O Ciro de sempre e o voto regional

O ex-futuro candidato lamentou o desfecho, mas foi poupado pelo PSB de ser dizimado nas urnas pela popularidade de Lula, em especial no Nordeste

ALBERTO CARLOS ALMEIDA, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2010 | 00h00

Falar sobre Ciro e pensar na trajetória política recente de Ciro nos motiva, em primeiro lugar, a exercitar o ditado popular que decreta que recordar é viver. Recordemos algumas frases ditas por Ciro na campanha eleitoral de 2002: "(Armínio Fraga foi treinado) no sistema financeiro e graduou-se no epicentro da especulação mundial"; "Eu estou me lixando para o mercado"; "Campanha do câncer do útero, uma grande e criminosa farsa"; "Suas armas (de Serra)[DE SERRA] são o assédio, a pressão, o aliciamento e uma usina de fofocas na imprensa"; "Não vou procurar um eleitor marcado a ferro no rosto como uma pessoa do PFL"; "Não dá para o PT malversar o sentimento de oposição do Brasil"; "Serra é um clone monstruoso de Fernando Henrique"; "Enfrentar (...) o fato de o País estar de joelhos diante da agiotagem internacional"; "O único compromisso que eu tenho é o de mandar o João Hermann (líder do PPS na Câmara) para o Vaticano como embaixador. Naturalmente para me livrar de presença dele". Há muito mais. O fato é que não teremos na eleição de 2010 uma nova chance de ver Ciro falar coisas deste tipo.

Ciro não é mais candidato por obra e graça de seu partido. Logo após a decisão partidária, o ex-futuro candidato manifestou em várias declarações a sua insatisfação em relação a esse desfecho. Mesmo para Ciro, há males que vem para bem. No seu caso, a retirada forçada da candidatura o poupou de ser dizimado nas urnas pela popularidade de Lula.

A explicação para esse provável fenômeno é simples. A grande base eleitoral de Ciro, ex-governador do Ceará, é o Nordeste em primeiro lugar, seguido das regiões Norte e Centro-Oeste. Ainda que muitos analistas digam que Ciro tirava votos de Serra, essa análise não resiste à série dos dados de pesquisa. De outubro de 2009 a março de 2010, a subida de Dilma nas pesquisas é proporcional à queda de Ciro. Se Ciro perdeu votos, e ele perdeu muitos, isso aconteceu em benefício da candidatura de Dilma. Repito, os dados das pesquisas no tempo mais do que sustentam esta afirmação.

Adicionalmente, Ciro já foi no Nordeste, o epicentro de sua força eleitoral, duas vezes maior do que é hoje. Foi no Nordeste que Dilma mais cresceu, foi também no Nordeste que Ciro mais caiu. Imagine-se que a candidatura de Ciro tivesse permanecido e que, nos próximos meses, ela caísse novamente pela metade. Essa trajetória bastante provável foi evitada pela decisão do PSB.

Ganhou Ciro no futuro, ganhou no presente o PSB de Eduardo Campos que negociou de forma hábil, em Brasília, a retirada da pré-candidatura. Por exemplo, logo depois disso, o PMDB deixou de ter candidato próprio ao governo do Espírito Santo e passou a apoiar a candidatura do PSB local. É difícil não associar um fato a outro.

O fenômeno do voto em Ciro chama a atenção para o voto regional. Garotinho venceu no Rio quando foi candidato a presidente. Heloísa Helena ficou em segundo lugar em Alagoas. Brizola venceu no Rio e no Rio Grande do Sul. O próprio Ciro foi o vencedor no Ceará. Serra e Geraldo em São Paulo. Os eleitorados estaduais votam naqueles cujas carreiras políticas estão muito vinculadas a seu Estado. O argumento é simples: voto nele porque quando chegar a Brasília ele vai mandar muitos recursos para o nosso Estado.

O que ocorrerá com Minas em 2010? O seu ex-governador não é candidato a presidente. Vencerá em Minas quem melhor encarnar o Aécio governador. Aquele candidato que persuadir o eleitor - coisa que Aécio por razões óbvias faria sem esforço - que quando chegar a Brasília o Estado de Minas Gerais terá muitos recursos tenderá a ser o vencedor naquela unidade da federação. É o voto regional de sempre.

É SOCIÓLOGO E AUTOR DO LIVRO "A CABEÇA DO BRASILEIRO"

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