O desabafo dos comandantes que resgataram as vítimas da Gol

Acidente entre o Boeing da Gol e o jato Legacy, em 29 de setembro de 2006, deixou 154 vítimas

Tânia Monteiro, do Estadão,

19 de agosto de 2007 | 11h29

Um inferno na selva, uma operação de resgate que mais parecia uma guerra contra o tempo, pouco reconhecimento do público e da mídia, e a surpreendente e incontrolável divulgação das informações sigilosas sobre os dados técnicos de desastres aéreos, o que, para o Comando da Aeronáutica, é um erro de graves conseqüências.    'Só uma família agradeceu', diz militar que resgatou vítimas  'A verdade aparecerá', diz chefe do Cenipa sobre acidente da Gol  O que sobrou do Boeing da Gol foi explodido  Imbróglio na Justiça deixa jato Legacy ao relento  Pedaço da asa, com quase 7 metros, continua perdido  Especial sobre a crise aérea    Esta é a síntese feita ao Estado pela cúpula da Aeronáutica, em uma entrevista que juntou o brigadeiro-chefe do Cenipa, Jorge Kersul Filho, e o major Josué dos Santos Lubas, subcomandante do esquadrão de salvamento que resgatou os 154 corpos do acidente da Gol, que completa um ano no próximo dia 29 de setembro.   Diante de uma seqüência de imagens inéditas da operação de resgate, tudo emoldurado pelo clima emocional de uma tragédia aérea inédita, a Aeronáutica reclama por reconhecimento público.   O comando da Força se confessa particularmente revoltado com os questionamentos sobre o sumiço de objetos e documentos, o que, para alguns familiares, configura uma "pilhagem". O celular de uma das vítimas apareceu no Rio, dez dias depois do acidente, como mostrou o Estado, no último dia 5. "A Aeronáutica não é responsável por isso. A Aeronáutica é muito mais que isso", desabafou o brigadeiro Kersul.   » Sabonete de cachorro: era usado pelos militares. A área era infestada de carrapatos, que grudavam facilmente no corpo;   » Máscaras: por causa do cheiro forte, provocado, principalmente, pelos corpos em estado de decomposição, além da carga com produtos perecíveis, os militares usavam máscaras, mesmo fora da selva;   » Piolhos: os militares rasparam as cabeças para evitar contaminação e maior proliferação;   » Abelhas: atacavam ferozmente os soldados e os obrigavam a usar luvas o tempo todo. Com fita crepe, eles fechavam as roupas nos pulsos e nas canelas para evitar a penetração das abelhas. Um tenente quase morreu após fechamento da sua glote por alergia à picada;   » Formigas: na região existe um tipo de formiga com atração especial por tecidos com fibras sintéticas. Numa noite, elas cortaram as cordas de uma rede de selva – o militar que dormia na rede caiu. As formigas devoraram pedaços inteiros de redes e roupas;   » Esforço desumano: muitas vezes foram necessários 6 homens para carregar um corpo. Na mata, os militares levavam até 15 minutos para andar 30 metros;   » Bóias para os cães: as buscas foram feitas também nos igarapés, que tinham jacarés e cobras. Cães amarrados a bóias chegaram a ser usados para procurar vítimas nos riachos;   » Helicóptero: quando desciam na clareira da selva, aberta por 37 militares, os pilotos não desligavam o aparelho para não perder tempo e, principalmente, para evitar que poeira e areia entrassem no motor e impedissem o vôo de retorno;   » Caixa de voz: foi uma das últimas peças achadas na selva de Mato Grosso. Estava enterrada a uma profundidade de 20 centímetros, mas a dois metros apenas da trilha usada todos os dias pelos militares. Foi encontrada com a ajuda de um detector de minas;   » Identificação: os dois primeiros corpos foram identificados na noite de domingo, em uma mesa improvisada, com iluminação de faróis de carro e lanternas, ao lado do caminhão-frigorífico;   » A vértebra: a última vítima só foi identificada 40 dias após o acidente. Foi Marcelo Paixão, identificado por um pedaço de osso do crânio, que estava em Brasília, e uma vértebra que apareceu grudada à poltrona em que ele viajava;   » DNA: em 20% das vítimas, só foram achadas partes de seus corpos – muitas foram recolhidas debaixo da asa do avião. Treze vítimas tiveram de ser identificadas por DNA;   » Celular intacto: uma calça foi achada em cima de uma árvore com um celular intacto desligado, no bolso. Ao ser ligado, ele funcionou perfeitamente;   » Clareira: as clareiras de 50 metros de raio foram abertas praticamente no braço. Com os militares afastando as árvores cortadas. Levaram 24 horas num trabalho que, normalmente, é feito em 3 dias.    

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