O dia em que o povo de Igarapé do Meio resolveu fazer justiça

Carros de boi e sombrinhas ficaram no chão, dando lugar à revolta por ver uma menina morta pelo tiro de um PM

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

26 de julho de 2008 | 00h00

Dona Dinorá Lima da Silva é uma senhora baixinha e rechonchuda, de traços fortes, gestos exagerados, sempre sorridente e hospitaleira. "Quer café, moço? Água? E um arroz com feijão gostoso?", indaga a lavradora de 62 anos, há 33 morando em Igarapé do Meio, um vilarejo esquecido no interior do Maranhão. A casa de dona Dinorá é uma das mais bonitas da região, ampla, arejada, com portão de ferro e garagem, mesmo que quase não passem carros na cidade. Ali na sua rua - que nem nome ou placa tem -, o vizinho seca no asfalto o arroz que acabou de plantar, o carro de boi passa despreocupadamente e duas senhoras andam de sombrinha para agüentar o calor que deixa as pessoas moles.A lavradora, agora oferecendo cadeiras e almofadas, perde o sorriso apenas quando lembra da "maldade" - como denomina o que aconteceu no domingo passado, 20 de julho. Naquele dia, a cidade deixou de lado essa quietude, essa inocência interiorana. "As coisas já não são como eram antes, os tempos estão mudando", lamenta. "Aqui sempre foi muito tranqüilo, mas a maldade chegou perto. Como pode uma pessoa em quem a gente confia, que oferece café e dá bom dia, fazer uma coisa dessas? A gente boa daqui se revoltou, claro. Não queremos que a maldade e a violência tomem conta da cidade."As frases com sotaque carregado de dona Dinorá resumem bem o sentimento da população, que, de alguma forma, mudou o passo desde domingo. Num País que se acostuma a assistir no noticiário a relatos de crianças mortas pelo despreparo policial, Igarapé do Meio resolveu fazer justiça pelas próprias mãos. Eram quase 16 horas quando uma moto destemperada chegou no hospital da cidade trazendo uma garotinha baleada na cabeça. Cristiane de Sousa Silva, de 8 anos, já estava morta. O motorista gritou que um policial a havia assassinado, um agente bêbado, tomando cachaça no bar em pleno serviço. E a notícia correu.Como se fosse cena do livro Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, os moradores cegos por vingança deixaram carros de boi e sombrinhas e foram cobrar satisfação na frente da delegacia. Começou a gritaria. "Justiça. Assassino. Quebra." Um grupo de 30 pessoas com paus e pedras destruiu as janelas e soltou os presos. O carcereiro, morrendo de medo, fugiu correndo. Testemunhas afirmam que quase mil pessoas assistiram à destruição - incluindo dona Dinorá e seu filho Michael, que filmou tudo. Quando eram 20 horas, a delegacia já havia sido consumida pelo fogo. "As pessoas não queriam ferir ninguém, era uma revolta, pra extravasar toda aquela raiva", explica Michael Lima da Silva, de 25 anos. "Não conhecia a menina, acho que ninguém conhecia, nem morava na cidade. Mas isso mexe com todos."Até os presos que tiveram de abandonar às pressas a cela ficaram com medo. Dos 11, apenas 7 se entregaram. "Moradores serraram os dois cadeados e falaram que iam botar fogo em tudo", conta Rafael Sousa Pereira, preso há quatro meses por um assalto num mercado, que ele nega. "Deram dois socos na cara do carcereiro, que saiu correndo. Mas foram simpáticos comigo, até me ensinaram o caminho da estrada para eu voltar à casa dos meus pais. Andei 18 quilômetros a pé. Quando cheguei, meus parentes já sabiam do acontecido. Mas quero ir logo pra frente da juíza provar que sou inocente."A delegacia, quase uma semana depois, ainda tem cheiro forte de queimado. Parece cena de guerra - até hoje, o município está sem força policial. As telhas estão quebradas pelo chão, junto a documentos, móveis e o que sobrou de um computador. Na parede da cela, ainda dá para ler em letras garrafais amarelas: "não se afogue em tristeza confie em Deus Ele tudo fará." E outro preso, Kerly Pinto Oliveira, de 23 anos, conta: "Os moradores pegaram as bombas da polícia que estavam no armário, jogaram no telhado e destruíram tudo." Oliveira também se entregou e afirma ser inocente da acusação de porte de drogas. "Estavam muito revoltados. O pai da garota é humilde, né, pô? A população se revolta."BEIRA DO RIOIgarapé do Meio é uma cidade longe, muito longe, que mesmo os maranhenses não sabem direito localizar no mapa. Tem algo em torno de 10 mil habitantes e fica a 330 quilômetros de São Luís, por uma estrada esburacada que tem a mesma paisagem por todas as quatro horas e pouco de viagem - árvores enormes de babaçu, gado e capim a perder de vista. Parece um registro do Brasil Colonial, com casas simples, muitas de pau-a-pique, feitas em apenas uma semana e