma, e isto é uma menção que faço sociologicamente, não é crítica partidária, foi que programas como o Bolsa-Família, criados com louváveis motivos sociais, mas também com fins eleitorais, produziram uma ligação estreita, clientelista demais, com a pessoa do presidente Lula.

E o segundo problema?

É que a ascensão do PT levou à disseminação de uma visão esquemática do que é política. É "nós contra a elite". Um maniqueísmo que divide tudo entre heróis e bandidos. E não é um maniqueísmo contemplativo, ele é rancoroso. Contamina a vida pública e o processo eleitoral. Veja o caso da "herança maldita". Nunca, na história da República, um presidente eleito atacou o seu antecessor dessa maneira. Foi um ataque planejado, toda uma máquina do partido posta em ação para disseminar essa palavra de ordem. Foi uma senha para dividir a sociedade entre "nós e eles". E conseguiram.

Por que a oposição não se mexeu para lutar contra isso?

A oposição, especialmente o PSDB, demorou muito para perceber a gravidade do fenômeno. Depois, sendo uma bancada pequena, até porque o governo cooptou grande parte dela, ficou difícil reagir. E o Lula fez isso de maneira muito pensada.

Recentemente, o embaixador Sérgio Amaral levantou uma dúvida. Se os oito anos do governo FHC, acabando com a inflação, impondo a Lei de Responsabilidade Fiscal, submetendo os militares a um Ministério da Defesa comandado por civis, elevaram o Brasil a novos parâmetros democráticos, e portanto os temores de hoje são passageiros, ou se esses oito anos vão ficar como uma ''fase áurea'' perdida do passado. Que lhe parece?

O período Lula tem um lado positivo, que é a expansão da arena política. O eleitorado já tinha crescido enormemente e mais gente está dando opinião. Por outro lado, há um retrocesso sério que eu chamaria de descomedimento. A começar pelo próprio presidente. Pelo modo de falar, de simbolizar, ele está desinstitucionalizando o Brasil. Personalizando o Estado, promovendo o confronto de modo abusivo. Ele quis de tal maneira se sobressair em relação ao Fernando Henrique - sabe-se lá por que razão, pois nem precisava - que criou um biombo, uma espessa parede de vidro que ocultasse o governo anterior no passado. Aí, sentindo-se forte, se pôs a afagar a cabeça de um monte de gente envolvida em corrupção. Essa foi a segunda grande etapa de seu governo. E a terceira, que vemos agora, consiste em encarar a eleição como uma guerra de extermínio. Ele violou poucas vezes a lei escrita, mas violou o tempo todo o espírito da lei, o espírito da federação. Esse é o retrocesso a que me refiro. O do seu descomedimento.

Muita gente lamenta que, no passado, PT e PSDB não tivessem se unido numa aliança moderna, para eliminar as velharias da política. Teria sido possível?

Acho que nunca teria sido possível. Porque esse esquematismo maniqueísta do PT já tinha aparecido. Na eleição de 1982, o slogan petista dizia que ''era tudo farinha do mesmo saco''. Só o PT era diferente, uma estratégia excludente. Aferraram-se a uma teoria econômica e social fantasiosa, pela qual toda privatização era um mal. Reforma do Estado era coisa do tal consenso de Washington. O Plano Real era um blefe eleitoral. Aí trocaram o slogan "contra tudo isso que aí está" pela Carta aos Brasileiros, os efeitos pirotécnicos do Duda Mendonça. Enfim, hoje são dois partidos profundamente diferentes, com visões diferentes de democracia.

O sr. escreveu recentemente um artigo em que diz temer pela mexicanização do Brasil, com um partido único a dominar toda a vida política. Sua expectativa é de que tenhamos no futuro um Estado controlando muito mais a vida dos cidadãos?

Não estou otimista. Na economia caminhamos para grandes organizações burocráticas com forte peso estatal subordinando a empresa privada. Isso em todos os setores: elétrico, energia nuclear, petróleo. Na política, assistimos à criação de um condomínio de poder que mistura governismo e clientelismo, em que a pirâmide do PT se incrusta no Estado com uma rapidez que ninguém imaginava. E o PMDB convertido no modelo mexicano do PRI mesmo, uma pura máquina de ocupação do Estado. A soma dos dois não me inspira grande otimismo. A estratégia de terra arrasada que o PT e o Lula conduziram vai deixar marcas. Vai demorar algum tempo, depois, para se reconstituir o entendimento da política como uma arena de diálogo, debates sobre as diferenças, onde o outro é apenas um adversário que pensa diferente, não um inimigo a liquidar.

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