Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

O desafio de quem quer definir seu próprio destino

Cinco jovens relatam como quebraram o ciclo de limitações e violência imposto às suas mães e avós

Isabela Palhares e Juliana Diógenes, O Estado de S.Paulo

08 Março 2018 | 03h00

Elas vêm de classes sociais diferentes, têm sonhos profissionais e pessoais diversos e, em comum, lutam para quebrar um ciclo de limitações e violências às quais suas mães, tias e avós foram submetidas. Para marcar o Dia Internacional da Mulher, o Estado ouviu cinco jovens entre 14 e 21 anos que contam como romperam essas barreiras e qual caminho ainda querem percorrer. 

Violência, relacionamento abusivo, maternidade compulsória e limitadas opções de estudo e emprego foram as situações enfrentadas pelas gerações anteriores - e elas decidiram superá-las. 

Maira Bandeira, de 21 anos, foi matriculada em aulas de taekwondo aos 4 anos, após sofrer uma tentativa de abuso dentro de casa. Anos depois, a mãe dela contou que, aos 16 anos, havia sido vítima de violência doméstica por parte do então namorado, quando estava grávida do primeiro filho. "Isso me trouxe ainda mais força e vontade de continuar lutando, de ter mais força e saber me proteger. Ela queria que eu soubesse me proteger quando ela não estivesse por perto."

Maira aprendeu artes marciais, participou e ganhou campeonatos. A luta, conta, lhe deu segurança para se defender fisicamente e ganhar confiança para não aceitar um relacionamento abusivo. "A última coisa que quero é estar em um relacionamento em que o homem tenha a coragem de levantar a mão pra mim", diz. 

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Há dois anos, Maira percebeu que não bastava que ela soubesse se proteger e decidiu ensinar defesa pessoal para outras mulheres. Do projeto inicial de dar aulas a um grupo de amigas, hoje a iniciativa já chega a mais de 100 alunas por ano, a maioria com idade entre 20 e 30 anos. "Uma amiga tinha crise de pânico por ter de descer do ônibus sozinha às 23 horas, hoje, ela se sente mais segura."

No entanto, mesmo as academias de luta, onde Maira encontrou espaço para se fortalecer, também a impuseram muitas barreiras. "Eu tinha que treinar três vezes mais do que os homens para que me levassem a sério", diz. 

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Filha de uma faxineira, Carolina Moraes, de 21 anos, chegou a fazer limpeza com a mãe e ajudá-la a vender roupas e sapatos para se sustentarem. Mas decidiu que teria um futuro diferente. Hoje, trabalha como DJ e estuda Design. E continua brigando pelo reconhecimento e pela igualdade de oportunidades.

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"Sou uma mulher negra, pobre, do Capão Redondo, eu quebrei o futuro que esperavam para mim. Estou adentrando, aos poucos, em um mundo que não foi criado pra mim, que a minha família nunca me imaginou ali: o mundo das artes, da música", diz. 

Aos 18 anos, a estudante Gabrielle Araújo afirma que, diferentemente da mãe e de suas avós, só terá filhos se um dia se sentir preparada e desejar engravidar. A avó paterna teve nove filhos e dizia às noras que "uma mulher que presta deve ter filhos". 

A estudante conta que a mãe também enxergava o casamento e a gravidez como uma forma de garantir liberdade de um lar repressor no qual cresceu. "Depois de muito sofrimento, a minha mãe foi desconstruindo essa ideia e sempre diz para mim e à minha irmã para só engravidarmos quando quisermos e que não há nenhum problema se nunca tivermos vontade", diz.

Gabrielle diz que, apesar do julgamento e da pressão da família, não tem planos de ter filhos e o seu foco atualmente é passar no vestibular para Arquitetura. "Sei que ainda tenho muitos desafios pela frente. Vou ter de lutar dentro e fora de casa para ser respeitada profissionalmente, ter igualdade salarial e não ceder à pressão dos parentes para ter uma família considerada padrão", conta. 

Entre meninos. O desafio da estudante Gabriela Baena, de 16 anos, é diferente. Ao contrário da mãe e das avós, sempre foi incentivada a fazer o que gostava - e se apaixonou pela Matemática, disciplina em que os meninos costumam se destacar. “Sei que a batalha vai ser árdua por querer entrar numa área masculina. Meu esforço terá de ser maior.” 

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Madalena (nome fictício) tem 14 anos e o sonho de conquistar a independência financeira e emocional. Aluna do 8º ano de uma escola pública, ela deu aulas de Inglês em 2017 para alunos, com idades que variavam de 8 a 90 anos. 

Ela diz que vai se esforçar muito para conseguir vaga em uma escola técnica e, assim, conseguir logo um bom emprego. "Minha mãe não consegue ficar sozinha, precisa estar em um relacionamento mesmo que seja abusivo, em que ela sofra e apanhe."

Madalena conta que seu sonho é estar bem empregada, em um relacionamento saudável e ter uma vida confortável com o dinheiro que ganhar. "Não quero depender de um homem para comprar o que eu precisar. Por isso fui dar aulas de Inglês. Eu ganhava pouco, mas podia comprar minhas coisas, minhas roupas", diz.

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Mudança. Para Marlise Matos, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Sobre a Mulher, da Universidade Federal de Minas Gerais, as jovens sabem que, se não iniciarem a mudança, suas filhas e netas terão o mesmo destino. “Elas querem ter o poder de definir seu próprio projeto de vida.”

A historiadora Celi Regina Pinto, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), lembra que uma agenda forte dessa geração é a autonomia do corpo. "O corpo tem uma dimensão política. É o direito de nós, mulheres, podermos existir sem que ninguém nos bata, invada, decida sobre ele por nós."

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