Vatican News
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O coral do papa pela 1.ª vez em mãos brasileiras

À frente da instituição mais antiga do gênero no mundo, Marcos Pavan conduz ensaios diários no Vaticano

Edison Veiga, especial para o Estadão

03 de dezembro de 2021 | 05h00

Há registros de cantores acompanhando celebrações do papa desde Silvestre I (285-335), mas oficialmente a Pontifícia Capela Musical Sistina foi criada em 1471 pelo papa Sisto IV (1414-1484). Desde 2020, pela primeira vez, o coral mais antigo do mundo é comandado por um não italiano: o padre brasileiro Marcos Pavan, de 59 anos.

A escolha dele, nomeado pelo papa Francisco, não foi por acaso. Pavan é visto como um grande especialista em canto gregoriano, com sólida formação e rica experiência. Além disso, integra a companhia de cantores do Vaticano desde 1998 – antes de se tornar o maestro principal, era ele quem regia as chamadas “vozes brancas”, ou seja, o coro das crianças.

A música faz parte da vida dele desde a infância. “Tive a sorte de já na escola, no primário, ter sido musicalizado, comecei a cantar no coro da escola, a tocar piano… A música sempre foi minha paixão, desde os 7 anos”, recorda ele, em conversa com o Estadão. Paulistano da região da Consolação, ele cursou o Colégio Mackenzie. No antigo colegial, transferiu-se para o São Bento. “Foi quando conheci o canto gregoriano, com os monges beneditinos, e me apaixonei pela música sacra”, conta.

Seu talento foi percebido pela madre Maria do Redentor – nome da inglesa Eleanor Florence Dewey (1912-2008) –, renomada professora e maestrina de canto gregoriano. Ela logo o levou para o coro de música sacra mantido pela Secretaria de Estado da Cultura. Em 1985, passou uma temporada na França, como aluno do monge Eugène Cardine (1905-1988), o fundador da nova semiologia gregoriana. “Estudei seriamente técnica vocal”, diz Pavan. Em São Paulo, foi aluno da célebre Leila Farah (1935-2014). Em Nova York, estudou com Franco Iglesias, então preparador vocal de Metropolitan Opera House. Quando prestou concurso para o Coro Lírico do Teatro Municipal de São Paulo, foi aceito.

Em paralelo, Pavan se sentia chamado ao sacerdócio. “Quando terminei o colegial, meu pai pediu que fizesse uma faculdade antes de entrar no seminário”, relata. Optou pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, instituição da Universidade de São Paulo. Chegou a atuar como advogado em um escritório e também no Teatro Municipal, como cantor corista e solista.

Vida religiosa

Depois, decidiu entrar para o seminário em 1991. Acabou acolhido pelo então bispo de Campo Limpo, o ítalo-brasileiro Emilio Pignoli, hoje bispo emérito. Considerado entusiasta das vocações, o religioso não só aceitou Pavan como destinou a ele uma bolsa de estudos em Roma. A ordenação sacerdotal ocorreria em 1996, na Igreja de São Pedro e São Paulo, no Morumbi. Mas Pignoli não o enviou para uma paróquia. Mandou-o de volta a Roma, para um mestrado.

Em 1998, quando já estava de novo de malas prontas para retornar ao Brasil, acabou convocado para mais uma missão. “Fui cooptado pelo então maestro Giuseppe Liberto para ser o maestro das crianças”, lembra. Conseguiu uma liberação de seu bispo, Pignoli, para ficar nesse trabalho até o jubileu do ano 2000. “Terminado o período, não conseguiram encontrar substituto e pediram que eu continuasse”, diz.

Como responsável pelas crianças, Pavan tinha um status de vice-maestro. Quando o maestro Massimo Palombella foi destituído do cargo em julho de 2019, por estar sendo investigado em um esquema de fraude financeira, o brasileiro passou a comandar interinamente os trabalhos. A nomeação oficial ocorreu no fim do ano passado. 

A rotina é rigorosa. Pavan conduz ensaios diários com a equipe e é responsável pela música litúrgica de todas as celebrações do papa. “Tem de ser um trabalho em harmonia”, explica ele, dizendo que as definições são feitas em conjunto com o cerimoniário litúrgico, sempre com o aval de Francisco. O brasileiro ressalta que se sente “privilegiado” por ter contato com o sumo pontífice. “O canto litúrgico é parte integrante da liturgia católica. Sem canto, a liturgia não é completa. Provavelmente na última ceia Jesus cantou a oração de ação de graças.”

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