O depósito de entulhos que virou área de lazer

Após oito anos de batalhas judiciais, comunidade criou Parque do Cordeiro, na zona sul, com direito a córrego despoluído e bosque

Renata Gama, O Estadao de S.Paulo

30 Novembro 2007 | 00h00

Na liderança da Sociedade Amigos dos Jardins Petrópolis e dos Estados (Sajape), na zona sul de São Paulo, estão mulheres bonitas, jovens, determinadas e muito ocupadas. Mas mesmo na correria cotidiana, a gerente-comercial Eliane Moll, a arquiteta e tradutora Cristina Antunes e a educadora ambiental Ana Beatriz Gosuen encontram tempo para as causas comunitárias. Juntas, elas encabeçaram um movimento que culminou na criação do Parque do Cordeiro, em setembro deste ano. A luta marcou 8 anos da história de suas vidas e representou um ganho para a qualidade de vida do bairro. "Quem bota a mão na massa é uma minoria que tem muita consciência. É gente que trabalha e acha tempo porque sabe que alguém tem de fazer", diz Cristina, a diretora de relações institucionais da entidade. A área de 34 mil metros quadrados, por direito, era pública. Foi criada quando surgiu o loteamento Jardim Cordeiro. Mas parte dela - 11 mil m² - foi cedida pelo então prefeito Paulo Maluf, ao Conselho Superior para Assuntos Islâmicos no Brasil (Consaib), em 1995. A concessão valeria por 50 anos. Os moradores recorreram à Justiça e iniciaram uma campanha pela criação de um parque. Em 2001, conseguiram uma liminar recuperando o terreno. Mas até que chegasse à forma de hoje - tudo limpo, com quadra poliesportiva, playground, pista de skate, cancha de bocha, arena, córrego despoluído, trilha para caminhada -, os moradores viram o espaço passar por vários processos de degradação. "Foi invadido por sem-teto, virou canteiro de obras de avenida, depósito de entulho da Administração Regional. Depois, foi fechado por alguém que se dizia proprietário e enfrentamos outro processo na Justiça", lembra Cristina. Somente quando o terreno foi decretado oficialmente público, em 2003, os moradores puderam levar à frente o projeto. Mesmo assim, alguns vizinhos rejeitavam a idéia de ter um parque. "Medo de pobre, sabe como é?", diz Cristina. "Falta uma cultura de espaço público. Se a população se apropria do lugar, não há o que temer. A gente tentou mostrar que era um grande risco para nós a área não ser um parque." Hoje, a vizinhança aprova e freqüenta o local que ficou bem bonito e valoriza as casas do entorno. A obra ainda não está completa. "Faltam algumas correções. O parque ainda é árido, tem problema de drenagem e acessibilidade para deficientes", afirma Ana Beatriz. Também falta tornar um bosque de 23 mil m² pronto para visitas. Ela era diretora de meio ambiente da associação e hoje assume a administração do espaço. A responsabilidade aumentou: "É diferente. Antes eu tinha a liberdade de dizer o que está bom e o que não está. Hoje eu é que escuto", brinca. As líderes comunitárias sabem que ainda têm muito trabalho pela frente. "É muita energia para mover cada grão de areia", diz Eliane, presidente da associação. Mas a experiência comunitária mostra uma visão da metrópole sob outro ponto de vista. "Você vê como é complicada a cidade, compreende como ela funciona e percebe que a única forma de melhorá-la é participando." FRASES Cristina Antunes arquiteta e tradutora "Quem bota a mão na massa é uma minoria que tem muita consciência. É gente que trabalha e acha tempo porque sabe que alguém tem de fazer" Eliane Moll gerente-comercial "Só assim você vê como é complicada a cidade, compreende como ela funciona. E percebe que a única forma de melhorá-la é participando" Ana Beatriz Gosuen educadora ambiental "Antes (de assumir administração do parque), eu tinha a liberdade de dizer o que está bom e o que não está. Hoje, eu é que escuto"

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