O crescimento de Dilma

A polêmica acerca dos dados dos institutos, que é intensa quando várias pesquisas são publicadas na mesma semana, se desfaz quando os dados são vistos no tempo

Alberto Almeida, alberto.almeida@institutoanalise.com, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2010 | 00h00

Artigo

Quando os dados dos diferentes institutos de pesquisa são colocados em série, eles mandam uma mensagem clara sobre o que tem acontecido na eufemisticamente denominada pré-campanha eleitoral para presidente: Dilma tem crescido. Antes de Ciro Gomes ter saído da disputa, isto é, com as simulações de voto que incluíam o seu nome, Dilma saltou de 15 pontos porcentuais no Ibope de setembro para o patamar de 30, em abril de 2010. Ela duplicou a intenção de voto em primeiro turno.

A polêmica acerca dos dados dos institutos que é intensa quando várias pesquisas são publicadas na mesma semana, se desfaz quando os dados são vistos no tempo. O mesmo acontece com a série de dados dos diferentes institutos quando Ciro Gomes não é uma das opções de voto. Neste caso, Dilma sai do patamar de 27% e alcança algo em torno de 37, um acréscimo de um terço em sua intenção de voto.

Como toda eleição é resultado da interação entre as estratégias dos candidatos, o crescimento de Dilma pode ser encaixado em três das quatro alternativas a seguir: a) acertos de Dilma e erros de Serra; b) acertos de Dilma, mais e melhores do que os acertos de Serra; c) erros de Dilma, menos freqüentes e menos graves do que os erros de Serra; e d) erros de Dilma e acertos de Serra. Esta última alternativa é a mais improvável de todas: o crescimento do candidato que erra em prejuízo do candidato que acerta.

A mais provável e razoável das quatro opções, imaginando-se racionalidade e preparação técnica da parte dos dois principais contendores, é que ambos estejam acertando, porém, Dilma mais do que Serra. Serra acertou ao deixar para anunciar sua candidatura somente em abril, com isso ele manteve unido seu próprio partido e todas as forças aliadas a ele. Serra vem acertando ao não atacar nem Lula nem seu governo, a aprovação de ambos é muito elevada e qualquer crítica pode se tornar um grande tiro pela culatra. Serra vem acertando ao montar alianças poderosas nos Estados, assegurando bons palanques para as campanhas regionais.

Serra vem acertando ao afirmar que vai manter e aprofundar o Bolsa-Família, mas poderia acertar mais se prometesse duplicar ou triplicar o programa, desta forma, não ficaria na defensiva toda vez que fosse perguntado se irá ou não manter o benefício caso seja eleito. Serra vem acertando ao fazer visitas sucessivas ao Nordeste, porém poderia acertar mais se assumisse o compromisso de realizar coisas novas para os pobres nordestinos de forma a aumentar o seu poder de compra, coisas novas tais como reduzir de maneira definitiva os impostos que incidem sobre o que é vendido nos supermercados.

Serra vem acertando ao falar dos trabalhadores e dos desamparados, acertaria mais se deixasse de lado a palavra trabalhadores, que faz parte do nome do PT, e buscasse um vocábulo mais popular e que tivesse um significado mais forte para os pobres. Serra vem acertando (talvez) ao tratar do tema do Banco Central, acertaria mais se dissesse que tudo que diz respeito ao Banco Central, qualquer medida que seja, terá como prioridade reduzir sempre a inflação, este sim um tema verdadeiramente popular.

Serra vem acertando ao afirmar que combateria a sonegação como forma de reduzir a pressão pelo aumento de impostos, mas acertaria mais se afirmasse que irá combater a corrupção e o desperdício, ambos os verdadeiros vilões e obstáculos, aos olhos do eleitorado, da redução de impostos.

Para fazer frente ao crescimento de Dilma é preciso falar coisas mais populares, coisas que melhorem a vida da população pobre, que é a grande maioria do eleitorado. Mais importante, é preciso falar cada vez mais coisas que as pessoas querem ouvir. É só seguir o exemplo de Barack Obama.

É SOCIÓLOGO E AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE "A CABEÇA DO BRASILEIRO"

PARA LEMBRAR

Candidato teve bate-boca com Marta Suplicy

Neste mês, Fernando Gabeira (PV) e Marta Suplicy (PT) protagonizaram um bate-boca sobre a participação do deputado num dos mais conhecidos episódios da luta armada, o sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em 1969. "Ninguém fala (de Gabeira) esse sim sequestrou", disse Marta num discurso para a militância petista em São Paulo, em 16 de maio. O objetivo era defender a candidatura de Dilma Rousseff à Presidência de ataques por sua participação na luta contra a ditadura. A resposta de Gabeira, que de fato participou do sequestro, veio pelo seu Twitter: "Como aconteceu no passado, depois de algum tempo ela percebe que errou a mão e pede desculpas."

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