''O desfile virou uma mesmice. É muito chato''

Aplaudido pelo público e criticado no meio, Barros vai dividir o desfile da Vila Isabel com Alex Souza, num ''enredo burocrático''

Márcia Vieira, O Estadao de S.Paulo

05 Fevereiro 2009 | 00h00

Nos últimos cinco anos, as maiores surpresas do carnaval do Rio saem da cabeça de Paulo Barros, de 46 anos. A primeira foi em 2004, sua estreia no Grupo Especial, na modesta Unidos da Tijuca. Barros criou o antológico carro do DNA, uma pirâmide de bailarinos fazendo os movimentos das moléculas. Foi aplaudido pelo público e criticado por outros carnavalescos. Terminou em segundo lugar. No ano passado, levou uma pista de esqui, pela Viradouro. Ficou em sétimo lugar. Apesar de fazer belos desfiles, Barros nunca foi campeão. "Existe uma implicância dos jurados. O carnaval é uma fórmula que parece que não pode ser mexida. Tenho a sensação que os jurados falam: quem ele pensa que é?", diz. Em 2009, por pouco não fica fora do Grupo Especial. Por desavenças com o presidente da Viradouro, Marco Lira, Barros foi demitido em junho. "Ele aprontou comigo. Não aceitei uma proposta porque tinha dado a minha palavra que iria continuar na Viradouro." Ficou desempregado cinco dias, até ser chamado para dividir o carnaval da Vila Isabel com Alex Souza. Apesar do encontro de dois estilos diferentes, a Vila está entre as favoritas para o título. Pura ironia. "Esse carnaval é mais careta. Preferia ganhar com a minha ousadia completa e não pela metade." Como é chegar numa escola de samba no meio do ano com o carnaval todo definido? Eu me deparei com um enredo extremamente burocrático. Bonito, sem dúvida. Mas chato. Eu já falei isso para o Alex. Como funciona essa parceria? Cheguei na Vila em julho. O Alex já tinha desenhado as fantasias e os carros estavam na cabeça dele. Com o consentimento dele, mexi na roupa de duas alas. E o desenho dos carros decidimos juntos. O desfile vai ter um pouco dele e um pouco das minhas ideias. Não é um carnaval arrojado. É à minha maneira, só que careta. Como assim? O Alex quer fazer um carro representando o teatro. Eu pensei numa maluquice a partir do que um bailarino me disse. Segundo ele, esse pessoal que faz balé é tudo louco. Eu já imaginei fazer o Municipal como se fosse um hospício, com pessoas amordaçadas. Mas não consegui convencer o Alex. Esse ano a Vila está cotada para ser campeã. Será que você vai finalmente ganhar o seu primeiro carnaval? A Vila tem tudo para ganhar. Estamos trabalhando quase perto do critério do que os jurados querem. Se você ganhar, vai ter o mesmo gosto de vitória? Eu quero ganhar, mas não terá o mesmo sabor. Preferia ganhar com a minha ousadia completa e não pela metade. Você chegou no Grupo Especial há cinco anos, inovando com o carro do DNA. Não teria sido mais fácil ir mais devagar nas mudanças? Eu cheguei pensando em ficar. Se eu imitasse qualquer outro carnavalesco, seria uma cópia em menor escala. Decidi fazer algo completamente diferente. Você já pensou em se adaptar ao padrão dos jurados para ganhar o carnaval? Não vou. Eles vão ter de me engolir ou me tirar daqui. Você não faz carnaval para ganhar título? Eu faço para divertir o público. Não penso no julgador. Acho que o desfile virou uma mesmice. As pessoas não aguentam mais chegar no sambódromo e ver tudo igual, uma após a outra. E passa pluma, e passa gente em cima de carro. É muito chato.

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