O colecionador de 10 mil pedaços de história

Mais do que encher álbuns com postais, João Emilio Gerodetti tornou-se o primeiro paulistano a usá-los para resgatar e contar a trajetória da cidade

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

18 de janeiro de 2009 | 00h00

Ele não queria ser egoísta. Por 14 anos, o engenheiro químico João Emilio Gerodetti guardou em sua biblioteca, num apartamento confortável de Higienópolis, um tesouro particular - somente pela beleza que via neles, juntou cerca de 10 mil cartões-postais, que garimpava em sebos e feiras de antiguidades. Coleção valiosa, que contava com a primeira série de postais de São Paulo, impressa em 1897. Algo bonito, mas faltava alguma coisa. Incomodava vê-los assim, presos nos 50 álbuns de couro, apenas abarrotando as estantes de casa. Queria mostrá-los a todos, unindo os cacos que poderiam contar a história de uma época.Em termos numéricos, a coleção de Gerodetti é considerada modesta. Nos registros da extinta União dos Cartofilistas do Brasil, havia colecionadores com até 130 mil postais. O mérito do engenheiro foi, exatamente, tirar os postais da estante: ele foi o primeiro homem de São Paulo a contar a história de sua cidade pelos raros cartões. "Consegui pela maneira mais singela, publicando livros. Via minha coleção, antes de tudo, como um ato de egoísmo. Me incomodava, queria mudar isso", diz o colecionador. "Poder contar a história de uma cidade pelos postais revela a maravilha que eu guardava em casa."O engenheiro nutriu sua coleção em duas fases da vida: infância e adolescência, entre 8 e 18 anos, e na vida adulta, a partir dos 44. "Era um pentelho, grudava no paletó de qualquer adulto e só largava com a promessa de um postal. E, depois, era só ver de novo para começar a cobrar", lembra. "Sempre tive interesse pela iconografia, mas a vontade de divulgá-la veio quando percebi seu valor histórico."O primeiro livro foi lançado em 1997, em parceria com o jornalista chileno Carlos Cornejo, com quem assina os livros até hoje. Do primeiro, Lembranças de São Paulo, que conta a história da cidade em 424 cartões, todos os 20 mil exemplares foram vendidos, esgotando quatro edições. "Pensar que meus postais podem estar expostos na mesa de centro de qualquer um é muito satisfatório." Em sete livros, os autores mostraram, sempre por meio de postais, a história do litoral e do interior do Estado, as capitais do País, as ferrovias e portos nacionais e, mais recentemente, todo o continente americano. Ao todo, foram vendidos cerca de 50 mil exemplares e 500 bibliotecas públicas adquiriram os livros. "Não há sensação melhor do que poder dividir essa viagem com os outros." Inegável valor iconográfico, por obra de seu criador, exposto aos olhos de todos.NEM BOM DIAO primeiro postal - um majestoso transatlântico que navegava pelo Canal do Panamá - ele recebeu aos 8 anos do tripulante de um navio italiano que viajara com seus pais. Dias depois, foi destruído pela mãe. "Faltou comunicação. Esqueci de dizer: ?Mãe, estou começando uma coleção!? E deu no que deu." Talvez para exorcizar o trauma, dos 8 aos 18 anos, o jovem Gerodetti colecionou somente navios. Era tão fanático que, ao conhecer os avós paternos, que chegavam da Itália, nem sequer deu bom dia. "Perguntei direto: ?Vocês trouxeram postal do navio??" Não, a eles também não ocorreu que o neto seria tão esforçado colecionador.Nesses primeiros dez anos, Gerodetti guardou, aqui e ali, cerca de 200 postais. "Depois, a faculdade começou, aí já viu..." Formado na Politécnica da USP, fez carreira administrando empresas, principalmente do ramo têxtil, e cuidando dos imóveis da família. Aos 44 anos, pai de três filhos adolescentes, ele remexia coisas antigas quando sua infância lhe cruzou os olhos. Achou, no fundo de um baú, uma caixa de biscoitos que servia de morada aos cartões. "Foi uma emoção enorme." Logo em seguida, voltou à carga: passou a garimpar feiras de antiguidades, especialmente as da Praça Benedito Calixto e do Masp, como faz ainda hoje - hábito turbinado por leilões na internet, dos quais participa mensalmente.No retorno à coleção, viu florescer sua paixão pela cidade. "Me deparei com a beleza da São Paulo antiga. As pessoas veem os postais e pensam que é Paris, mas são as antigas Rua Direita, Libero Badaró, Praça Antônio Prado... Isso simplesmente não poderia se perder."Dentro dos álbuns, a evolução da cidade. Há exemplares da primeira série de cartões da cidade, do Estabelecimento Graphico Victor Vergueiro Steidel, de 1897, que retratam paisagens paulistanas em cromolitogravura (pintura em cima das fotos, geralmente com cores exageradas). Nos outros milhares de postais, uma cidade que se modifica: das chácaras da Avenida Paulista do início do século 20 aos espigões que já a cobriam nos anos 1950.Impressionava também o colecionador o valor documental de seus cartões. Com a baixa qualidade de impressão dos jornais do início do século 20, os postais retratavam de tudo, e não apenas imagens belas. Ele cita o cartão intitulado Os Urubus, de 1900, que mostra aves devorando pedaços de carniça próximo ao Mercado Municipal. "Hoje, dizemos que a Catedral da Sé é um cartão-postal de São Paulo. Essa é a conotação atual. Antigamente, quem recebesse um postal caía direto na realidade retratada."Da escondida coleção de Gerodetti, cerca de 5 mil postais já foram publicados. A dupla Gerodetti-Cornejo (o jornalista faz pesquisa histórica e escreve os textos, o engenheiro fornece a matéria-prima) também promete um próximo livro até 2011, que mostrará influências da cultura afro no Brasil. Depois, nova celebração da terra natal: um livro com postais da Revolução de 1924, de casas e edifícios cravejados de balas, ruas fechadas por barricadas, "todos impressionantes e raros".Das formas de homenagem à terra, Gerodetti encontrou sua própria: dividir com todos os pedaços da cidade encerrados dentro de sua casa. De ato de egoísmo, como escreveu o engenheiro no prefácio de um livro, sua coleção virou ato de amor.

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