O cineasta que calculava

A criatividade planejada do cineasta Roberto D?Ávila, ex-engenheiro agrônomo e produtor da série ?9mm?

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

03 de janeiro de 2009 | 00h00

Todo episódio da série 9mm: São Paulo começa com a imagem de uma camada espessa de nuvens negras sobre um paliteiro de arranha-céus no centro da cidade. Metáfora perfeita para retratar o cotidiano sufocante dos policiais que investigam homicídios na capital paulista, profissionais que vivem sob a expectativa constante de ver grandes tempestades desabarem quando eles menos esperam.Na sequência, surgem as cenas captadas por câmeras nervosas, em movimento permanente, com imagens escurecidas e curtas que mostram a rotina dos protagonistas, cinco policiais civis com senso de justiça e personalidade próprios. A estética de cada capítulo foi pensada para que o telespectador tivesse a sensação de observar a cena em tempo real, a poucos metros do local onde ocorre, quase suando na poltrona.Criatividade calculada para dar mais realidade a roteiros escritos e reescritos à exaustão, amparados em pesquisas de campo nas quais mais de 30 policiais foram ouvidos ao longo de nove meses. Para fazer a primeira grande produção de ficção da Fox International Channels no Brasil, mais do que um artista inspirado, foi preciso um executor pé-no-chão. Papel perfeito para o paulistano Roberto D?Ávila, de 44 anos, sócio da produtora Moonshot, produtor-executivo da série, engenheiro agrônomo formado pela Esalq-USP, que continuou a planejar e a fazer contas para criar no cinema e na televisão. "Para fazer um produto como esse, primeiro é preciso radiografar o assunto para depois descobrir o que é essencial. Essa ideia passa a funcionar como um esqueleto que permite trabalhar com um norte claro", explica o produtor, que traz enraizado desde a infância as lições do livro O Homem que Calculava, clássico do brasileiro Malba Tahan. Nos quatro primeiros capítulos exibidos no ano passado, as contas, ao que parece, foram bem feitas. 9mm liderou o Ibope do horário entre as TVs pagas e elevou a média anual da Fox para o terceiro lugar do ranking entre as mais vistas. No final do ano, ganhou o prêmio de melhor série da Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA). A partir de abril, começam a ser exibidos os nove episódios que faltam para completar a trama. Assim como Fernando Meireles, diretor de Cidade de Deus e formado em arquitetura pela FAU-USP, com quem trabalhou no começo dos anos 1980 na produtora Olhar Eletrônico, D?Ávila é uma espécie de outsider da geração de cineastas cabeças que despontou no Brasil nos anos 1970 e 1980, grupo ainda bastante influenciado pelo Cinema Novo brasileiro. A porção careta e pragmática do caráter de D?Ávila moldou um profissional cético diante de filmes feitos como mera expressão do ego do diretor. "Se o público não interage, não faz sentido captar milhões de reais. Se o cineasta quer fazer artes plásticas, que compre tintas e pincéis." Conceito e criatividade, para D?Ávila, portanto, não têm nada a ver com divagações ou com mensagens abstratas. Servem para aumentar a conexão entre o público e o produto. Se essa ligação não funciona, a fita fracassou. Para alcançar a interatividade em 9mm, o principal desafio da equipe foi criar personagens com histórias pessoais que pudessem entrar em conflito durante os 13 episódios.Horácio, por exemplo, interpretado por Norival Rizzo, é o policial da velha escola. Calado, experiente, com a vida pessoal em frangalhos, é uma versão terceira idade do Capitão Nascimento, capaz de matar quando percebe que o criminoso pode sair impune. Ele é comandado pelo delegado Eduardo, interpretado por Luciano Quirino, que tem uma visão legalista e às vezes ingênua da profissão.A partir desse arco de conflitos entre os personagens principais, as histórias se sucedem a partir de temas normalmente inspirados em crimes reais, todos filmados em São Paulo. Uma facção criminosa, por exemplo, paira o tempo todo na trama. O nome PCC, contudo, foi citado em um capítulo por mero descuido, quando um dos atores improvisou o texto.Em outro episódio, um político influente domina o transporte de lotações da zona sul e aparece envolvido em assassinatos, argumento inspirado em fatos publicados na imprensa. Ironicamente, mesmo com tantos cuidados para garantir a semelhança entre realidade e ficção, o calibre que dá nome à série não é o usado pelos policiais, que se armam principalmente com pistolas .40. Alguns diálogos exageradamente gritados, repletos de palavrões, com atores brigando com rostos colados, tipo de cena que vemos em excesso no cinema nacional, mas raramente presenciamos no dia-a-dia, infelizmente também estão série.Toda essa engenharia não valeria nada, obviamente, se os custos não fossem realistas e o orçamento, enxuto. Mais uma tarefa para um bom gestor. Os gastos com 9mm, apesar de mantidos em segredo, ficam abaixo dos padrões nacionais. "Estou mais feliz fazendo televisão. No cinema, passamos mais tempo discutindo a captação de recursos do que a obra propriamente dita. Neste trabalho, tivemos o privilégio de travar longos debates sempre em torno do conteúdo."Graças a esse pragmatismo associado à criatividade, que marca a nova safra de produtores do cinema brasileiro, as portas para o mercado internacional estão se abrindo. Rosario Tijeras, filme colombiano coproduzido pela Moonshot, foi visto em 2005 na Colômbia por mais de 1 milhão de pessoas, ficando à frente de Titanic. Última Parada 174, concorrente brasileiro a uma indicação ao Oscar, dirigido por Bruno Barreto, também tem a coprodução da trupe de D?Ávila. Em 2007, a produtora também venceu a concorrência para fazer 25 episódios da primeira e da segunda temporadas da série Brazil?s Next Top Model, exibidos pela Sony.

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