depois abandonadas após alguns anos. É acima de tudo pobre e sobrevive por força dos empregos públicos, pelo quase inexistente comércio local e pela lavoura de subsistência. Para cada bar, há um centro religioso - só na avenida principal, são quatro bares, uma igreja católica, uma adventista e uma evangélica, além de uma associação espírita. Mas também é uma cidade de pessoas simpáticas, cujos últimos crimes registrados passam apenas por roubo de galinhas, sacos de feijão no mercadinho e botijões de gás. Por isso mesmo, a morte de Cristiane chocou tanto.O soldado da Polícia Militar Raimundo José Ramos dos Santos, uma namorada e um colega de trabalho, Jonatan Wilker Santos, estavam sentados em um bar humilde à beira do rio de Laje Comprida, um vilarejo a 14 quilômetros de Igarapé do Meio - que funciona quase como um balneário da região. Laje Comprida é ainda mais pobre do que a cidade vizinha, com todas as casas feitas de taipa e sapê. Nos fins de semana, no entanto, centenas de pessoas se amontoam ali para tomar banho de rio - uma das únicas formas de suportar o tempo quente e abafado mesmo no inverno. Ramos era uma delas - nega que estivesse se divertindo, mas pessoas da região e mesmo o dono do bar afirmaram em depoimento que o policial militar, de camiseta e bermuda, estava visivelmente embriagado. Era seu sétimo dia direto de plantão.Por volta das 15 horas, uma briga começou a 100 metros de Ramos. Dois sujeitos ainda não identificados se xingavam, um tirou uma navalha do bolso e fez um corte da orelha até a boca do outro rapaz, que foi socorrido pelos banhistas. O policial militar então deu voz de prisão ao homem, que fugiu cruzando o rio a pé - a água, quase que morna de tanto calor, não passa do peito das pessoas. Na outra margem, o tal homem passou a provocar o policial. Ramos tirou o revólver da cintura e deu cinco tiros, a mais de 50 metros de distância. Pessoas que estavam no local dizem que nem mirou, só atirou.Cristiane estava do outro lado do margem, longe da confusão. Brincava com seu pai, o lavrador José Reinaldo da Silva, sob um pé de tamarindo, enquanto ele cortava tiras de palha para uma cesta. A garota tinha cinco irmãos e todos moravam em uma casa de taipa na beira do rio, sem luz elétrica ou fogão, erguida com muito esforço por José Reinaldo em apenas cinco dias. Um dos tiros acertou a nuca de Cristiane e saiu pela testa. O pai a pegou e saiu correndo para cruzar o rio numa canoa e tentar socorrê-la no hospital de Igarapé do Meio, o único da região. A mãe, Maria Antônia de Sousa Silva, que chegou ao pé de tamarindo após ouvir os tiros e desmaiou ao ver o corpo da filha, conseguiu apenas ficar em casa chorando e rezando."Todo mundo aqui gostava muito dela, era muito querida, obediente, ajudava em casa", diz Maria Antônia, que agora tem apenas uma foto e as memórias para lembrar de Cristiane. Desde domingo, José Reinaldo não tem parado em casa, trabalha desde cedo até o anoitecer para tentar ficar longe de Laje Comprida. O casal teve de pedir dinheiro a vizinhos para o enterro. "Ela era carinhosa, adorava cantar, dançar. Sinto falta dela demais, principalmente no jantar, quando está todo mundo reunido, ou na hora de dormir, quando eu colocava ela na cama. Agora as crianças nem brincam mais direito aqui, todo mundo está triste."O soldado Ramos se entregou na terça-feira e está detido administrativamente com seu colega Jonatan Wilker Santos no quartel de Pindaré-Mirim, mais um vilarejo vizinho. Em oito horas de depoimento, ele assumiu os disparos, mas disse que estava trabalhando numa ocorrência e não colocou em risco a vida das pessoas. Segundo o comandante-geral da corporação no Estado, coronel Antônio Pinheiro Filho, um inquérito militar foi aberto. "Dois soldados abandonaram seus postos de trabalho e foram para um banho. Todas as providências serão tomadas. Se for provada a culpa, eles serão afastados."Ramos pode pegar de 6 a 20 anos de prisão. Outro inquérito foi aberto para apontar os autores do incêndio na delegacia de Igarapé do Meio. "Essa não é a primeira delegacia do interior do Maranhão queimada por causa da revolta dos moradores", diz o delegado da Polícia Civil José Maria Melônio Filho, responsável pela investigação, que fez ontem a exumação do corpo de Cristiane para concluir o exame necroscópico. Ele foi destacado de São Luís para acompanhar o caso, já que nem Polícia Civil Igarapé do Meio tem. "Isso não pode virar mania. Vamos pegar uns três para colocar na cadeia e servir de Cristo, até para dar a lição. Uma coisa é querer Justiça, outra é fazer justiça. E isso a cidade não pode fazer sozinha, desrespeitando as leis."

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